A mentira venceu — e nós a aplaudimos

Imagem gemini AI

Eu realmente estou com vergonha. Não por mim. Mas pelo nosso retrocesso enquanto humanidade. Faz pouco tempo, seguíamos na direção do respeito, do amor e da fraternidade. Apesar das coisas ruins — guerras, atentados, assassinatos, destruição do meio ambiente, racismo, preconceitos — sabíamos que eram erros. Sabíamos que precisavam ser combatidos. Havia ao menos um consenso moral: isso não deveria ser assim.

Isso acabou.

Voltamos a verbalizar preconceitos, ódios e mesquinharias sem culpa e sem vergonha. Comportamentos antes considerados abjetos agora são exibidos com orgulho. A brutalidade virou identidade. A crueldade, um posicionamento. Estamos, deliberadamente, desaprendendo a ser humanos.

O mais perturbador não é apenas o retrocesso — é a normalização. Empatia passou a ser vista como fraqueza. Solidariedade virou sinônimo de ingenuidade. Mentir deixou de ser desvio moral e se tornou regra operacional. O falso atrai mais que o verdadeiro. O escandaloso engaja mais que o justo. A verdade, quando não serve, é descartada sem constrangimento.

Nada disso é espontâneo. Há método. Há cartilha. Há cálculo. A mentira é repetida até virar ruído ambiente. A imprensa é atacada até perder autoridade. A ciência é relativizada até parecer apenas “opinião”. Direitos humanos são tratados como privilégio. Crueldade é vendida como coragem. Tudo funciona porque ativa o que há de pior em nós — medo, ressentimento, ódio, desejo de pertencimento.

Donald Trump afirmou que não era amigo de Jeffrey Epstein. Não é uma disputa de versões. Há fotos, entrevistas, registros públicos, declarações explícitas do próprio Trump descrevendo Epstein como alguém próximo. A contradição é factual. Ainda assim, milhões aceitaram a nova mentira sem conflito interno algum. Não porque ignoram os fatos — mas porque já não se importam com eles. A verdade perdeu valor. O pertencimento venceu.

O mesmo Trump sustentou, sem provas, que venceu a eleição de 2020. Tribunais rejeitaram ações. Autoridades eleitorais republicanas negaram fraude. Auditorias confirmaram o resultado. Nada disso importou. A mentira não precisava ser verdadeira — precisava ser funcional. Ela corroeu a confiança no sistema democrático e abriu caminho para o ataque ao Capitólio. A realidade foi atropelada pela narrativa.

No Reino Unido, o Brexit foi impulsionado por uma mentira estampada em ônibus: a promessa de 350 milhões de libras semanais para o sistema de saúde. Os próprios líderes da campanha admitiram depois que o número era falso. Nenhuma consequência proporcional. Nenhuma vergonha pública. A mentira já tinha cumprido seu papel histórico.

No Brasil, seguimos o mesmo manual. Jair Bolsonaro repetiu por anos que as urnas eletrônicas eram fraudáveis, mesmo sem apresentar qualquer prova após décadas de eleições auditadas. O objetivo nunca foi demonstrar fraude. Foi instalar dúvida permanente, deslegitimar a democracia e preparar o terreno para o caos. Funcionou. Houve ataques às instituições, tentativa de ruptura e vandalismo político. E ainda assim, parte da sociedade insiste em chamar isso de “opinião”.

Influenciadores políticos como Nikolas Ferreira construíram capital eleitoral com base em distorções grosseiras: pânico moral fabricado, mentiras sobre “banheiros obrigatórios”, manipulações sobre decisões do STF, narrativas fantasiosas sobre censura inexistente. Quando confrontados pelos fatos, não recuam. Repetem. Amplificam. Sabem que, no mundo atual, quem mente larga na frente — quem desmente corre atrás.

Durante a pandemia, líderes minimizaram mortes, atacaram vacinas, promoveram medicamentos ineficazes e ridicularizaram a ciência. O saldo foi concreto: milhões de mortos. Ainda assim, não houve vergonha coletiva. Houve engajamento. Houve seguidores. A irresponsabilidade foi rebatizada de “coragem”. A ignorância virou “autenticidade”. A mentira matou — e foi celebrada.

O colapso não está apenas nos que mentem. Está na plateia que aplaude. No público que deixou de exigir verdade. Que trata fatos como opinião e opinião como identidade. A desumanização virou atalho emocional confortável.

Quem defende empatia é chamado de fraco. Quem fala em direitos humanos é tratado como cúmplice. Quem exige responsabilidade é acusado de censura. Nesse mundo invertido, resistir virou atraso — e avançar significa abandonar qualquer limite ético.

E talvez esse seja o último sinal de lucidez que ainda nos resta: ficar para trás dessa marcha da barbárie pode ser a única forma de permanecer humano.

Abra os olhos e leia o mundo.

A pergunta final não é retórica, é urgente:
há esperança no futuro que estamos criando — ou estamos apenas treinando as próximas gerações para mentir melhor, odiar mais rápido e sentir cada vez menos?

Se ainda houver esperança, ela não virá dos vencedores do algoritmo.
Virá dos que ainda sentem vergonha.
Dos que ainda se indignam.
Dos que ainda sabem que humanidade não é força — é limite.

E limite é exatamente o que estamos perdendo.