A falsa neutralidade da grande mídia e o desserviço à democracia

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É verdade que, em tempos de algoritmos, internet e redes sociais, a frase “ignore-os e eles deixarão de existir” não corresponde mais à realidade. O silêncio, hoje, não elimina discursos extremistas; muitas vezes, apenas os empurra para ambientes ainda mais radicalizados. No entanto, quando a grande mídia corporativa e grandes empresas — por alinhamento ideológico ou ingenuidade romântica — oferecem espaço a políticos para divulgar políticas contra pobres, minorias, a democracia e, não raramente, baseadas em mentiras explícitas, prestam um desserviço à sociedade ao se esconderem atrás de uma isenção hipócrita.

Não trata de censura, mas de combater a irresponsabilidade.

O mito conveniente da neutralidade

A imprensa nunca foi neutra. Nunca foi e nunca será. Cada reportagem, cada manchete, cada escolha editorial carrega consigo uma série de decisões que moldam nossa percepção da realidade. Quais pautas merecem destaque? Que fontes serão ouvidas? Como enquadrar os fatos? Essas escolhas têm peso — e consequências políticas.

O problema não está na impossibilidade de ser neutro. Está em fingir que essa neutralidade existe. E o problema se agrava quando a mídia confunde pluralidade com complacência. Dar “os dois lados” da história pode até soar justo, mas quando um desses lados mente deliberadamente, isso não é equilíbrio. É fraude intelectual. É transformar falsidade em opinião aceitável, em algo digno de debate sério.

Aquecimento global: quando a mentira ganha status de debate

Durante décadas, grandes veículos de imprensa trataram o aquecimento global como se fosse uma questão em aberto, um tema “controverso”. Reportagens colocavam lado a lado cientistas com décadas de pesquisa e negacionistas financiados por lobbies do petróleo, como se ambos tivessem o mesmo peso. Como se não houvesse consenso científico sólido sobre a origem humana das mudanças climáticas.

O resultado foi devastador. A confusão pública se instalou. Políticas ambientais urgentes foram adiadas ano após ano. E agora vivemos com custos irreversíveis para o planeta — enchentes, secas, ondas de calor, extinções em massa.

A mídia não criou o negacionismo climático, é verdade. Mas ajudou a legitimá-lo. E isso fez toda a diferença.

Trump e o espetáculo da mentira

Nos Estados Unidos, Donald Trump entendeu como poucos a lógica da mídia contemporânea. Cada ataque às instituições, cada declaração absurda, cada teoria conspiratória era transmitida ao vivo pelas grandes redes de TV. Tudo em nome da audiência. O argumento era sempre o mesmo: “é notícia, precisamos cobrir”.

Mas nesse processo, algo se perdeu. O jornalismo virou espetáculo. A exceção virou rotina. O autoritarismo virou entretenimento. A mentira ganhou o mesmo espaço — às vezes até mais — que a verdade.

A mídia não inventou Trump, claro. Mas ajudou a transformá-lo em fenômeno político global. E isso não aconteceu por acaso.

Elon Musk e o novo poder sem controle

O caso de Elon Musk revela uma distorção ainda mais grave. Como dono de uma das maiores plataformas digitais do mundo, ele passou a usar sua influência algorítmica para apoiar partidos de extrema direita, como a AfD, na Alemanha. Não como cidadão comum expressando opinião, mas como quem controla o alcance de milhões de mensagens, interferindo diretamente no debate político de outros países.

E como a grande mídia tratou isso? Grande parte da cobertura abordou o tema como curiosidade, como excentricidade de bilionário. Pouco se falou sobre soberania nacional, sobre democracia, sobre concentração de poder informacional nas mãos de um único indivíduo.

O silêncio crítico também é uma escolha editorial. E essa escolha tem consequências.

Desinformação eleitoral no Reino Unido

No Reino Unido, investigações jornalísticas revelaram a existência de redes organizadas de vídeos falsos contra o Partido Trabalhista e seu líder, Keir Starmer. Foram centenas de milhões de visualizações durante o período eleitoral. Narrativas fabricadas circularam livremente pelas redes sociais enquanto os veículos tradicionais demoraram a reagir.

