O Brasil exporta ao mundo uma imagem irresistível: baterias vibrando sob os holofotes da Marquês de Sapucaí, multidões cantando nas ladeiras de Salvador, o frevo incendiando as ruas de Recife. O Carnaval brasileiro tornou-se um dos maiores espetáculos culturais do planeta, uma engrenagem que movimenta bilhões, impulsiona o turismo e projeta o país como potência simbólica global. Mas por trás do brilho, permanece uma pergunta incômoda: quem constrói essa festa e quem, de fato, desfruta do lucro que ela gera?
A história ajuda a entender a tensão. As manifestações que moldaram o Carnaval contemporâneo nasceram em comunidades negras e periféricas. O samba foi criminalizado antes de ser celebrado. Rodas eram reprimidas, instrumentos apreendidos, corpos vigiados. As primeiras escolas de samba surgiram nos morros do Rio de Janeiro, organizadas por trabalhadores pobres, muitos descendentes diretos de pessoas escravizadas. Aquilo que hoje é cartão-postal já foi tratado como caso de polícia. Apenas quando o samba passou a integrar o projeto nacional durante o governo de Getúlio Vargas é que a cultura antes marginalizada ganhou status oficial — e, gradualmente, valor econômico.
Da resistência cultural à indústria bilionária
Décadas depois, o que era resistência cultural tornou-se indústria. Camarotes milionários, patrocínios corporativos, transmissões internacionais e pacotes turísticos transformaram o Carnaval em ativo estratégico. A pluralidade sempre foi parte da festa, e hoje blocos sertanejos, cortejos evangélicos e blocos que homenageiam bandas estrangeiras como os Beatles dividem espaço com baterias tradicionais e blocos afro. Cultura é dinâmica, mistura é parte da identidade brasileira. O problema não está na diversidade. Está na assimetria histórica.
O que causa desconforto não é a presença de novos ritmos, mas a repetição de um padrão antigo: a elite rejeita quando é marginal, mas participa intensamente quando se torna lucrativo. Daí essa enorme proliferação de blocos administrados por grupos oriundos das camadas mais ricas da população.
O modelo afro-brasileiro consolidou sucesso internacional, atraiu capital e ampliou a visibilidade global do país. A partir daí, setores economicamente privilegiados passaram a ocupar espaços estratégicos da festa. Ingressos e abadás caros, camarotes vips são apenas a ponta do iceberg dessa desconstrução. Não se trata de teoria conspiratória, mas de lógica de mercado. Onde há lucro, há disputa. E quem sempre foi beneficiado pelo Estado brasileiro usa essa vantagem, mais um vez, para usufruir, se infiltrar e lucrar no espaço coletivo.
O espetáculo e o retorno à realidade
A contradição se revela com mais força quando a festa termina. Durante quatro dias, a periferia é potência criativa, o morro é vitrine, a comunidade é espetáculo. O país inteiro canta sambas compostos por artistas que, muitas vezes, vivem em áreas com infraestrutura precária e oportunidades limitadas. A visibilidade é intensa, mas temporária. Quando a quarta-feira de cinzas chega, muitos daqueles que deram o show retornam à rotina marcada por desigualdades estruturais, enquanto os grandes operadores do mercado cultural seguem administrando contratos, lucros e agendas internacionais.
O Carnaval projeta talentos periféricos, gera renda local e produz orgulho coletivo. Isso é real e não pode ser ignorado. Mas visibilidade não é sinônimo de emancipação estrutural. A engrenagem econômica da festa ainda opera dentro de um país profundamente desigual. A cultura que nasceu da resistência negra e popular sustenta uma das maiores vitrines do Brasil, mas a distribuição dos ganhos permanece concentrada.
O Carnaval tem espaço para todos e deve continuar sendo plural. A questão central, porém, não é quem pode participar da festa. É quem controla sua estrutura econômica, quem decide seus rumos e quem se beneficia de sua força global. Enquanto essa equação permanecer desequilibrada, o brilho dos desfiles continuará convivendo com uma pergunta incômoda: como a maior celebração da cultura popular brasileira ainda não conseguiu transformar, de forma duradoura, a realidade social de quem a construiu?
O carnaval brasileiro, no final, é o símbolo mais extraordinário das entranhas desse país: o maior espetáculo da terra de como esconder, explorar e continuar lucrando com a desigualdade social.
