Impactos do El Niño podem empurrar 4,8 milhões à pobreza na América Latina

Impactos do El Niño podem empurrar 4,8 milhões à pobreza na América Latina
Imagem ilustrativa. Foto: Marsel Minga / Wikimedia Commons (CC0)

Os impactos do El Niño podem custar à América Latina e ao Caribe uma perda de pelo menos 2% do Produto Interno Bruto regional em três anos, segundo alerta da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Além da queda na atividade econômica, o fenômeno pode levar até 4,8 milhões de pessoas à pobreza até o fim da década, na comparação com um cenário sem El Niño.

De acordo com o relatório da entidade, metade desse prejuízo deve se concentrar no primeiro ano do evento climático. O documento afirma que o episódio, se atingir forte intensidade, terá efeitos econômicos e sociais graves e desiguais entre os países da região.

As projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) indicam probabilidade de mais de 90% de que o fenômeno atinja intensidade muito forte no outono e no inverno de 2026-2027. O mesmo serviço estima em 69% a chance de ocorrer um Super El Niño, classificação histórica associada a anomalias de temperatura da superfície do mar acima de 2,5 °C ou 3 °C.

No setor energético, a Cepal aponta vulnerabilidade estrutural. Em alguns países, a geração hidrelétrica responde por mais de 70% da matriz elétrica, e mais da metade da capacidade instalada tem mais de 30 anos de uso. Com as altas temperaturas, a demanda por climatização nas grandes metrópoles tende a crescer justamente quando há menos água disponível, o que eleva o risco de cortes de energia e os custos operacionais.

A pesca e a agricultura também devem sentir os efeitos. Em episódios anteriores, as capturas pesqueiras da região caíram de forma significativa, e o relatório prevê mudanças nas cadeias alimentares que podem afastar espécies-chave. Já na agricultura, há probabilidade de mais de 70% de secas nos próximos meses, com risco para culturas de subsistência e para a renda de comunidades rurais.

O documento lembra que o fenômeno ocorre em um cenário de aquecimento global provocado pela atividade humana. Em 2024, a temperatura média do planeta ficou 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais.

Segundo o secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, as respostas adotadas após a declaração de emergência custam bem mais do que as medidas preventivas. Para evitar que os impactos se transformem em crises socioeconômicas prolongadas, a comissão recomenda que os governos antecipem ações, como incluir os riscos climáticos de forma permanente nas políticas nacionais, proteger ativos e infraestrutura estratégicos e coordenar recursos compartilhados entre os países da região.