O mapa do Brasil começa a se redesenhar no extremo Norte. Em Oiapoque, município amapaense cravado na fronteira com a Guiana Francesa, a expectativa em torno do petróleo já mudou o ritmo da cidade — mesmo antes de o primeiro barril sair do fundo do mar. O discurso é sedutor, quase hipnótico: royalties bilionários, empregos aos milhares, crescimento acelerado. A promessa lembra um velho conhecido do país. E é aí que entra o alerta vindo do Sudeste: Quissamã, no Norte Fluminense, prova que riqueza sem planejamento cobra um preço alto.
Em outubro de 2025, a Petrobras recebeu do Ibama a licença ambiental para iniciar pesquisas no bloco FZA-M-59, localizado a cerca de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. A área integra a Margem Equatorial brasileira, faixa marítima considerada uma das últimas grandes fronteiras petrolíferas do país, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte.
No início de 2026, as operações sofreram uma interrupção temporária após a identificação de um vazamento de fluido de perfuração no poço Morpho. A estatal afirmou que o material era biodegradável, de baixa toxicidade, e que o vazamento foi totalmente contido. Mesmo assim, a pausa elevou a tensão entre trabalhadores, ambientalistas e autoridades. Quando há muito dinheiro em jogo, qualquer ruído vira alarme.
O petróleo chega antes da cidade estar pronta
Mesmo sem produção confirmada, Oiapoque já sente os efeitos do petróleo. Reportagens da imprensa nacional mostram o retorno de moradores que haviam deixado a região e a chegada de técnicos, engenheiros e investidores. O setor imobiliário foi o primeiro a reagir — e rápido demais.
Bairros como Belo Monte, Nova Conquista e Independência enfrentam alta súbita nos aluguéis, construções apressadas e pouca organização urbana. Quem vive ali há décadas relata aumentos de preço de um mês para o outro. A cidade, até então sustentada pelo comércio fronteiriço, pesca e agricultura de subsistência, começa a mudar de pele sem ter criado ainda os músculos necessários para sustentar o novo corpo.
Essa cena não é inédita. No Espírito Santo e no Rio de Janeiro, ela já foi vista de perto.
O exemplo de Quissamã: quando os bilhões não viram bem-estar
No papel, Quissamã deveria ser um caso de sucesso. O pequeno município do Norte Fluminense recebeu, ao longo dos anos, bilhões de reais em royalties do petróleo. Em determinados períodos, teve uma das maiores receitas per capita do Brasil. Ainda assim, não se transformou em uma “Dubai brasileira”.
O que aconteceu? Dependência excessiva do petróleo, pouca diversificação econômica, investimentos mal planejados e dificuldade de transformar receita extraordinária em serviços públicos duradouros. O dinheiro entrou rápido. O desenvolvimento estrutural, nem tanto.
O resultado é um alerta claro para o Amapá: royalties não são política pública. São apenas uma ferramenta. Sem planejamento de longo prazo, eles viram folha de pagamento, custeio imediato e obras desconectadas da realidade local. Quando o preço do petróleo cai ou a produção oscila, o castelo balança.
Os números que empolgam — e exigem cautela
A empolgação em torno da Margem Equatorial tem base concreta. Estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que a exploração pode elevar o PIB do Amapá em até 61,2%. A estimativa aponta para mais de 490 mil empregos diretos e indiretos, distribuídos entre municípios como Oiapoque, Calçoene, Macapá, Santana e Itaubal.
Para efeito de comparação, Maricá (RJ) recebeu cerca de R$ 2,6 bilhões em royalties apenas em 2025. O dinheiro existe. A questão nunca foi essa. A pergunta correta é outra: o que se faz com ele?
Ciente desse risco, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional firmou com a Petrobras uma parceria de R$ 634,1 milhões para capacitação profissional, fortalecimento de cadeias produtivas e criação do Instituto Margem Equatorial. O plano inclui rotas como a da Bioeconomia, do Açaí e da Biodiversidade, numa tentativa de evitar a armadilha da monocultura do petróleo.
O espelho da Guiana — e o que ele revela
A poucos quilômetros dali, a Guiana serve de exemplo e advertência. Após a descoberta de grandes reservas na década passada, o país arrecadou mais de R$ 4 bilhões em royalties só em 2024, criou um fundo soberano e passou a figurar entre as economias que mais crescem no mundo.
Mas o crescimento acelerado também trouxe inflação, desigualdade e pressão sobre serviços públicos. O petróleo acelera tudo — inclusive os problemas.
Oiapoque entre a promessa e a lição
Chamar Oiapoque de “nova Dubai brasileira” rende manchete. Mas a realidade costuma ser menos cinematográfica. O município está diante de uma oportunidade histórica, sim. Mas também diante de um risco conhecido, documentado e vivido por cidades como Quissamã.
O petróleo pode ser motor de desenvolvimento ou apenas combustível para frustração futura. A diferença está nas escolhas feitas agora — antes que os bilhões cheguem e o improviso vire regra.
No Espírito Santo, a experiência mostra: dinheiro fácil exige responsabilidade difícil. O Amapá ainda está em tempo de aprender com os erros alheios. Porque riqueza não se mede só em royalties. Mede-se, principalmente, em qualidade de vida.
