Cientistas testam cápsula de bactérias do intestino contra a depressão

Estudo clínico investiga se a alteração do microbioma pode reduzir sintomas depressivos; resultados iniciais mostram melhora, mas ainda não comprovam a eficácia do tratamento.

Uma cápsula com 40 tipos de bactérias está sendo estudada como uma possível nova estratégia contra a depressão. O tratamento, chamado Microbial Ecosystem Therapeutic-2 (MET-2), foi desenvolvido para modificar o microbioma intestinal e é investigado como alternativa ao transplante convencional de microbiota fecal.

A pesquisa parte de uma ideia que vem ganhando espaço na medicina: o intestino e o cérebro mantêm uma comunicação permanente. Esse sistema, conhecido como eixo intestino-cérebro, envolve sinais produzidos por microrganismos, células do sistema imunológico e outras substâncias que podem chegar ao sistema nervoso. Por isso, pesquisadores passaram a investigar se a alteração da microbiota poderia influenciar sintomas de depressão e ansiedade.

O MET-2 é administrado em cápsulas e contém 40 cepas de bactérias purificadas e cultivadas em laboratório. As bactérias foram obtidas originalmente a partir das fezes de um doador saudável. A proposta é repovoar o intestino com uma comunidade definida de microrganismos, em vez de utilizar diretamente o material fecal de um doador.

Em um estudo de fase 2, publicado em 2025, pesquisadores acompanharam 29 pessoas que apresentavam um episódio de depressão. Os participantes receberam diariamente MET-2 ou placebo durante seis semanas e foram acompanhados por mais duas semanas. O objetivo era verificar se a intervenção poderia reduzir os sintomas depressivos e, ao mesmo tempo, avaliar sua segurança.

Os sintomas de depressão diminuíram de forma significativa ao longo do período analisado. Mas houve um detalhe importante: a diferença entre as pessoas que receberam MET-2 e aquelas que receberam placebo não foi estatisticamente significativa. Ou seja, o estudo registrou melhora nos participantes, mas não conseguiu demonstrar que essa melhora tenha sido causada pela cápsula.

A pesquisa anterior, de fase 1, havia acompanhado apenas 12 adultos durante oito semanas. Naquele estudo inicial, o MET-2 foi considerado geralmente seguro e bem tolerado, com poucos eventos adversos e nenhum evento adverso grave. Os participantes também apresentaram redução dos sintomas de depressão e ansiedade. Como o trabalho não tinha grupo placebo e envolvia poucas pessoas, os resultados não eram suficientes para determinar a eficácia do tratamento.

O interesse pelo microbioma não se limita ao MET-2. Em 2026, outro ensaio clínico randomizado avaliou o transplante de microbiota fecal em cápsulas como complemento ao escitalopram, um antidepressivo. O estudo encontrou redução maior dos sintomas depressivos em determinados momentos do acompanhamento, embora a taxa de remissão após oito semanas não tenha apresentado diferença significativa entre os grupos. Os pesquisadores também observaram alterações duradouras na microbiota dos participantes.

Esses resultados colocam o microbioma entre as áreas que vêm sendo investigadas na busca por novas formas de tratar a depressão. Ainda não significam, porém, que exista uma cápsula capaz de eliminar a doença em algumas semanas.

O que a ciência tem hoje é uma hipótese que ganhou força e começou a ser testada em seres humanos: alterar a comunidade de microrganismos do intestino pode influenciar o funcionamento do organismo e, possivelmente, os sintomas de transtornos do humor. Os estudos já produziram resultados que justificam novas pesquisas, mas ainda não estabeleceram esse procedimento como tratamento comprovado para a depressão.