Você já sentiu aquele nó no estômago ao imaginar o carro encostando nos cones durante a prova do Detran? Pois saiba que, para quem está tirando carteira no Espírito Santo, esse pesadelo ficou no passado. Desde o dia 19 de janeiro, capixabas não precisam mais encarar a baliza nem a prova de ladeira no exame prático da primeira habilitação. A mudança silenciosa já está transformando a rotina das autoescolas de Vitória a Cachoeiro de Itapemirim. E o mais interessante: não se trata de uma “facilitação” irresponsável, mas de um olhar mais maduro sobre o que realmente importa na hora de avaliar um motorista.
O dia em que os cones perderam o poder
Lembra daquela cena quase ritualística? O candidato suando frio, o examinador impassível, o carro avançando e recuando entre cones coloridos enquanto o coração dispara a mil por hora. Pois bem. No Espírito Santo, essa sequência dramática simplesmente deixou de existir para quem busca a primeira CNH.
O Detran-ES confirmou: baliza e ladeira não são mais etapas obrigatórias do exame prático para categoria B. A avaliação agora acontece integralmente em percurso real — ruas movimentadas de bairros residenciais, avenidas com semáforos, cruzamentos movimentados. É ali, no trânsito de verdade, que o futuro motorista mostra do que é capaz.
E sabe o que mudou de verdade? O foco. Antes, bastava errar uma manobra técnica isolada para ver o sonho da carteira ir por água abaixo. Hoje, o examinador observa o conjunto: como você sinaliza antes de virar, se respeita a faixa de pedestres, se mantém distância segura do carro da frente, se toma decisões com calma mesmo sob pressão. É como trocar um exame de soletrar palavras difíceis por uma conversa fluida na vida real — o que importa não é a técnica perfeita em laboratório, mas a capacidade de se virar no mundo lá fora.
Cinco estados na dianteira, outros seguram os cones
O Espírito Santo não caminhou sozinho nessa virada. Amazonas, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul também abraçaram a mudança nos primeiros dias de 2026, seguindo a Resolução 1.020 do Conselho Nacional de Trânsito, publicada em dezembro passado. Aliás, o ES até saiu na frente: enquanto São Paulo e Santa Catarina implementaram a regra no dia 26, os capixabas já respiravam aliviados desde o dia 19.
Mas olha só a contradição do Brasil: enquanto uns avançam, outros seguram firme nos cones. Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba, Acre, Rondônia e Sergipe mantiveram a baliza como exigência. Resultado? Um candidato aprovado em Vitória poderia ser reprovado no Rio só porque não encaixou o carro perfeitamente entre dois cones — mesmo dirigindo com segurança nas ruas. É como se cada estado tivesse seu próprio manual de como se tornar motorista. E isso, convenhamos, gera uma certa confusão.
Dez pontos para errar — e aprender
Tem mais uma novidade que poucos notaram, mas que faz toda diferença: o limite de pontos para reprovação subiu de 3 para 10. Sim, você leu certo. Agora os erros são classificados como no Código de Trânsito: leve (1 ponto), média (2), grave (4) e gravíssima (6).
O que isso significa na prática? Esquecer de dar seta uma vez não é mais motivo para reprovação automática. Errar o momento de parar num cruzamento também não. Claro, cometendo uma infração gravíssima — como avançar um sinal vermelho — o candidato ainda é reprovado na hora. Mas aquele deslize momentâneo, fruto de nervosismo ou inexperiência, não precisa mais ser fatal. É um respiro para quem está começando. Afinal, até motoristas experientes cometem pequenos erros no dia a dia — o que não podemos fazer é transformá-los em tragédias.
Autoescolas sentem o alívio na pele
Conversei com instrutores de Cariacica e Serra na semana passada. Todos relataram a mesma coisa: a tensão nos alunos diminuiu visivelmente. “Antes, metade da aula era só baliza”, contou um veterano de 15 anos na profissão, que preferiu não se identificar. “O aluno chegava tão tenso na prova que errava até o básico: sinalizar, olhar o retrovisor. Agora, a gente foca no essencial — dirigir com consciência.”
E tem outro detalhe que poucos comentam: quantos de nós, depois de habilitados, já fizemos uma baliza perfeita na vida real? Pouquíssimos. Quantos dirigem diariamente em condições complexas de trânsito? Todos. A mudança, portanto, não é só sobre eliminar uma manobra difícil — é sobre reconhecer que dirigir é muito mais do que encaixar um carro entre dois cones coloridos.
Cuidado com o que vem pela frente
É justo dizer: essa reforma faz parte de um movimento maior chamado “CNH do Brasil”, que também reduziu a carga horária mínima de aulas práticas de 20 para apenas 2 horas e flexibilizou o uso de veículos próprios durante as aulas. Algumas vozes críticas levantam a bandeira da segurança — e com razão. Afinal, menos aulas não pode significar menos preparo.
O diretor-geral do Detran|ES foi claro ao comentar: “Esta é uma reforma histórica que torna o acesso à CNH menos oneroso, mas nossa responsabilidade é garantir que a qualidade da formação e a segurança nas vias permaneçam inegociáveis.” A chave, parece-me, está justamente aí: flexibilizar o caminho sem abrir mão do destino. Porque tirar a carteira pode ficar mais acessível — e isso é justo num país onde mobilidade é sinônimo de oportunidade —, mas dirigir bem segue sendo uma arte que se aprende com tempo, respeito e, acima de tudo, consciência de que cada erro na rua tem consequências reais.
No fundo, o que nunca muda
A baliza nunca foi o problema. O problema sempre foi transformá-la num monstro capaz de barrar sonhos por uma manobra que, convenhamos, poucos dominam com perfeição mesmo depois de anos ao volante. Tirar esse obstáculo artificial não significa abrir mão da qualidade. Significa reconhecer que dirigir é conviver, respeitar, antecipar, decidir.
E se você está pensando em tirar a CNH agora no Espírito Santo? Respire fundo. A pressão diminuiu. Mas a responsabilidade — essa, nunca vai embora. Aliás, ela só começa quando você pega a carteira nas mãos e entra, de verdade, no trânsito. Porque ali fora, não existem cones para recomeçar. Existem vidas. E elas merecem nosso melhor — com ou sem baliza.
