Cessar-fogo não silencia as bombas: Gaza vive entre escombros, promessas e a ilusão de controle global

Você já reparou como a palavra “cessar-fogo” soa diferente quando se pisa nos escombros? No papel, ela sugere pausa, respiro, começo de cura. No chão de Gaza, não. Ali, o acordo anunciado no fim de 2025 pouco mudou a rotina de quem acorda com o barulho de explosões e dorme sem saber se a casa — quando existe uma — ainda estará de pé no dia seguinte.

Mesmo com a entrada formal da chamada segunda fase do cessar-fogo, ataques israelenses continuam sendo registrados em diferentes pontos da Faixa. Morrem civis. Crianças. Idosos. A promessa de alívio virou um ruído distante, quase cínico, diante da realidade crua que insiste em se impor.

Não é exagero dizer que Gaza vive um intervalo entre bombardeios. Um intervalo curto. Frágil. E, muitas vezes, mortal.

O acordo existe. A paz, não.

Autoridades israelenses tratam a nova etapa do cessar-fogo como um gesto mais político do que prático. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegou a classificar o avanço como “declarativo”. Traduzindo: há um acordo no discurso, mas o gatilho segue armado no terreno.

Agências internacionais e organizações humanitárias relatam um padrão que se repete. Ataques pontuais, incursões, mortos. Hospitais funcionando no limite. Falta de medicamentos. Falta de energia. Falta de tudo. Menos de medo.

É duro dizer, mas em Gaza o cessar-fogo não chegou com cara de trégua. Chegou com cara de espera.

Uma cidade reduzida a montanhas de concreto

Caminhar por Gaza hoje é atravessar um cemitério de edifícios. Estima-se que dezenas de milhões de toneladas de escombros cubram a Faixa — restos de casas, escolas, mesquitas, hospitais. Concreto esmagado, ferro retorcido, memórias soterradas.

A remoção desse entulho, segundo engenheiros e agências da ONU, pode levar anos. Não semanas. Não meses. Anos. E isso antes mesmo de se falar em reconstrução de verdade. Cada pilha de destroços esconde riscos: corpos ainda não localizados, munições não detonadas, amianto, poeira tóxica. Gaza virou um quebra-cabeça de ruínas, e ninguém parece saber por onde começar.

Reconstruir não será apenas levantar paredes. Será refazer sistemas de água, esgoto, eletricidade. Será devolver escolas às crianças e hospitais aos feridos. Será, acima de tudo, devolver alguma noção de futuro a uma população que vive há meses — para muitos, anos — no modo sobrevivência.

E mesmo que haja um esforço mundial de reconstrução, que garante que Israel não destruirá tudo quando bem entender?

O inverno, as tendas e o abandono

Enquanto o mundo debate planos e conselhos, milhares de famílias seguem vivendo em barracas improvisadas. O inverno agrava tudo. Chuvas derrubam tendas. O frio adoece. Crianças morrem por causas que, fora dali, seriam facilmente evitáveis.

A ajuda humanitária entra a conta-gotas. Caminhões aguardam liberação. Medicamentos ficam presos em fronteiras. E cada atraso tem nome, rosto, história. Não são números. São pessoas. É o crime de Israel provado á exaustão!

Trump, o conselho da paz e a velha ideia de mandar no mundo

Nesse cenário, surge um novo personagem tentando ocupar o centro do tabuleiro. Donald Trump anunciou a criação de um “conselho de administração da paz” para Gaza, com nomes ligados aos Estados Unidos e aliados estratégicos. A proposta, segundo ele, seria supervisionar a transição política, a segurança e a reconstrução do território.

A iniciativa foi recebida com desconfiança. Para diplomatas e analistas, o gesto carrega mais ambição geopolítica do que sensibilidade humanitária. A impressão — difícil de ignorar — é que Trump acredita, piamente, que pode organizar o mundo como quem rearranja peças sobre uma mesa. Gaza incluída.

Mas Gaza não é um tabuleiro. É um território ferido, complexo, marcado por décadas de conflito, ressentimento e ocupação. Não se administra dor com decreto. Não se impõe paz por nomeação.

Entre discursos e realidade

Enquanto líderes falam em fases, conselhos e planos, Gaza segue respirando poeira. O cessar-fogo, da forma como existe hoje, não interrompeu a violência nem devolveu dignidade à população civil. Ele apenas reorganizou o discurso internacional, sem tocar o nervo exposto da crise.

No fim das contas, a pergunta que ecoa entre os escombros é simples: quem, de fato, está disposto a reconstruir Gaza — e quem só quer administrá-la à distância?

Porque, para quem vive ali, a paz não é conceito. É necessidade básica. Como água. Como abrigo. Como silêncio à noite.