“Terras Raras”: a guerra silenciosa pelos minerais que fazem o mundo funcionar

Imagem de onlyyouqj no Freepik

Você já parou pra pensar no que faz seu celular vibrar? Ou o que permite que um carro elétrico rode centenas de quilômetros sem fazer barulho? A resposta está em 17 elementos químicos que pouca gente conhece pelo nome, mas que estão no centro de uma disputa global bilionária.

São as chamadas terras raras. E não, o nome engana: elas não são exatamente raras na natureza. O problema é outro — são extremamente difíceis de extrair, separar e refinar. E aqui mora o perigo: quem domina essa tecnologia controla boa parte do futuro tecnológico do planeta.

O que são essas terras raras, afinal?

Terras raras é o nome dado a um grupo de 17 elementos químicos. Entre eles estão 15 lantanídeos — lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio — além de ítrio e, em algumas classificações, escândio.

Esses elementos aparecem juntos em minerais como monazita, bastnasita e xenotima. Mais recentemente, argilas iônicas também entraram na jogada, especialmente na Ásia.

Mas por que eles importam tanto?

Porque têm propriedades únicas. Magnéticas, ópticas, térmicas. São eles que permitem criar os ímãs mais potentes do mundo, telas com cores vivas, motores elétricos compactos e até sistemas de defesa militar.

Onde esses minerais são usados

É difícil exagerar a importância das terras raras na economia moderna. Elas estão em praticamente tudo que envolve tecnologia de ponta:

Ímãs permanentes ultrapotentes — essenciais em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e sensores industriais. Sem eles, a transição energética simplesmente empaca.

Eletrônicos e telecomunicações — smartphones, computadores, fibras ópticas. Aquele celular na sua mão? Tem terras raras lá dentro.

Telas e iluminação — LEDs, painéis de TV, lasers. O európio, por exemplo, é o responsável pelas cores vermelhas nas telas.

Catalisadores industriais — usados no refino de petróleo e no controle de emissões de veículos.

Defesa e aeroespacial — radares, mísseis guiados, satélites, sensores de precisão. Por isso esses minerais são considerados estratégicos para a segurança nacional.

Em resumo: sem terras raras, a economia digital e a chamada economia verde simplesmente não funcionam.

Os quatro elementos que movem bilhões

Nem todas as terras raras valem o mesmo. Algumas são mais abundantes e baratas. Outras são raras de verdade — e caríssimas.

Neodímio

É o coração dos ímãs modernos. Quando combinado ao praseodímio, forma os ímãs NdFeB, os mais potentes do mercado. Eles são leves, compactos e fundamentais para motores elétricos.

Após uma queda de quase 45% em 2024, o neodímio voltou a subir com a retomada da demanda por veículos elétricos. O preço médio global em 2025 girava em torno de USD 145 por quilo.

Praseodímio

Anda sempre de mãos dadas com o neodímio. Melhora o desempenho magnético e a resistência dos ímãs. No mercado, os dois são tratados como um único produto: NdPr.

Disprósio

Aqui a coisa fica séria. O disprósio é um elemento pesado e estratégico. Sua principal função? Garantir que os ímãs mantenham o desempenho mesmo em altas temperaturas.

Isso é crítico para motores automotivos, turbinas eólicas e aplicações militares. Mesmo em períodos de retração do mercado, o disprósio permanece caro — cerca de USD 445 por quilo em 2025 — porque a oferta é limitada e a demanda, firme.

Térbio

Ainda mais raro que o disprósio. É usado tanto em ímãs especiais quanto em sistemas de iluminação e componentes eletrônicos de alta precisão.

O térbio está entre os elementos mais caros de todo o grupo. Em 2025, chegou a cerca de USD 1.025 por quilo. Qualquer restrição de oferta faz o preço disparar.

Como os preços explodiram — e depois caíram — e voltaram a subir

O mercado de terras raras é extremamente volátil. Entre 2022 e 2023, os preços dispararam. A corrida global por tecnologia limpa impulsionou a demanda. O neodímio chegou a picos de 1.510 yuan por quilo em março de 2022 — um aumento de 305% em relação aos valores pré-pandemia.

Depois veio a correção. Estoques elevados, desaceleração econômica em alguns países. O preço despencou.

Mas a partir de 2025, a história mudou de novo. O crescimento dos veículos elétricos voltou com força. Investimentos em defesa aumentaram. Países ocidentais aceleraram políticas industriais para reduzir dependência da China.

Resultado? Os preços voltaram a subir, especialmente para os elementos pesados como disprósio e térbio.

Quem tem as maiores reservas

As reservas conhecidas de terras raras estão espalhadas pelo mundo, mas concentradas em alguns países:

China — líder absoluto, com cerca de 44 milhões de toneladas, quase 49% do total mundial.

Brasil — entre as maiores reservas do planeta, com 21 a 23 milhões de toneladas. Os depósitos estão em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Amazonas.

Vietnã e Rússia — grandes volumes, mas ainda pouco explorados.