Quando a reação finalmente veio, já era tarde. O dano ao debate público já estava feito. Os fatos começaram a aparecer depois que as pessoas já haviam formado suas opiniões.

O Brasil já viveu isso

O caso mais simbólico da história recente brasileira continua sendo o debate presidencial de 1989 entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. A edição exibida pela TV Globo no Jornal Nacional favoreceu claramente um dos candidatos, distorcendo o equilíbrio do confronto.

Anos depois, a própria emissora reconheceu o erro. Mas o impacto foi imediato. A eleição foi decidida por uma margem estreita, e milhões de brasileiros formaram sua opinião a partir daquela edição manipulada.

Não foi neutralidade. Foi interferência política direta, com consequências que marcaram o país por anos.

O Grupo Globo e o poder de agenda

O Grupo Globo é um dos maiores conglomerados de mídia da América Latina. Sua trajetória inclui o apoio ao golpe de 1964, a legitimação da ditadura militar e, mesmo durante a redemocratização, a manutenção de enorme poder de agenda política.

Mais recentemente, a cobertura da Operação Lava Jato expôs de forma dramática os riscos da seletividade editorial. Vazamentos ilegais foram tratados como fatos consumados. Acusações viraram condenações antes mesmo do julgamento. A presunção de inocência foi frequentemente ignorada.

Quando abusos processuais e manipulações vieram à tona — inclusive com a revelação de mensagens comprometedoras entre procuradores e juízes — a correção de rota foi tímida e tardia. Mas naquele momento, a narrativa já havia cumprido seu papel político.

Quando a mentira vira projeto editorial

Há casos em que o problema não é erro, nem ingenuidade, nem mesmo viés inconsciente. É estratégia deliberada.

A Fox News, nos Estados Unidos, deixou há muito tempo de fingir neutralidade. Hoje funciona como um verdadeiro megafone, reverberando quase sem filtros as mentiras, ataques e teorias conspiratórias de Donald Trump e do Partido Republicano. É um canal assumidamente partidário. E não tenta mais esconder isso.

Processos judiciais revelaram o que muitos já suspeitavam: executivos e apresentadores sabiam que as alegações de fraude eleitoral em 2020 eram completamente falsas. Mesmo assim, optaram conscientemente por divulgá-las. A decisão não foi por erro ou desinformação. Foi calculada. O objetivo era manter audiência, preservar fidelidade ideológica e consolidar poder político.

Ali, o jornalismo deixa de existir. O que sobra é propaganda travestida de notícia.

O modelo se repete no mundo

Esse padrão não é exclusividade americana. Na Hungria, veículos alinhados ao primeiro-ministro Viktor Orbán funcionam como extensões do governo. Na Polônia, antes da recente mudança política, a mídia estatal foi convertida em instrumento partidário descarado. Em Israel, canais abertamente alinhados a governos de extrema direita abandonaram qualquer compromisso com pluralidade.

Não é coincidência. É método. Controlar a narrativa pública é parte central de qualquer projeto autoritário. E a mídia, quando cooptada ou omissa, torna-se cúmplice desse projeto.

A lição da história

A imprensa sensacionalista do século XIX ajudou a empurrar países inteiros para guerras desnecessárias. Hoje, o mecanismo é mais sofisticado — algoritmos, redes sociais, micro-targeting — mas o motor é o mesmo: audiência acima da verdade, engajamento acima da democracia.

O ponto central

Liberdade de expressão não obriga ninguém a dar palco para mentiras. Neutralidade jornalística não exige que se trate mentira como opinião legítima. Quando a mídia escolhe não confrontar falsidades, não está sendo neutra. Está escolhendo um lado.

Omissão perigosa

Ignorar discursos autoritários não os faz desaparecer — isso aprendemos dolorosamente. Mas amplificá-los sem crítica, sem contexto, sem confrontação, os fortalece. E esse é um risco que não podemos subestimar.

A grande mídia não apenas informa. Ela legitima, normaliza e molda ativamente a realidade política em que vivemos. Quando falha nesse papel — seja por omissão, por busca de lucro ou por alinhamento ideológico — o custo não é abstrato.

É social. É institucional. É democrático.