“Dia histórico para o Brasil”: acordo Mercosul–União Europeia avança e pode entrar em vigor ainda em 2026

Você sente quando algo grande está para acontecer, mesmo antes de virar realidade? É mais ou menos isso. Depois de mais de 25 anos de negociação, a União Europeia deu sinal verde para o acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco fundado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Não é exagero chamar de histórico. O tratado une dois mercados gigantes, com centenas de milhões de consumidores, e reposiciona o Brasil no tabuleiro do comércio global num momento de tensão, tarifas altas e disputas geopolíticas.

Lula comemora e fala em vitória do diálogo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou o avanço do acordo e classificou o dia como uma vitória do multilateralismo. Segundo ele, o entendimento mostra que ainda há espaço para cooperação e negociação num mundo cada vez mais fechado e protecionista.

Lula destacou que o pacto amplia mercados para produtos brasileiros, estimula investimentos e fortalece a presença do país na economia internacional. Em outras palavras: menos barreiras, mais portas abertas.

Ainda não vale, mas o relógio está correndo

É importante respirar fundo aqui. O acordo ainda não entrou em vigor. Ele precisa passar por algumas etapas formais, como assinatura oficial e ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos, incluindo o Congresso Nacional e o Parlamento Europeu.

Mesmo assim, o governo brasileiro está otimista. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a expectativa é de que o acordo entre em vigor ainda em 2026. Segundo ele, se Brasil e União Europeia concluírem a aprovação primeiro, o tratado pode começar a valer entre os dois, mesmo que outros países do Mercosul ainda estejam finalizando seus processos internos.

Exportações em alta no horizonte

Do ponto de vista econômico, os números animam. A expectativa é de que o acordo eleve significativamente as exportações brasileiras para a Europa, com impacto direto em setores como agronegócio e indústria de transformação.

Produtos como café, suco de laranja, carnes, milho, mel, além de itens industrializados — aviões, calçados, móveis e máquinas — ganham acesso facilitado ao mercado europeu, com redução ou eliminação de tarifas. Isso significa mais competitividade lá fora e mais fôlego para empresas brasileiras.

Há também um efeito colateral positivo: a chance de diversificar a pauta exportadora, hoje muito concentrada em commodities.

Indústria e empregos no radar

Alckmin ressaltou que o acordo tende a atrair investimentos estrangeiros, fortalecer cadeias produtivas e gerar empregos. A indústria brasileira, que já tem relação comercial forte com a Europa, pode ganhar escala e previsibilidade.

Mas não é um caminho sem curvas. Parte do setor industrial teme a concorrência com produtos europeus mais baratos. O desafio, segundo especialistas, será combinar abertura comercial com políticas internas que protejam empregos e estimulem inovação.

Resistências seguem, especialmente na Europa

Do outro lado do Atlântico, o acordo enfrenta resistência, sobretudo de agricultores europeus. Eles temem perder espaço para produtos sul-americanos, geralmente mais baratos. Em alguns países, a pressão política foi intensa e gerou protestos.

Mesmo assim, a maioria dos governos europeus decidiu seguir em frente. A leitura é clara: o acordo é estratégico, não apenas econômico, mas também geopolítico.

O que vem agora

Os próximos meses serão decisivos. A assinatura formal deve acontecer em breve. Depois disso, começa a corrida pela ratificação nos parlamentos. Se tudo avançar como o governo brasileiro espera, parte dos efeitos do acordo pode começar a ser sentida ainda neste ano.

Talvez você não perceba a mudança de imediato. Mas ela pode aparecer no preço de produtos, nas exportações brasileiras, nos investimentos e até nas oportunidades de emprego.

É como um navio que passou décadas atracado. Agora, finalmente, começou a soltar as amarras.

Quem é quem no Mercosul

Nem todos os países ligados ao Mercosul têm o mesmo peso nas decisões do bloco. Entender essa diferença ajuda a compreender por que alguns participam diretamente de acordos internacionais, como o firmado com a União Europeia, enquanto outros ficam à margem.

Os Estados Partes são os membros plenos. Eles decidem, votam, assumem compromissos comerciais e aplicam as regras comuns do Mercosul. Hoje, esse grupo é formado por Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.

A Venezuela também é formalmente um Estado Parte, mas está suspensa de todos os direitos e obrigações desde 2017, por descumprimento da cláusula democrática. Na prática, não participa das decisões nem influencia os rumos do bloco.

Já os Estados Associados mantêm acordos de cooperação e comércio com o Mercosul, participam de reuniões e projetos regionais, mas não votam nem definem regras. Fazem parte desse grupo Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Peru e Suriname.

Somados, os países do Mercosul e seus associados reúnem mais de 430 milhões de pessoas, enquanto a União Europeia soma cerca de 450 milhões de habitantes. Juntos, os dois blocos formam um mercado de quase 900 milhões de consumidores. Em um momento de recrudescimento do protecionismo global — marcado por ataques comerciais, tarifaços e ameaças recorrentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra parceiros históricos — esse volume de gente, produção e consumo ganha peso político e econômico. Não é só comércio. É estratégia, sobrevivência e equilíbrio num mundo cada vez mais hostil às regras multilaterais.

Em resumo:
quem é Estado Parte decide;
quem é Associado acompanha;
e quem está suspenso existe no papel, mas não no jogo.