Documento de 1916 reacende debate: EUA reconheceram domínio da Dinamarca sobre a Groenlândia

Em 1916, em meio a negociações diplomáticas que redesenhavam o mapa do Atlântico Norte, os Estados Unidos registraram oficialmente que não se oporiam ao domínio dinamarquês sobre a Groenlândia. O reconhecimento consta em um documento assinado durante a venda das então Índias Ocidentais Dinamarquesas aos americanos — território que hoje corresponde às Ilhas Virgens dos EUA.

Mais de um século depois, esse gesto diplomático voltou ao centro do debate internacional. O motivo é o interesse renovado de Washington pela maior ilha do mundo, estratégica no tabuleiro geopolítico do Ártico.

Um acordo em tempos de guerra

A declaração foi assinada pelo então secretário de Estado dos EUA, Robert Lansing, durante o governo do presidente Woodrow Wilson. O contexto era a Primeira Guerra Mundial. A Dinamarca, país neutro, buscava garantias políticas em troca da venda de seu território no Caribe. Uma delas era o reconhecimento explícito da soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia.

Os Estados Unidos aceitaram. Na prática, o documento funcionou como um aval político internacional, reforçando a legitimidade de Copenhague sobre a ilha, que já era administrada pela Dinamarca desde o século XVIII.

O status da Groenlândia hoje

Atualmente, a Groenlândia é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca. Desde 2009, possui amplo autogoverno, com parlamento próprio e controle sobre a maioria das políticas internas. Defesa e relações exteriores, no entanto, continuam sob responsabilidade do governo dinamarquês.

Com cerca de 57 mil habitantes, a ilha ocupa posição estratégica no Ártico. O degelo acelerado, provocado pelas mudanças climáticas, ampliou o interesse global por suas rotas marítimas e por reservas minerais ainda pouco exploradas.

Por que os EUA voltaram a olhar para a ilha

O interesse americano não é novo. Durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, os Estados Unidos instalaram bases militares na Groenlândia, consideradas essenciais para a defesa do continente norte-americano. Até hoje, o país mantém presença militar no território.

Nos últimos anos, declarações de líderes políticos dos EUA reacenderam a discussão sobre o futuro da ilha. O argumento central é a segurança nacional e o avanço da influência de potências rivais no Ártico. As falas, porém, causaram forte reação na Europa.

Reação da Dinamarca e da Europa

O governo dinamarquês foi direto. A Groenlândia não está à venda. Autoridades em Copenhague classificaram qualquer tentativa de anexação como inaceitável e contrária ao direito internacional. Países europeus também se manifestaram em defesa da soberania dinamarquesa e do princípio da autodeterminação dos povos.

O tema ganhou contornos ainda mais sensíveis por envolver alianças militares e a estabilidade da OTAN, organização da qual Dinamarca e Estados Unidos fazem parte.

O que pensam os groenlandeses

Dentro da Groenlândia, a posição predominante é clara: o futuro da ilha deve ser decidido por seus próprios habitantes. Pesquisas de opinião indicam rejeição à ideia de se tornar território americano. Ao mesmo tempo, cresce o debate interno sobre uma possível independência gradual em relação à Dinamarca.

Líderes locais defendem mais autonomia econômica e política, mas sem interferência externa ou pressões geopolíticas.

Um documento antigo, um debate atual

O texto assinado em 1916 não obriga juridicamente os Estados Unidos hoje. Ainda assim, ele carrega peso simbólico. Ao reconhecer o domínio dinamarquês no passado, Washington deixou registrado que a soberania da Groenlândia não era uma questão em disputa.

Cem anos depois, o documento reaparece como lembrança de que, mesmo em tempos de disputas globais, a história e o direito internacional continuam sendo peças centrais na definição do futuro dos territórios.