Em silêncio, longe do debate político do dia a dia, uma das maiores promessas ambientais do século avança. Ou tenta avançar. Criada pela ONU, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, válida de 2021 a 2030, chega à metade em 2026 com uma pergunta direta e incômoda: o que foi feito até agora e o que ainda falta para que o oceano não vire apenas estatística?
O plano nasceu grande. Ambicioso. Necessário. O oceano cobre mais de 70% do planeta, regula o clima, garante alimento e sustento para bilhões de pessoas. Mesmo assim, segue tratado como algo distante. A Década dos Oceanos surgiu para mudar essa lógica, trazendo o mar para o centro das decisões globais. Agora, com apenas cinco anos pela frente, o discurso precisa virar resultado.
Quando a ONU lançou a Década dos Oceanos, a promessa não era apenas produzir mais estudos científicos. A ideia era transformar ciência em ação concreta, tirar os dados do laboratório e colocá-los a serviço da sociedade. O pacto estabeleceu uma visão clara: até 2030, o mundo deveria avançar rumo a um oceano mais limpo, com menos poluição; mais saudável, com ecossistemas protegidos e restaurados; mais previsível, capaz de antecipar eventos extremos; mais seguro para comunidades costeiras; produtivo, com pesca sustentável; acessível, com dados abertos; e, acima de tudo, valorizado pela população.
No papel, o plano fazia sentido. Na prática, o oceano não espera.
Há avanços, e eles são reais. Negar isso seria injusto. Nos últimos anos, mais de 500 iniciativas científicas ligadas à Década foram reconhecidas oficialmente. O mapeamento do fundo do mar avançou como nunca. Regiões antes desconhecidas começaram a ganhar forma, nome e dados confiáveis. Novas tecnologias ampliaram o olhar sobre a biodiversidade marinha e ajudaram a entender melhor correntes, temperaturas e impactos do aquecimento global.
Fora dos laboratórios, também houve progresso. Redes internacionais se fortaleceram, pesquisadores do Sul Global passaram a ter mais espaço e a educação oceânica entrou no currículo escolar em vários países, inclusive no Brasil. O oceano deixou de ser figurante e passou a ocupar lugar central no debate climático.
Mas o ritmo ainda está longe do necessário.
Grande parte do conhecimento produzido não chega às políticas públicas. Governos seguem lentos. Interesses econômicos continuam pesando mais do que a proteção ambiental. Menos de um terço da biodiversidade marinha é realmente conhecida. As regiões mais profundas permanecem praticamente invisíveis. A mineração em alto-mar segue rondando as mesas de negociação, enquanto o financiamento para a ciência oceânica continua pequeno diante do tamanho do desafio.
É duro dizer, mas existe um abismo entre saber o que precisa ser feito e fazer de fato.
Os próximos cinco anos serão decisivos. A entrada em vigor do acordo internacional para proteger a biodiversidade em águas internacionais será um teste claro da capacidade do mundo de transformar discurso em ação. Em 2027, o Rio de Janeiro vai sediar a Conferência da Década dos Oceanos. O encontro precisa ser mais do que simbólico. Precisa marcar uma virada real.
Porque o oceano não negocia. Ele responde. E quando responde, vem em forma de tempestades mais intensas, calor extremo, colapso da pesca e elevação do nível do mar. A conta chega. Sempre chega.
Mesmo para quem vive longe da costa.
Talvez você nunca tenha pisado na areia. Ainda assim, o ar que você respira passa pelo oceano. O clima que define sua conta de luz, sua segurança e o preço dos alimentos também. Pensar o oceano como algo distante é um erro antigo. E caro.
A Década dos Oceanos ainda pode dar certo. Mas o relógio corre. E o mar, diferente da política, não espera consenso.
