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Hotel em Kherson vira abrigo para deslocados em meio a bombardeios e drones russos

Único hotel em funcionamento em Kherson virou abrigo para deslocados em meio a apagões e ataques de drones russos na linha de frente.

Por Roberto Andrade · · Atualizado às 12h14
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Image by freepik

O Richelievsky, hotel em Kherson no sul da Ucrânia, transformou-se em abrigo para moradores que não têm para onde ir, em meio a apagões, bombardeios de artilharia e ataques de drones russos. A cidade fica a menos de um quilômetro do rio Dnipro, que marca a linha de frente desde que as forças ucranianas retomaram Kherson, em novembro de 2022. As tropas russas estão na margem oposta.

Segundo o gerente Yevhen Emtsov, a regra mais importante do prédio é fechar as cortinas antes do anoitecer. Operadores de drones russos caçam civis pela cidade, em prática informalmente chamada de “safári humano”, e até uma fresta de luz pode revelar onde alguém está.

Antes da guerra, o hotel recebia turistas e viajantes a negócios que participavam de congressos. Quando as forças russas se aproximaram, em março de 2022, Emtsov começou a acolher pessoas que fugiam de comunidades bombardeadas às margens do Dnipro, sem esperar a autorização dos donos. Quando Kherson caiu sob ocupação, o prédio já funcionava como refúgio.

Nos meses seguintes à invasão, chegaram a ficar no local entre 200 e 300 pessoas, bem acima da capacidade prevista de 120. Patrulhas russas entravam no prédio, faziam perguntas aos moradores e registravam suas impressões digitais. Hoje, o hotel abriga 41 deslocados, que recebem quarto e três refeições por dia sem custo. “Ninguém dorme na rua. Ninguém”, afirma Emtsov.

Perto da meia-noite, a energia cai e a cidade fica totalmente às escuras. Durante a madrugada, bombardeios e drones são ouvidos sem parar, e ao amanhecer o cheiro de fumaça já se espalha, segundo o gerente.

Pela manhã, os primeiros a aparecer são os que reaquecem na cozinha o que sobrou da véspera. Nina e Viktor Tsokurenko começam o dia com exercícios e chá no quarto 43. Viktor teve um AVC e tem dificuldade para falar. Nina conta que uma explosão forte, por volta da 1h, a impediu de voltar a dormir.

Tatyana Nesterchuk, uma das moradoras há mais tempo no hotel, trabalha em uma lavanderia no distrito de Dniprovskyi. O trajeto de minibus passa por algumas das ruas mais perigosas da cidade, e ela sempre leva uma bolsa de emergência. Foi informada de que sua casa foi destruída pelo fogo e que restou apenas o terreno.

Quando alertas de bombas guiadas chegam ao hotel, ela segue para o abrigo com uma mala de cerca de 10 kg, cheia de fotografias e lembranças da família. O filho pede que ela tire metade do peso, mas ela não consegue.

Uma menina de 11 anos, a única criança que mora no hotel, vive ali com a mãe, Iryna, de 50 anos. A mãe tenta explicar a guerra com palavras simples: alguém quer tirar a casa deles. Antes da invasão, as duas planejavam acampar em reservas naturais ucranianas. Agora, Iryna orienta a filha a buscar lugares com mais árvores e paredes. “Não há sensação de segurança em lugar nenhum”, diz.

Na recepção, Svitlana Salii, braço direito de Emtsov, recebe a notícia de que um drone FPV russo atingiu a van que levava o gerente e colaboradores de volta da compra de mantimentos. Emtsov relata que ouviram o zumbido, viram o drone e conseguiram se proteger antes da colisão. Ele afirma que, como hotel, o local não poderá mais funcionar, mas seguirá como centro de apoio enquanto houver forças.

As condições em Kherson seguem se deteriorando. Emtsov tenta encontrar uma saída da cidade para Iryna e a filha, e organizações de caridade buscam uma vaga para elas em Odessa. Por enquanto, as duas continuam no quarto 54, com as cortinas fechadas antes do anoitecer.

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