Vitória, domingo 18 de outubro de 2026
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Mineração artesanal no Sudão: ataque aéreo mata mais de 100 na fronteira com o Egito

Ataque aéreo contra área de garimpo no norte do Sudão, na fronteira com o Egito, deixou ao menos 114 mortos; jovens buscam renda em meio à guerra.

Por Roberto Andrade ·
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Em meio a uma guerra civil que devastou a economia, milhares de jovens sudaneses recorrem à mineração artesanal no Sudão para sobreviver. No sábado (10), um suposto ataque aéreo atingiu uma dessas minas no norte do país, na fronteira com o Egito, e deixou pelo menos 114 mortos, segundo a organização de direitos humanos Emergency Lawyers.

A mina reunia muitos jovens que tentam tirar o sustento de um país cuja economia foi destruída por três anos de guerra. Mineradores atribuíram o bombardeio ao Egito, e o episódio provocou revolta entre sudaneses que veem na ação uma agressão do vizinho do norte e uma prova da incapacidade do país de se defender.

Ammar, comerciante de ouro que trabalhava em outro ponto da região, chegou ao local depois do bombardeio e encontrou cenas de caos. Sacolas verdes usadas para carregar o material escavado estavam espalhadas pelo chão, enquanto os trabalhadores improvisavam macas com cobertores, levavam feridos em caminhonetes para cidades próximas e cavavam sepulturas para os mortos.

Para Ammar, as vítimas eram pessoas que tinham ido até ali apenas para trabalhar. “Sudão não tem empregos, então eles vão para as montanhas e cavam com as próprias mãos para viver”, afirmou. Muitas dessas famílias estão dispersas pela guerra e dependem do dinheiro que os parentes conseguem enviar.

As forças armadas egípcias confirmaram operações contra o que chamam de mineração ilegal no deserto oriental, mas não comentaram especificamente o bombardeio. Segundo o Egito, panfletos foram distribuídos para orientar civis a deixar a área antes da ação. Fotos publicadas nas redes sociais mostram um deles com a frase: “Entreguem-se e seus equipamentos. Suas vidas são mais importantes do que qualquer equipamento.”

Mohamed Salah, diretor da Emergency Lawyers, afirmou que houve confrontos entre mineradores e forças de segurança egípcias antes do bombardeio, quando os agentes tentavam retirar os trabalhadores da área. Segundo ele, as autoridades egípcias há muito tentam conter o comércio fronteiriço ilegal, mas os moradores não esperavam uma escalada envolvendo aeronaves militares.

Segundo a imprensa sudanesa, o mesmo local já havia sido atingido em junho, com pelo menos 15 mortos. O Egito também tem realizado batidas, prisões de mineradores e apreensão de equipamentos. Uma estimativa aponta que o país fica com cerca de 60% do ouro produzido e contrabandeado de partes do norte do Sudão que fazem fronteira com o Egito.

Mesmo com a guerra entre o Exército sudanês e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido, a produção de ouro continuou nas áreas controladas pelos dois lados. As minas artesanais se multiplicaram com o aumento da pobreza. A maioria dos mineradores se dispersou após o ataque, mas, segundo Salah, eles pretendem voltar, já que a atividade é a única fonte de renda da região. Muitos vêm de áreas atingidas pelo conflito, como Darfur e Kordofan.

O trabalho é manual e expõe os garimpeiros a riscos à saúde, já que o processamento do ouro usa substâncias como mercúrio e cianeto.

A ativista de direitos humanos Hala al-Karib, que lidera a Iniciativa Estratégica para Mulheres no Chifre da África, avalia que o bombardeio expõe a vulnerabilidade desses trabalhadores. Para ela, com o colapso do sistema educacional e o alto desemprego, eles têm poucas alternativas de sobrevivência e estão na base de uma cadeia explorada por grandes comerciantes. “É um crime e não há nada que o justifique”, disse.

O caso reforça o dilema de milhares de sudaneses que, sem alternativas de emprego, arriscam a vida em áreas de fronteira. A reportagem não informa se há investigação em curso sobre o ataque.

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