Avanços salvam vidas, mas guerras e cortes de recursos expõem fragilidade da saúde global em 2025

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Mosquiteiros, vacinas e cooperação internacional impulsionaram conquistas históricas, enquanto conflitos e restrições orçamentárias ameaçaram sistemas de saúde em todo o mundo.

Os avanços na saúde global voltaram ao centro do debate internacional em 2025. Em um ano marcado por guerras prolongadas, impactos climáticos extremos e cortes de financiamento, governos e organizações conseguiram, ainda assim, registrar conquistas relevantes no controle de doenças, na ampliação da vacinação e no fortalecimento da cooperação internacional. O balanço, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), combina progresso concreto com alertas claros sobre riscos futuros.

Desde o início do século, intervenções simples continuam salvando milhões de vidas. Os mosquiteiros tratados com inseticida, por exemplo, evitaram mortes em larga escala causadas pela malária, especialmente entre crianças. Desde 2000, essas redes de proteção já salvaram milhões de vidas e seguem como uma das ferramentas mais eficazes no combate às doenças transmitidas por mosquitos.

Eliminação de doenças avança em vários continentes

Entre os marcos históricos de 2025 está a eliminação de doenças infecciosas em diferentes regiões. As Maldivas se tornaram o primeiro país do mundo a alcançar a chamada “tripla eliminação” da transmissão vertical do HIV, da sífilis e da hepatite B. O Brasil também entrou para a lista ao eliminar a transmissão vertical do HIV, tornando-se o país mais populoso das Américas a atingir esse patamar.

Houve avanços expressivos contra as doenças tropicais negligenciadas. Burundi, Egito e Fiji eliminaram o tracoma; Guiné e Quênia erradicaram a doença do sono; e o Níger se tornou o primeiro país africano a eliminar a oncocercose. Desde 2010, o número de pessoas que precisam de tratamento para esse grupo de doenças caiu quase um terço, reflexo de campanhas sustentadas e cooperação internacional.

A tuberculose, embora ainda letal, apresentou queda consistente nas mortes, especialmente na África e na Europa, com redução superior a 45% na última década. Mesmo assim, a doença ainda causou cerca de 1,2 milhão de mortes em 2024, mostrando que fatores como HIV, pobreza e desnutrição continuam ampliando riscos.

Malária e vacinação: resultados concretos

O controle da malária também avançou. Geórgia, Suriname e Timor-Leste receberam certificação oficial de países livres da doença. Em paralelo, sete países africanos introduziram vacinas contra a malária em 2025. Combinadas a novos mosquiteiros e estratégias de vigilância, essas medidas ajudaram a prevenir aproximadamente 170 milhões de casos e cerca de um milhão de mortes apenas em 2024.

A vacinação seguiu como um dos pilares da saúde pública global. Desde 2000, as campanhas de imunização reduziram as mortes por sarampo em 88%, salvando quase 59 milhões de vidas. Em 2025, vários países ampliaram a vacinação contra o HPV, aproximando o mundo da meta de eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública.

Cooperação global ganha novos instrumentos

Além dos resultados diretos no controle de doenças, 2025 marcou avanços estruturais. Os países adotaram o primeiro Acordo Global sobre Pandemias e reforçaram o Regulamento Sanitário Internacional, criando bases legais e operacionais para respostas mais rápidas e coordenadas a futuras emergências sanitárias.

Também foi aprovada uma declaração política histórica sobre doenças não transmissíveis e saúde mental. A OMS publicou novas diretrizes baseadas em evidências científicas, abrangendo cuidados maternos, meningite, diabetes na gestação e medicamentos oncológicos adequados para crianças, reforçando o foco em atenção primária e prevenção.

Progresso desigual e desafios persistentes

Segundo o relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2025, cerca de 1,4 bilhão de pessoas passaram a viver de forma mais saudável, impulsionadas por menor consumo de tabaco, melhora na qualidade do ar e maior acesso à água potável e ao saneamento básico.

No entanto, o progresso segue desigual. Aproximadamente 20 milhões de crianças deixaram de receber vacinas essenciais, em grande parte por causa de conflitos armados, falhas logísticas e desinformação. As mortes maternas e infantis continuam acima das metas globais, evidenciando a necessidade de investimentos contínuos em partos seguros, atenção básica e redes de cuidado.

Cortes de financiamento ameaçam conquistas

Os cortes de financiamento registrados em 2025 afetaram serviços fundamentais, como cuidados maternos, vacinação, prevenção do HIV e vigilância epidemiológica. A OMS alerta que a redução de recursos pode reverter avanços conquistados ao longo de décadas.

Mesmo diante desse cenário, a organização atuou em 79 países e territórios, incluindo zonas de guerra como Gaza, Sudão e Ucrânia. A atuação incluiu fornecimento de medicamentos, apoio a hospitais, campanhas de vacinação e resposta rápida a surtos, garantindo que serviços essenciais continuassem funcionando mesmo em meio a crises humanitárias.

O que esperar de 2026

Para 2026, a OMS aposta no fortalecimento do Acordo Global sobre Pandemias e na aplicação efetiva do Regulamento Sanitário Internacional como sinais de um novo compromisso coletivo. A entidade reforça o princípio que norteia sua atuação desde 1948: o mais alto padrão possível de saúde deve ser um direito universal, não um privilégio.

Em um mundo marcado por incertezas, a mensagem é clara. Com ciência, cooperação e financiamento adequado, é possível avançar. Sem isso, conquistas que hoje salvam milhões de vidas podem se perder.