Apenas 27,3% do fundo dos oceanos foi mapeado; nas profundezas, a vida desafia escuridão, pressão e calor extremo

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O ser humano já enviou sondas a outros planetas, fotografou galáxias a bilhões de anos-luz e identificou milhares de mundos fora do Sistema Solar. Mas ainda conhece mal uma das regiões mais próximas: o fundo dos próprios oceanos. Em 2025, apenas 27,3% do fundo oceânico mundial havia sido mapeado segundo padrões modernos de batimetria.

O número, divulgado pelo projeto Seabed 2030, não significa que os outros 72,7% sejam completamente desconhecidos. Existem informações obtidas por satélites, sonares e levantamentos anteriores. O que ainda falta, em grande escala, são mapas detalhados e de alta resolução capazes de revelar com precisão o relevo submarino.

E o que existe nesse território ainda pouco conhecido é bastante diferente do mundo que conhecemos na superfície.

A luz solar vai desaparecendo rapidamente conforme a profundidade aumenta. A partir de aproximadamente 1.000 metros, encontra-se a zona afótica, onde a luz solar não chega em quantidade suficiente para sustentar a fotossíntese. É um ambiente de escuridão permanente, elevada pressão, baixas temperaturas em muitas regiões e disponibilidade limitada de alimento.

Mesmo assim, há animais vivendo ali.

Em 2022, pesquisadores registraram um peixe-caracol a 8.336 metros de profundidade, na Fossa de Izu-Ogasawara, no Pacífico, ao sul do Japão. Foi a maior profundidade já registrada em imagens para um peixe vivo.

O animal pertence ao gênero Pseudoliparis, mas sua espécie não foi determinada com segurança. Essa distinção é importante: o registro demonstra até onde um peixe consegue viver, mas não permite afirmar que o exemplar pertença a uma espécie específica.

As profundezas também abrigam fenômenos geológicos capazes de desafiar a percepção que temos sobre os limites da vida.

São as fontes hidrotermais, estruturas encontradas principalmente em regiões de intensa atividade geológica. Por elas saem fluidos extremamente quentes, que podem ultrapassar 400 °C, carregados de minerais e compostos químicos.

Na superfície, uma temperatura dessa ordem faria a água entrar em ebulição. A milhares de metros de profundidade, porém, a situação é diferente. A enorme pressão exercida pela coluna de água aumenta o ponto de ebulição e impede que esses fluidos fervam da maneira convencional.

E é justamente ao redor dessas fontes que algumas das comunidades biológicas mais incomuns dos oceanos se desenvolvem.

Sem luz solar suficiente para sustentar a fotossíntese, microrganismos utilizam compostos químicos como fonte de energia. Esse processo, chamado quimiossíntese, sustenta cadeias alimentares inteiras e permite a existência de organismos adaptados a condições que seriam incompatíveis com a vida humana.

Essas descobertas ajudam a mudar uma ideia antiga: a de que a vida depende necessariamente da luz do Sol.

O oceano profundo mostra que não.

Ele também revela outra questão. A cada nova expedição, pesquisadores não apenas catalogam animais; descobrem ambientes que ajudam a compreender a geologia do planeta, o funcionamento dos ecossistemas e os limites da adaptação biológica.

Ainda há, porém, uma enorme área para explorar. Montanhas submarinas, cânions, vulcões, planícies abissais e fossas oceânicas permanecem sem o mesmo nível de detalhamento disponível para grande parte das áreas terrestres.

É por isso que os 27,3% mapeados em padrões modernos representam mais do que uma estatística. Eles dão uma dimensão concreta do quanto ainda falta conhecer.

O paradoxo é evidente: conseguimos observar com detalhes partes de outros mundos enquanto uma parcela significativa do relevo do planeta onde vivemos continua sem um mapa de alta resolução.

O fundo do oceano não é outro planeta. É parte deste. E, apesar disso, continua sendo uma das últimas grandes fronteiras da exploração científica na Terra.