Hoje é o dia dele. 10 de fevereiro. Coma com gosto!
O que é preto, gostoso e o brasileiro não vive sem. Se você respondeu café: errou. Tudo bem, acontece. Vamos melhorar: tem gente que até coloca açúcar — uma heresia, convenhamos — mas com o tempero da vovó é imbatível. E hoje é o dia dele.
Agora você sabe. Estamos falando dele, o rei do prato, amigão inseparável do arroz e uma unanimidade nacional: o feijão.
Se bem que você poderia dizer, ô meu, tem feijão que não é preto. Verdade. Mas como bom carioca — ou como bom brasileiro, no geral — a gente sempre começa pelo clássico.
O feijão preto não entra na vida da gente. Ele se instala. Chega devagar, borbulhando na panela, ocupando a casa inteira com aquele cheiro que atravessa paredes e avisa, sem levantar a voz: o almoço está garantido. Não promete nada além disso. E talvez seja justamente por isso que cumpre tanto.
O feijão não gosta de pressa. Exige tempo, silêncio e respeito. Alho dourado sem queimar, cebola suando, folha de louro discreta. Mexer pouco. Esperar. Feijão apressado é igual conversa mal resolvida: até mata a fome, mas não conforta.
Tem feijão de todo tipo, é verdade. Carioca, vermelho, branco etc. Cada um com sua personalidade, seu sotaque, seu jeito de chegar. Mas todos cumprem a mesma missão nobre: salvar o almoço. Arroz sozinho é só um pedido de ajuda. Arroz com feijão vira refeição. Vira costume. Vira memória.
E se o assunto é salvar situações, não dá pra esquecer dele: o feijão tropeiro. Esse sim rodou estrada. Nasceu para aguentar viagem longa, sela dura, sol na cabeça e fome sem frescura. Feijão que não mela, farinha que sustenta, carne seca que não estraga fácil. O tropeiro alimentou caminhos, ligou cidades, empurrou o Brasil para frente. Muita estrada só existiu porque tinha tropeiro — e muito tropeiro só chegou ao destino porque tinha feijão.
Porque feijão também é lembrança. É a panela no fogo desde cedo. É a mãe gritando da cozinha: “não mexe na panela!”. É o medo de queimar o fundo e o alívio quando dá certo. É o prato fundo, a colher generosa e aquele caldo que pede respeito. Ninguém conversa enquanto prova. É quase um minuto de silêncio.
E aí existe um capítulo à parte, quase sagrado, que merece atenção especial: o caldinho de feijão. Aquilo não é sobra. Não é improviso. É alquimia. Feijão batido, alho no ponto, um fio honesto de azeite e cheiro-verde jogado sem medir. Servido quente, em copinho pequeno, porque a ideia é conforto, não ostentação. Caldinho cura frio, ressaca e dia ruim. Tem quem chame de entrada. Outros chamam de salvação.
Se o caldinho abraça, o feijão amigo junta. É feijão, cebola, bacon, linguiça e, às vezes, um torresminho que aparece sem ser chamado. Não é prato solitário. Feijão amigo pede mesa cheia, conversa atravessada, risada alta e cerveja gelada. É comida que estica a noite e transforma encontro casual em lembrança boa.
E não importa a fase da vida. Universitário quebrado, trabalhador cansado, domingo em família, quarta-feira sem graça. O feijão está lá. Fiel. Nunca julga, nunca abandona. Pode até ser trocado por modismos, dietas da moda ou grãos difíceis de pronunciar. Ele não se ofende. Espera. Sabe que uma hora a gente volta. Sempre volta.
Porque no fundo — bem no fundo da panela e da memória — o feijão é isso: comida de verdade. Daquelas que sustentam o corpo, organizam a vida e, quando preciso, salvam a viagem.
Se hoje é o dia dele, justo. Mas sejamos honestos: feijão não precisa de data.
Ele já mora na casa da gente.
