Fomos enganados: a democracia dos Estados Unidos e seu elogiado sistema de pesos e contrapesos eram uma farsa?

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Uma discussão cada vez mais pertinente diante de um presidente americano que ameaça o mundo.

Durante décadas, o mundo foi ensinado a admirar os Estados Unidos como o farol da democracia liberal. Escolas, meios de comunicação e até mesmo instituições internacionais apresentavam o modelo norte-americano — com seu famoso sistema de “pesos e contrapesos” (checks and balances) — como um exemplo quase perfeito de equilíbrio institucional, proteção das liberdades individuais e governança transparente. No entanto, pesquisas recentes, revelações jornalísticas e análises acadêmicas vêm desmontando essa narrativa idealizada, expondo profundas fissuras estruturais que transformam o suposto modelo democrático em uma farsa institucionalizada.

O mito dos “pesos e contrapesos”

O sistema de pesos e contrapesos, concebido pelos Pais Fundadores no século XVIII, foi projetado para evitar a concentração de poder em qualquer um dos três ramos do governo: Executivo, Legislativo e Judiciário. Em teoria, cada ramo teria mecanismos para limitar os excessos dos demais. Contudo, a realidade contemporânea mostra que esse equilíbrio foi sistematicamente corroído por interesses corporativos, partidarismo extremo e decisões judiciais que privilegiam elites econômicas.

Um estudo publicado pela Universidade de Princeton em 2014, conduzido pelos cientistas políticos Martin Gilens e Benjamin Page, analisou mais de 1.700 políticas públicas implementadas entre 1981 e 2002. A conclusão foi contundente: “As preferências da maioria média dos cidadãos americanos têm pouco ou nenhum impacto independente sobre a política pública.” Em vez disso, as decisões são dominadas por elites econômicas e grupos de interesse organizados — ou seja, os EUA operam mais como uma oligarquia do que como uma democracia pluralista.

“Quando uma maioria de cidadãos discorda de elites econômicas e/ou grupos de interesse organizados, eles geralmente perdem”, afirmaram os autores.

Esse achado foi corroborado anos depois pela Universidade Northwestern, cuja pesquisa de 2020 mostrou que, desde os anos 1980, a influência do capital sobre o processo legislativo cresceu exponencialmente, especialmente após decisões da Suprema Corte como Citizens United v. FEC (2010), que permitiu doações ilimitadas de empresas e sindicatos às campanhas eleitorais sob o argumento de “liberdade de expressão”.

O poder judicial: guardião ou parte do problema?

A Suprema Corte dos EUA, frequentemente vista como árbitro imparcial, tem sido alvo de críticas crescentes por sua politização. Desde a década de 1980, nomeações judiciais tornaram-se armas ideológicas. O caso mais emblemático recente foi a indicação de três juízes conservadores durante a presidência de Donald Trump — incluindo Amy Coney Barrett, confirmada dias antes das eleições de 2020, enquanto o Senado republicano havia recusado, em 2016, sequer considerar a indicação de Merrick Garland feita por Barack Obama.

Essa hipocrisia partidária revela que o Judiciário não é um baluarte neutro, mas um campo de batalha político. A própria legitimidade da Corte foi abalada quando, em 2022, derrubou o direito constitucional ao aborto (Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization), revertendo quase 50 anos de jurisprudência consolidada (Roe v. Wade). A decisão, tomada por uma maioria conservadora indicada por presidentes que não venceram o voto popular (Bush em 2000 e Trump em 2016), expôs como minorias podem impor sua vontade sobre a maioria — o oposto do que se espera de uma democracia.

O colégio eleitoral: um anacronismo anti-democrático

Outro pilar do “modelo democrático” norte-americano é o Colégio Eleitoral, criado em 1787 para equilibrar o poder entre estados populosos e menos povoados. Hoje, porém, ele funciona como um mecanismo que desvaloriza o voto popular. Em 2000 e 2016, candidatos que perderam o voto popular nacional foram eleitos presidente graças a esse sistema arcaico.

Segundo análise do Centro Brennan de Justiça da Universidade de Nova York, o Colégio Eleitoral distorce a representação política, concentrando a atenção dos candidatos em poucos “estados-pêndulo” e ignorando milhões de eleitores em estados considerados “seguros”. Isso significa que um voto na Califórnia ou no Texas vale menos do que um voto no Arizona ou na Geórgia — violando o princípio democrático básico de “um homem, um voto”.

A influência do dinheiro na política

A democracia americana está profundamente capturada pelo financiamento privado de campanhas. De acordo com dados do OpenSecrets.org (projeto da Center for Responsive Politics), os gastos nas eleições federais de 2024 ultrapassaram US$ 18 bilhões — um recorde histórico. Grande parte desse montante vem de doadores super-ricos e corporações que esperam retorno em forma de políticas favoráveis.

Um relatório da Harvard Law School (2023) destacou que, nos últimos 20 anos, mais de 60% dos congressistas eleitos tinham patrimônio líquido acima de US$ 1 milhão, enquanto a mediana da população americana é de cerca de US$ 130 mil. Essa disparidade de classe transforma o Congresso em um clube de elite, desconectado das necessidades reais da maioria.

Forçando a mão o sistema quebra?

O atual ocupante da Presidência opera dentro dessas brechas institucionais com a sutileza de um elefante. Ele explora a polarização extrema para enfraquecer o papel do Congresso, pressiona limites legais por meio de decretos e nomeações estratégicas e trata os freios institucionais menos como regras e mais como obstáculos a serem testados. Ao tensionar normas democráticas — muitas delas baseadas mais em costumes do que em leis rígidas —, o chefe do Executivo revela como o sistema depende da boa-fé dos atores políticos para funcionar. Quando essa boa-fé desaparece, o equilíbrio prometido simplesmente não se sustenta.

Além disso, a Presidência fortalece alianças com setores econômicos e grupos políticos que já exercem influência desproporcional sobre o Estado. O resultado é um ciclo previsível: decisões que favorecem elites, retroalimentadas por financiamento político, apoio midiático segmentado e uma base eleitoral mobilizada mais por conflito do que por políticas públicas concretas. Nesse contexto, o sistema de pesos e contrapesos não é rompido de forma explícita — ele é forçado até o limite, dobrado sem quebrar, revelando que sua solidez nunca foi institucional, mas circunstancial.

Uma democracia de fachada?

Longe de ser um modelo a ser seguido, a democracia dos Estados Unidos revela-se, sob escrutínio rigoroso, como um sistema profundamente desigual, onde o poder real reside nas mãos de poucos. O elogiado sistema de pesos e contrapesos, longe de garantir equilíbrio, muitas vezes serve para legitimar decisões antidemocráticas sob uma roupagem institucional.

Como escreveu o historiador Noam Chomsky em entrevista à The Guardian (2025):

“Os EUA têm eleições, sim. Mas eleições controladas por quem financia campanhas, quem controla a mídia e quem define as regras do jogo. Isso não é democracia. É plutocracia com eleições periódicas.”

Fomos enganados, sim — não por malícia individual, mas por um sistema que, ao longo de décadas, foi vendido como universal e justo, enquanto funcionava como máquina de reprodução de privilégios. Reconhecer essa verdade não é anti-americano; é o primeiro passo para exigir uma democracia real, não apenas de aparência.