O Brasil encolheu dentro da sala de aula.
O novo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), mostra que a educação básica perdeu mais de 1 milhão de matrículas em um ano.
O total caiu de 47,1 milhões para cerca de 46 milhões de estudantes em 2025. A retração é de 2,29% — a maior registrada desde 2007.
Não é um ajuste pequeno. É uma mudança estrutural.
O que explica a queda?
Há dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo.
O primeiro é demográfico. O Brasil está tendo menos filhos. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a população em idade escolar vem diminuindo, principalmente nas faixas de 0 a 4 anos e de 15 a 17 anos.
Menos crianças nascendo hoje significa menos alunos nas creches e, alguns anos depois, menos adolescentes no ensino médio.
O segundo movimento está dentro da própria escola. O MEC aponta melhora no chamado “fluxo escolar”. Traduzindo: menos repetência e menos distorção idade-série.
No ensino médio, por exemplo, a distorção caiu quase pela metade nos últimos anos. Quando o aluno avança na idade correta, o sistema deixa de “inchar” artificialmente. O número total de matrículas diminui — mas isso não significa, necessariamente, evasão.
Ainda assim, os números exigem atenção.
Ensino médio tem o menor patamar em décadas
O impacto mais visível aparece no ensino médio.
Vários estados registraram retração expressiva, com o menor volume de alunos desde o início dos anos 2000.
A combinação entre menos jovens e reorganização curricular ajuda a explicar o cenário. Porém, especialistas alertam que o ensino médio já enfrentava dificuldades antes da pandemia — como abandono, necessidade de trabalhar cedo e desinteresse pelo modelo tradicional.
Ou seja: nem tudo pode ser atribuído apenas à transição demográfica.
Educação infantil também encolheu
Outro dado chama atenção. A educação infantil, que vinha crescendo de forma consistente nos últimos anos, também perdeu matrículas.
Depois da pandemia, muitas redes ampliaram vagas em creches. Agora, o ritmo desacelerou. Com menos nascimentos, a tendência é que a pressão por novas vagas diminua — mas o desafio passa a ser outro: qualidade e permanência.
Um contraponto: cresce o tempo integral
Nem todos os indicadores recuaram.
O Censo mostra avanço das matrículas em tempo integral, modalidade com jornada mínima de 35 horas semanais. O percentual chegou a 25,8% — o maior da série histórica.
É um dado relevante. Escola em tempo integral costuma estar associada a melhores resultados pedagógicos e maior permanência do aluno.
Mas o desafio continua enorme. O Plano Nacional de Educação prevê metas mais ambiciosas para essa modalidade.
O que os números realmente dizem
A queda de 1 milhão de matrículas não significa que 1 milhão de estudantes abandonaram a escola de um ano para o outro.
Parte do recuo é demográfica. Parte é reflexo de organização interna do sistema.
Ainda assim, o dado muda o cenário da educação brasileira.
Menos alunos significam redes escolares que precisarão se adaptar. Municípios pequenos já enfrentam salas vazias. Estados discutem reorganização de unidades. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por qualidade — não apenas por quantidade.
O Brasil entra, de forma mais clara, na fase da transição demográfica dentro da educação.
E isso exige planejamento. Agora.
