Ministros do Supremo entram para a história de duas formas. Pelos votos que deram. Ou pelas decisões que tomaram. André Mendonça está a caminho de um terceiro tipo de história, mais incômoda: a de quem descobriu que dava para incendiar o próprio Supremo usando as ferramentas da própria Corte. Ministro “terrivelmente evangélico”, indicado por Jair Bolsonaro — hoje preso por tentar dar um golpe de Estado.
Olhando de fora, parece operação calculada. Primeiro a pressão sobre o entorno de Lula. Depois a exposição de documentos que atingem Alexandre de Moraes. Em seguida, a guerra escancarada dentro do próprio tribunal. E agora, no meio do incêndio, a investigação de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.
Pode ser coincidência. Pode ser só uma sequência de decisões isoladas. Mas política também se lê pela ordem dos fatos. E essa ordem fala sozinha.
Mendonça virou relator dos processos do Banco Master depois que Dias Toffoli saiu do caso, em fevereiro. Toffoli saiu depois que vazou a relação empresarial da família dele com o resort Tayayá — que tinha entre os sócios um fundo ligado a Daniel Vorcaro, dono do Master.
Mendonça já era relator do desvio do INSS. Com os dois processos nas mãos, viu a chance de pesar no jogo eleitoral. E não perdeu tempo.
Pediu investigação seletiva contra um colega. Pior: liberou documentos que envolvem Moraes e Vorcaro. Vieram à tona mensagens, contratos, informações sobre o escritório da mulher de Moraes. Um dos contratos com o Master previa R$ 131 milhões em pagamentos. O escritório diz que os serviços eram legais e que Moraes foi consultado antes, para checar impedimento. Há ainda relatos de que Vorcaro consultava Moraes sobre os próprios processos contra ele. É história que precisa ser apurada. Mas uma pergunta não sai da sala: por que a lupa só está em cima de Moraes?
Porque, enquanto Mendonça levantava o tapete do colega, apareceu sujeira embaixo do tapete dele mesmo. O ministro também se encontrou com Vorcaro. No escritório da própria empresa de Mendonça.
Uma vez, segundo a própria versão dele. Março de 2025. Mendonça diz que o encontro foi por iniciativa do empresário, e que o assunto era uma ação sobre precatórios. Diz também que decidiu contra o que Vorcaro defendia. Pode estar tudo em ordem. A pergunta continua de pé.
Se conversa com Vorcaro é informação relevante quando quem conversa é Moraes, por que não seria relevante quando quem conversa é Mendonça?
Justiça não pode funcionar como espelho de parque de diversões — daqueles que deformam a imagem dependendo de onde a pessoa se posiciona. Se proximidade importa, importa para todos. Se não importa, não importa para ninguém.
É exatamente aí que a atuação de Mendonça passa a produzir algo pior do que uma briga entre ministros: produz a sensação de seletividade. E sensação, numa Suprema Corte, também é problema institucional.
Agora entrou uma peça nova no quebra-cabeça.
Flávio Bolsonaro, senador e candidato à Presidência, passou a ser investigado dentro do caso Master. A investigação foi aberta por Mendonça em julho e só veio a público hoje (11/09/26). Apura suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Flávio nega irregularidade, diz que o dinheiro é privado e legal — mas até agora não prestou contas nem mostrou planilha de custo nenhuma.
Aqui a história ultrapassa Flávio Bolsonaro. Ultrapassa Mendonça. Ultrapassa Lula. Ultrapassa Bolsonaro. Vira questão de Estado.
Imagine o Brasil acordando no dia seguinte à eleição com o presidente eleito formalmente investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. Não estou dizendo que Flávio é culpado. Investigação não é condenação. Suspeita não é crime provado. Candidato investigado continua com direito a defesa e presunção de inocência.
Mas existe uma distância enorme entre ser investigado e ser condenado. E existe uma distância ainda maior entre uma investigação criminal comum e uma investigação em cima de alguém que acabou de receber das urnas o comando da República.
O problema não seria só eleger um presidente investigado. O problema seria acordar, no dia seguinte, e descobrir que o país transformou uma investigação criminal em questão de Estado. Isso deveria assustar qualquer democrata.
Porque a partir daí a investigação para de ser só procedimento policial ou judicial. Passa a se misturar com a Presidência, com o Congresso, com o Supremo, com a oposição, com o mercado, com as Forças Armadas, com governos estrangeiros, com a própria estabilidade das instituições.
Toda decisão judicial passa a ser lida como decisão política. Todo avanço vira perseguição. Todo recuo vira proteção. Todo documento vazado vira munição de campanha. O país entra numa espécie de tribunal permanente. E aí quem ganha? Certamente não é a democracia.
A situação fica ainda mais delicada porque a investigação de Flávio nasce dentro do mesmo caso que colocou o Supremo em guerra aberta.
O Banco Master deixou de ser só um caso de fraude financeira. Virou ponto de encontro entre banqueiro, político, empresário, advogado, servidor público e ministro do STF.
Agora candidatos à Presidência também entram nesse mapa. A Reuters informou nesta sexta-feira que a investigação contra Flávio foi aberta pelo Supremo dentro da apuração maior sobre o colapso do Banco Master — e que o caso tem potencial de pesar politicamente às vésperas da eleição.
Impossível ignorar o momento.
O Brasil vai às urnas enquanto o Supremo expõe as próprias rachaduras.
Mendonça e Moraes trocam farpas.
Toffoli largou a relatoria.
O presidente do STF tenta segurar a crise.
A Polícia Federal aparece no centro da briga.
Documentos sigilosos são abertos.
Um dos principais candidatos à Presidência entra no radar de uma investigação.
