POR CAUSA DAS FORTES CHUVAS, O INÍCIO DO FESTIVAL FOI ADIADO PARA AMANHÃ (QUINTA, 22/1).
Você já percebeu como alguns festivais vão além do palco? Às vezes, eles dizem mais sobre uma cidade do que qualquer discurso oficial. Entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro, a Arena de Verão de Vila Velha, na Praia de Itapuã, vira esse espelho. O Festival Delírio Tropical chega à sétima edição celebrando a música autoral capixaba, mas também algo ainda mais essencial: o direito de todo mundo ocupar o mesmo espaço, com conforto e respeito. Não é exagero dizer que, neste verão, a inclusão deixa de ser promessa e passa a ser prática concreta.
A programação é gratuita, extensa e diversa. Serão mais de 80 atrações e cerca de 100 horas de shows, reunindo artistas do Espírito Santo, do Brasil e, pela primeira vez, do exterior. A expectativa da organização é de que cerca de 200 mil pessoas circulem pela Arena de Verão ao longo dos dez dias de evento, consolidando o Delírio Tropical como um dos maiores festivais de música regional do país.
Mas o que diferencia esta edição não está apenas na quantidade de shows ou na variedade de estilos. Está no cuidado. E isso muda tudo.
Inclusão que sai do papel e chega ao público
O Delírio Tropical decidiu tratar acessibilidade como parte central do festival, não como detalhe. Para isso, criou um Formulário de Acessibilidade, disponível no site oficial do evento, que permite que pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida informem previamente suas necessidades. Ali, o público pode indicar datas de presença, tipo de suporte necessário, uso de equipamentos, presença de acompanhante e até anexar laudo médico, quando aplicável.
A partir dessas informações, uma equipe multidisciplinar se organiza para oferecer atendimento humanizado durante todo o evento. Na prática, isso significa menos improviso e mais acolhimento.
A estrutura física acompanha esse compromisso. O espaço conta com tablado de piso nivelado, rampas de acesso, área exclusiva com visão privilegiada dos palcos para pessoas com deficiência e acompanhantes, banheiros adaptados e cardápios em braille. Para quem tem sensibilidade auditiva ou está dentro do Transtorno do Espectro Autista, haverá abafadores de ouvido. Os shows contam ainda com intérprete de Libras, audiodescrição e comunicação visual simples, em alto contraste.
Segundo o diretor do festival, Sullivan Silva, a proposta é cumprir, de forma efetiva, a Lei Brasileira de Inclusão. “A gente quer garantir conforto, segurança e equidade de acesso. Não é favor, é direito. E a equipe de acessibilidade estará presente do início ao fim do evento”, afirma.
Um retrato sonoro do Espírito Santo
Se a estrutura acolhe, o palco provoca. O Delírio Tropical é, acima de tudo, um grande retrato sonoro do Espírito Santo. A programação passeia por pop, rock, hardcore, reggae, samba, axé, blues, funk, country, música eletrônica e MPB, sempre com forte presença autoral.
A cultura popular capixaba marca presença com as tradicionais bandas de congo Beatos de São Benedito, Raízes, Tambor Jacaranema e Mestre Honório. No rock e no hardcore, nomes como Rastaclone, Pé do Lixo, Nave S.A., Estado de Sítio, Muddy Brothers e Mukeka di Rato prometem levantar a areia de Itapuã, incluindo a turnê do álbum “Generais de Fralda”.
Artistas já consagrados no cenário local, como André Prando, Casaca, Java Roots, Macucos e Dallas Country, dividem espaço com novos encontros e projetos especiais. É como uma grande moqueca sonora: ingredientes diferentes, fogo alto e identidade própria.
Pré-carnaval, samba e encontros inéditos
O clima de verão ganha contornos de pré-carnaval com Andrea Nery, Beto Kauê e uma sequência de rodas e blocos de samba, como Mocidade Unida da Glória, Regional da Nair, Balança Penha, Clube do Samba, Mais Astral e Samba Crioulo. Um dos pontos altos promete ser a Mega Roda de Samba, reunindo Explosão do Pagode, Choppsamba e Samba Sim.
E tem mais. O festival aposta em encontros inéditos entre gerações e estilos, colocando no mesmo palco artistas como Luiza Pastore e Gastação Infinita, Bruno Caliman e Nano Vianna, Saulo Simonassi e Dona Fran, Fábio Carvalho e Caju, entre outros. Nos intervalos, DJs assumem o comando e mantêm o ritmo com diferentes vertentes da música eletrônica.
Uma atração internacional e o olhar para fora
Pela primeira vez, o Delírio Tropical recebe uma atração internacional. A cantora portuguesa Marisa Liz, conhecida do grande público como mentora do programa “The Voice Portugal”, se apresenta no dia 25 de janeiro. O show inaugura a parceria com a RHI – Arte Institute de Portugal, que passa a atuar como embaixadora do festival na Europa e nos Estados Unidos.
Para Sullivan Silva, essa abertura é estratégica. “O Delírio Tropical é um palco do Espírito Santo para o mundo. A gente une o novo e o tradicional, o vintage e o cool. É orgulho do território, mas com os olhos voltados para fora”, resume.
Muito além da música
Além dos shows, o público encontra Vila Gastronômica, feira criativa e atrações para as crianças, como o fenômeno infantil Gato Galáctico. Tudo isso à beira-mar, com entrada gratuita e apoio institucional da Prefeitura de Vila Velha.
No fim das contas, o Delírio Tropical funciona como um daqueles festivais que deixam marca. Não só pela trilha sonora do verão, mas pela sensação de que é possível fazer diferente. Com cuidado. Com respeito. E com gente de verdade ocupando todos os espaços.
