Durante décadas, fertilizantes químicos foram considerados indispensáveis para garantir altas colheitas. Era quase um dogma da agricultura moderna.
Mas uma pesquisadora brasileira decidiu desafiar essa lógica — e acabou mudando o rumo da produção agrícola em boa parte do planeta.
Depois de mais de 40 anos dedicados ao estudo de microrganismos do solo, a microbiologista Mariangela Hungria se tornou uma das cientistas mais influentes da agricultura contemporânea. Seu trabalho mostrou que bactérias naturais podem substituir grande parte dos fertilizantes nitrogenados usados no campo.
A descoberta reduziu custos para produtores, diminuiu a poluição agrícola e ajudou a transformar o Brasil em uma potência mundial na produção de alimentos.
Em reconhecimento a essa contribuição, Hungria recebeu em 2025 o World Food Prize, prêmio internacional considerado por muitos o equivalente ao “Nobel da Agricultura”. Ela é a primeira brasileira a ganhar esse prêmio.
A ciência escondida no solo
O ponto de partida da pesquisa parece simples — mas a solução exigiu décadas de investigação.
As plantas precisam de nitrogênio para crescer. Tradicionalmente, esse nutriente é fornecido por fertilizantes industriais, produzidos com alto consumo de energia e responsáveis por emissões de gases de efeito estufa.
Hungria apostou em outro caminho.
Ela passou a estudar bactérias capazes de capturar nitrogênio diretamente do ar e transformá-lo em nutrientes disponíveis para as plantas. Esse processo natural é chamado de fixação biológica de nitrogênio.
A cientista isolou cepas eficientes dessas bactérias — especialmente do grupo Rhizobium — que vivem nas raízes de leguminosas como a soja.
Aplicadas nas sementes ou no solo, elas funcionam como uma espécie de “biofertilizante”, alimentando a planta ao longo do ciclo produtivo.
Na prática, isso significa algo poderoso: a lavoura passa a produzir mais usando menos químicos.
A revolução silenciosa da soja brasileira
O impacto da descoberta foi enorme.
As tecnologias desenvolvidas pela equipe de Hungria passaram a ser adotadas em larga escala pelos agricultores brasileiros. Hoje, cerca de 85% das áreas de soja do país utilizam inoculantes biológicos baseados nessas bactérias.
O resultado apareceu rapidamente.
Desde os anos 1980, a produção brasileira de soja saltou de cerca de 15 milhões para mais de 170 milhões de toneladas, ajudando o país a se tornar o maior produtor e exportador mundial do grão.
Ao mesmo tempo, o uso dos inoculantes trouxe vantagens econômicas importantes.
Enquanto fertilizantes nitrogenados podem custar dezenas de dólares por hectare, os produtos biológicos custam apenas alguns dólares. Isso representa economia de bilhões para o setor agrícola todos os anos.
Mais produção, menos impacto ambiental
Os benefícios não ficaram apenas na produtividade.
A produção de fertilizantes sintéticos exige grandes quantidades de energia e gera emissões relevantes de gases de efeito estufa. Além disso, o excesso desses produtos pode contaminar rios e aquíferos.
Ao substituir parte desses insumos por bactérias naturais, a tecnologia ajudou a reduzir a pegada ambiental da agricultura.
Estudos associados ao trabalho de Hungria indicam que a adoção desses bioinsumos evita centenas de milhões de toneladas de emissões equivalentes de CO₂ e diminui a poluição por nitratos em solos e águas.
É por isso que muitos especialistas veem na pesquisa da brasileira um dos pilares de uma nova fase da agricultura — mais produtiva, mas também mais sustentável.
Uma “revolução verde” baseada em micróbios
Com o tempo, a pesquisadora ampliou seus estudos para outras culturas.
Além das bactérias usadas em leguminosas, ela investigou microrganismos como Azospirillum brasilense, capazes de estimular o crescimento de raízes em plantas como milho, trigo e arroz.
Essas bactérias produzem hormônios vegetais que ajudam a planta a absorver melhor água e nutrientes.
A combinação entre diferentes microrganismos — conhecida como coinoculação — mostrou resultados ainda mais expressivos, aumentando a produtividade e a resistência das plantas a condições climáticas adversas.
Hoje, inoculantes baseados nessas tecnologias são usados em dezenas de milhões de hectares no Brasil e em outros países.
Da curiosidade de infância ao reconhecimento mundial
A história de Mariangela Hungria também é, em certa medida, uma história de curiosidade científica.
Quando criança, ela ganhou da avó um livro sobre microbiologia. Passou a noite inteira lendo sobre os cientistas que estudavam bactérias e fungos.
No dia seguinte, anunciou à família: queria trabalhar com micróbios.
Décadas depois, a menina fascinada por organismos invisíveis acabaria liderando uma transformação silenciosa na agricultura global.
Durante sua carreira, Hungria publicou mais de 500 trabalhos científicos e ajudou a formar gerações de pesquisadores.
Um prêmio para a ciência — e para o futuro da alimentação
Criado pelo agrônomo Norman Borlaug, pai da Revolução Verde, o World Food Prize reconhece contribuições que ajudam a ampliar a produção de alimentos no mundo.
A premiação inclui US$ 500 mil e é concedida a cientistas cujos trabalhos impactam diretamente a segurança alimentar global.
No caso de Mariangela Hungria, o reconhecimento vai além de uma carreira científica exemplar.
Ele simboliza algo maior: a prova de que inovação agrícola não precisa significar mais química ou mais desmatamento.
Às vezes, a resposta está ali o tempo todo — escondida no solo, dentro de microrganismos invisíveis.
E bastou alguém olhar para eles com atenção suficiente.