Tudo isso ao mesmo tempo.
Pode ser coincidência histórica. Mas é coincidência e tanto. E talvez seja por isso que valha a pena olhar sem paixão.
Mendonça pode estar certo em investigar Moraes.
Moraes pode estar certo em questionar Mendonça.
Flávio pode ser inocente do que está sendo apurado.
Ou pode haver fato grave por descobrir.
Investigação existe para isso: para descobrir. O problema começa quando ela deixa de ser vista como investigação e passa a ser usada como arma de campanha. Aí o Estado de Direito pisa em terreno perigoso.
O eleitor precisa saber os fatos. Precisa saber quem está sendo investigado. E por quê. Precisa conhecer documento, contrato, relação, versão. Mas também precisa saber o que ainda não foi provado.
Essa distinção é o centro de tudo. Transformar suspeita em condenação é tão perigoso quanto transformar investigação em perseguição.
E talvez esse seja o grande teste desta eleição. Não só saber quem vai ganhar. Mas saber se o país consegue escolher um presidente sem virar refém de uma investigação criminal — e sem transformar a investigação em arma de guerra política.
É aqui que Mendonça volta ao centro da cena.
Foi indicado por Jair Bolsonaro. Hoje, suas decisões contra Moraes são comemoradas por setores da direita. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência e está sob investigação aberta pelo próprio Mendonça.
A situação é tão delicada que qualquer movimento do ministro vai ser lido politicamente. Se avançar, será acusado de atingir um candidato. Se recuar, será acusado de protegê-lo. Se divulgar documento, será acusado de interferir na eleição. Se mantiver tudo em sigilo, virá acusação de seletividade.
A imagem mais evidente da ingerência de Mendonça no processo eleitoral são os vídeos que ele próprio gravou e que foram usados nas comemorações do & de setembro no Brasil. Um boneco de Mendonça foi inclusive exibido pelo candidato Flavio Bolsonaro na manifestação em São Paulo.
Esse é o problema de incendiar uma instituição: depois, ninguém controla mais a direção do fogo.
E aqui entra a sombra de Donald Trump.
Não existe prova pública de que Mendonça age por orientação de Trump. Não há base factual para afirmar isso. Mas existe uma convergência política que não deveria ser ignorada. Os Bolsonaros têm contatos com o Governo Trump e adoram divulgar isso. Fotos deles com Trump são comuns nas redes sociais da família. Eduardo Bolsonaro mora nos EUA e diz que é um embaixador contra o governo brasileiro.
Trump mostrou que instituição se enfraquece com exploração sistemática de conflito, com deslegitimação de árbitro, com investigação transformada em arma política.
Um Supremo em guerra consigo mesmo é uma instituição mais frágil. Uma eleição feita em meio à investigação sobre um dos principais candidatos é uma eleição mais exposta à desconfiança. E um país em que toda decisão judicial vira ato de facção é um país onde a verdade briga com a conveniência.
Não precisa existir conspiração internacional nenhuma para que esse resultado sirva a quem quer a instituição brasileira fraca. Basta o incêndio continuar.
Mendonça não criou sozinho a crise do Supremo. Moraes também não. Toffoli tampouco. A própria Corte tem responsabilidade — deixou, ao longo dos anos, uma concentração de poder nas mãos dos próprios ministros que já era, em si, um risco.
Mas foi Mendonça quem acendeu o fósforo num ambiente encharcado de combustível. Fez isso com claro objetivo de atingir a campanha a reeleição do Presidente Lula. Mas agora o fogo chegou a um lugar que ele não esperava: a campanha de Flavio Bolsonaro.
Uma coisa é um ministro entrar em conflito com outro. Outra, bem diferente, é esse conflito enfraquecer um candidato e atingir no peito um outro candidato. E outra, ainda mais grave, é o eleitor escolher um candidato sem saber exatamente quais os crimes que cometeu e descobrir, no dia seguinte, que a investigação que já existia antes da eleição provou que ele é culpado, o eleito virou réu e será julgado. Tudo isso antes mesmo de tomar posse como presidente da República.
A pergunta deixaria de ser só jurídica. Seria política. Seria institucional. Seria internacional. Seria econômica. Seria constitucional. E seria, acima de tudo, uma pergunta sobre a capacidade do Brasil de funcionar normalmente com um presidente respondendo a investigação criminal.
Por isso, o caso Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como só mais uma notícia da briga entre bolsonaristas e petistas. É maior que isso. Muito maior.
O eleitor tem direito de escolher quem quiser. Mas também tem direito de saber tudo o que pesa sobre o candidato antes de apertar o botão. Sem manipulação. Sem censura. Sem blindagem. Sem condenação antecipada. Sem absolvição antecipada. A verdade inteira.
Porque, no fim, quem está sendo testado não é Flávio Bolsonaro. É o Brasil.
E talvez essa seja a parte mais assustadora de tudo isso: o país pode chegar ao dia seguinte da eleição com um presidente escolhido nas urnas, mas obrigado a começar o mandato sob a sombra de uma investigação criminal que já existia antes mesmo da posse.
Nesse cenário, não é só o presidente que vai estar em julgamento. Vai estar em julgamento a capacidade das instituições brasileiras de separar Justiça de política.
E se essa separação já parece difícil hoje, imagine amanhã.
Imagine o dia seguinte à eleição. Imagine o vencedor. Imagine o inquérito. Imagine o Brasil tentando governar com os dois caminhando juntos, de mãos dadas, para dentro do Palácio do Planalto.
Esse é o verdadeiro incêndio. E ainda não sabemos até onde ele vai. Mas dois incendiários são bem conhecidos: André Mendonça e Donald Trump.
