— mas o retrato é muito mais complexo que números frios.
Em um mundo cada vez mais conectado, onde crianças, adolescentes e adultos vivem parte substancial de suas vidas online, os riscos que rondam a internet avançam em ritmo acelerado. Os dados mais recentes da SaferNet Brasil, divulgados em fevereiro de 2026 para marcar o Dia da Internet Segura, mostram que as denúncias de crimes cibernéticos cresceram 28% em 2025 em comparação ao ano anterior — um salto que acende um alerta real sobre como o ambiente digital tem se tornado um terreno fértil para violações graves de direitos.
Uma curva de crescimento preocupante
De acordo com o relatório, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da SaferNet recebeu 87.689 denúncias únicas ao longo de 2025, 19 mil a mais que em 2024 — o que representa um aumento de 28,4%.
O destaque, e também o aspecto mais doloroso desses números, está no volume e na natureza dos crimes relatados:
- 63.214 denúncias foram de imagens de abuso e exploração sexual infantil, a segunda maior marca da história da organização, perdendo apenas para 2023.
- Crimes de misoginia online cresceram de forma alarmante, saltando de cerca de 2,6 mil para mais de 8,7 mil casos — um aumento de 224%.
- Também houve crescimento em denúncias de apologia à violência, racismo, intolerância religiosa e LGBTfobia.
Outros tipos de crimes, como xenofobia, foram as exceções, com reduções em relação a 2024, e as denúncias de tráfico de pessoas se mantiveram estáveis.
O que está por trás dessa escalada?
O ambiente digital não é neutro. Ele amplifica comportamentos, conectando indivíduos com intenções maliciosas a um público muito maior do que em qualquer outro meio. Mas há fatores que ajudam a entender por que as denúncias, especialmente as de crimes graves, estão crescendo:
1. Maior conscientização e mobilização social
Em 2025, vídeos virais e campanhas nas redes sociais, como a do influenciador Felca sobre “adultização infantil”, impulsionaram picos de denúncias, evidenciando que informação e engajamento público podem incentivar mais pessoas a denunciar conteúdos nocivos.
2. Uso crescente de inteligência artificial (IA) pelos criminosos
Relatórios independentes apontam para o uso de IA na criação de conteúdos abusivos, incluindo deepfakes e imagens manipuladas, que podem ser usados para produzir e distribuir conteúdo de exploração sexual infantil sem vítimas reais, mas com impacto psicológico e social comparável ao abuso físico.
3. Migração dos crimes para espaços fechados
Pesquisas anteriores da própria SaferNet e outros estudos mostram que muitos crimes passaram a se estruturar em grupos privados de aplicativos de mensagem, mais difíceis de rastrear e remover.
4. Falta de educação digital
Paralelamente aos crimes, estudos sobre segurança digital demonstram que a maior parte da população brasileira tem baixo conhecimento sobre privacidade e proteção online, o que pode facilitar que criminosos explorem vulnerabilidades sem que as vítimas saibam como se proteger ou denunciar.
Os esforços de resposta e prevenção
O aumento das denúncias também tem impulsionado respostas institucionais importantes:
- Projetos de lei em tramitação no Congresso buscam modernizar o marco legal, tipificando condutas específicas relacionadas a crimes cibernéticos e fortalecendo mecanismos de investigação e punição.
- A própria SaferNet tem ampliado programas de conscientização, educando famílias e crianças sobre os riscos e criando canais mais acessíveis para denúncias.
- A Polícia Federal e o Ministério Público têm recebido cada vez mais bases de dados para investigação de grupos suspeitos de propagarem conteúdos ilegais, inclusive em plataformas de mensagens.
O desafio que fica
Os números de 2025 não são apenas alarmantes; eles sinalizam que o Brasil vive, hoje, uma batalha silenciosa pela segurança no espaço digital. O crescimento das denúncias pode refletir tanto uma piora no ambiente de crimes quanto uma maior disposição da sociedade para enfrentá-los — e, muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
No fim, como qualquer especialista em segurança digital diria, tecnologia por si só não resolve o problema: educação, políticas públicas eficazes, cooperação entre plataformas e legislação robusta são essenciais para tornar a internet um lugar mais seguro — especialmente para crianças e adolescentes, que são as vítimas mais vulneráveis desse novo cenário.