Austrália, Índia e Estados Unidos — reservas relevantes e projetos em expansão.

Apesar dessa diversidade geológica, a cadeia produtiva é extremamente concentrada.

O verdadeiro poder: quem domina o refino

Aqui está o ponto crucial: o verdadeiro poder das terras raras não está na mineração. Está no refino e na separação química.

Essas etapas são caras, poluentes e tecnologicamente sofisticadas. E é nelas que a China domina amplamente o mercado global.

A China controla entre 60% e 91% da produção mundial de terras raras refinadas, dependendo do elemento. Em alguns casos, especialmente nos elementos pesados como disprósio e térbio, esse controle é ainda maior.

Em 2024, a produção chinesa de terras raras atingiu 270 mil toneladas. Os Estados Unidos produziram 45 mil. Myanmar, 31 mil. Austrália, 18 mil.

Mas produzir o minério bruto é uma coisa. Transformá-lo em óxidos e metais prontos para uso industrial é outra completamente diferente. E é aí que a China manda.

A corrida para reduzir a dependência

Estados Unidos, Austrália, Japão e países da União Europeia estão investindo pesado para reduzir essa dependência. O foco principal não é só abrir novas minas — é desenvolver plantas de processamento e refino.

A União Europeia está criando reservas estratégicas de elementos pesados. O Japão busca cooperação com países produtores. Os Estados Unidos firmaram acordos com o Brasil para desenvolver cadeias de suprimento sustentáveis.

Em 2025, a China implementou controles mais rígidos sobre exportações de terras raras, afetando especialmente cadeias de suprimento para baterias de lítio. Isso aumentou ainda mais a pressão por diversificação.

O potencial brasileiro — e os desafios

O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Mas enfrenta desafios enormes para transformar esse potencial em realidade.

Os principais depósitos estão em:

Araxá (MG) — associado à mina de nióbio da CBMM. As terras raras são subprodutos, o que reduz custos.

Catalão (GO) — operado pela Mosaic Fertilizantes, ligado à produção de fosfato.

Serra Verde (GO) — um dos poucos projetos fora da China focados em terras raras pesadas. Iniciou operações recentemente.

Pitinga (AM) — mina de estanho com depósitos de itérbio e disprósio.

Morro do Ferro (MG) — depósito promissor com alta concentração de neodímio e praseodímio.

Em 2025, empresas com projetos de terras raras no Brasil tiveram valorizações de até 390% em suas ações. A Viridis Mining, dona do Projeto Colossus em Minas Gerais, obteve licença prévia ambiental e anunciou a construção de um centro de pesquisa e processamento em Poços de Caldas — sem uso de tecnologia, componentes ou equipamentos chineses.

A estratégia é se consolidar como fornecedora para países ocidentais, especialmente os Estados Unidos.

O governo federal também entrou na jogada. Criou um conselho especial para tratar de minerais críticos e estratégicos. Um projeto de lei sobre Política Nacional de Minerais Críticos tramita em regime de urgência na Câmara.

Mas os desafios são reais. O Brasil ainda exporta minério bruto para refino externo, perdendo valor agregado estimado em bilhões. As barreiras são tecnológicas, regulatórias e ambientais.

A mineração de terras raras gera resíduos radioativos e ácidos. Exige tratamento rigoroso. Licenças ambientais demoram. Até 2025, apenas uma mina operava em escala limitada no país.

Terras raras e a transição energética

A demanda por terras raras está diretamente ligada à transição energética global.

Em 2025, a produção global de carros elétricos consumiu cerca de 20% das terras raras disponíveis. A previsão é que esse número duplique até 2030.

Turbinas eólicas utilizam disprósio para suportar altas temperaturas, garantindo durabilidade em parques offshore. A energia renovável representa 30% da demanda atual, impulsionada por metas de descarbonização na União Europeia.

Sem terras raras, a transição energética simplesmente não acontece. É por isso que esses minerais se tornaram tão estratégicos.

O futuro dessa disputa

As terras raras deixaram de ser uma curiosidade mineral para se tornar pilar da economia global. Elementos como neodímio, disprósio e térbio — antes raramente mencionados fora de círculos técnicos — agora figuram como commodities estratégicas.

O mercado global de terras raras foi avaliado em US$ 792 milhões em 2024. Deve atingir US$ 863 milhões em 2025 e chegar a US$ 1,02 bilhão até 2033, com crescimento anual médio de quase 9%.

Mas os números econômicos são apenas parte da história. A verdadeira disputa é geopolítica.

Quem controla a cadeia das terras raras controla parte relevante do futuro industrial do planeta. A China sabe disso. Os Estados Unidos sabem disso. A União Europeia sabe disso.

E o Brasil? Tem uma janela de oportunidade histórica. Mas precisa agir rápido. Desenvolver tecnologia própria de refino. Atrair investimentos. Acelerar licenças ambientais sem abrir mão de proteção ambiental.

Porque uma coisa é certa: a corrida pelas terras raras está só começando. E quem ficar de fora vai assistir de camarote enquanto outros definem o futuro da tecnologia global.