I. A vitória
Na noite em que venceu, ele não chorou diante das câmeras. Talvez a emoção já tivesse ficado no primeiro mandato. Talvez não. Àquela altura, nem ele parecia saber onde terminava o homem e começava o personagem. Disse que aquele era o dia da virada para a nação: um novo grande país estava começando. Prometeu governar para todos, inclusive para os que haviam votado contra ele. A multidão respondeu gritando seu nome. Atrás, no palco, a família sorria.
Miriam Cole assistia ao discurso na redação quase vazia do jornal onde trabalhava havia vinte e dois anos. Faltavam dez minutos para meia-noite. Havia copos de café pela metade sobre as mesas, caixas de pizza abertas e algumas televisões ainda ligadas. Os repórteres mais jovens já tinham descido para cobrir a festa nas ruas.
Miriam baixou o volume, abriu o caderno e escreveu na margem de uma página: Isso também vai passar. Não colocaria a frase em nenhuma matéria. Naquela noite, acreditava nela. Quase todo mundo acreditava.
II. A fissura
A primeira rachadura pareceu pequena demais para merecer esse nome. Meses depois da posse, o partido do presidente perdeu uma eleição estadual por margem estreita. Perguntado sobre o resultado, o presidente sorriu.
— Tem alguma coisa estranha aí.
Os jornalistas riram. Um deles perguntou se ele estava denunciando fraude.
— Eu só disse que é estranho.
A frase entrou nas matérias como curiosidade. Na semana seguinte, voltou. Depois apareceu num programa de rádio. Em seguida, num discurso de um deputado. Contas anônimas repetiram a acusação. Apresentadores de televisão começaram a perguntar se o sistema eleitoral era realmente seguro. Ninguém apresentava provas.
O alvo preferido passou a ser o voto pelo correio. Miriam levou três dias preparando uma reportagem. Consultou universidades, especialistas em legislação eleitoral e dados de eleições anteriores. O levantamento mostrava que as fraudes comprovadas eram residuais. A matéria ficou seis horas na página principal do jornal. O vídeo de quinze segundos em que o presidente dizia que “todo mundo sabe o que acontece” circulou durante semanas.
Na reunião de pauta, um repórter perguntou:
— Como se desmente uma frase que não precisa provar nada?
Ninguém respondeu.
III. A família
Enquanto o país discutia urnas, outras coisas aconteciam com menos barulho. Empresas recém-criadas começaram a ganhar contratos federais. Alguns dos proprietários tinham relações comerciais com parentes do presidente. Outras empresas eram dos próprios parentes do presidente. Um fundo estrangeiro investiu milhões num empreendimento ligado à família. Doações milionárias chegavam a todo momento. O presidente vendia tudo que usava: de gravatas a relógios, passando por bíblias e bonés. Negociava bitcoins e informações privilegiadas. Tudo estava a venda no governo.
Miriam colocou um repórter jovem no caso. Daniel tinha vinte e seis anos e a convicção, que ela reconhecia dos primeiros anos de profissão, de que bastava descobrir um fato para que alguma coisa acontecesse. Passou semanas cruzando registros. Uma tarde entrou na sala dela com uma planilha impressa.
— Olha isso.
O patrimônio declarado de um dos parentes do presidente havia crescido várias vezes desde a posse. Publicaram. Dois dias depois, o órgão responsável por analisar conflitos de interesse informou que não havia elementos suficientes para investigar.
Daniel apareceu novamente na mesa de Miriam.
— E agora?
— Agora a gente continua.
Continuaram. Vieram outras matérias, outros documentos, outros contratos. Nada aconteceu. Alguns meses depois, o chefe do órgão de fiscalização foi substituído. Seu sucessor havia trabalhado na campanha presidencial.
Na televisão, um comentarista chamou as relações entre governo e empresas de “nova parceria entre o setor público e a iniciativa privada”. Miriam desligou o aparelho.
Enquanto isso, obras e mais obras desnecessárias começavam sem ninguém entender porquê. E nada terminava. Uma continuidade infinita do desnecessário.
IV. As togas
O primeiro tribunal suspendeu uma ordem presidencial. O governo recorreu e perdeu. Outro tribunal confirmou a decisão. Na terceira derrota, o presidente atacou os juízes durante um comício.
Até ali, nada era exatamente novo. Presidentes criticavam tribunais. Governos perdiam ações. Democracias também eram feitas de conflito. Então veio a manhã de terça-feira.
Miriam chegou à redação pouco depois das sete. Daniel já estava lá.
— Eles não cumpriram.
Ela deixou a bolsa sobre a mesa.
— Como assim?
— A decisão. O dinheiro continua bloqueado.
Miriam releu os documentos. Ligou para o tribunal, para o ministério e para professores de Direito Constitucional. Às onze horas, o porta-voz do governo apareceu diante das câmeras e explicou que o Executivo seguiria seu próprio “cronograma administrativo”. Um repórter perguntou se isso significava descumprir uma decisão judicial. O porta-voz repetiu a resposta.
Naquela noite, Miriam escreveu uma manchete que considerava óbvia: Governo descumpre decisão da Justiça.
O editor-chefe apareceu atrás dela.
— Dá para baixar um pouco?
Miriam virou a cadeira.
— Baixar o quê?
— O tom.
— Não é tom. É o que aconteceu.
Ele ficou em silêncio. A manchete foi publicada. No dia seguinte, metade das mensagens enviadas ao jornal acusava Miriam de militância.
V. O inimigo
Vieram depois as credenciais suspensas. Primeiro de um repórter de televisão, depois de dois jornais regionais. O governo dizia que não atacava a imprensa. Apenas estabelecia “regras de acesso”.
Processos começaram a atingir pequenos veículos. Alguns fecharam acordos porque não tinham dinheiro para advogados. Uma emissora mudou de dono depois de meses de dificuldades regulatórias. O novo proprietário frequentava a residência presidencial.
No jornal de Miriam, os anunciantes começaram a desaparecer. Nunca diziam por quê. Apenas não renovavam os contratos. A redação perdeu oito jornalistas num corte. Depois cinco. Daniel passou a cobrir governo, Justiça e eleições ao mesmo tempo.
Certa manhã, Miriam recebeu uma reportagem sobre novos contratos envolvendo pessoas próximas à família presidencial. O texto estava correto. Ela mudou o título. Trocou “favorece” por “beneficia”. Depois trocou “beneficia” por “contempla”. Ficou olhando a palavra na tela. Não era falsa. Esse era o problema. Também não dizia exatamente a verdade.
Publicou assim mesmo. Naquela noite, em casa, abriu o caderno antigo e encontrou a frase escrita anos antes: Isso também vai passar. Fechou o caderno.
VI. A anestesia
O país continuava funcionando. Esse talvez fosse o fato mais difícil de compreender. Os ônibus circulavam, os supermercados abriam, crianças iam à escola. O campeonato começava no domingo. Pessoas reclamavam do preço da gasolina, marcavam férias, compravam carros, discutiam séries de televisão.
Não havia soldados nas esquinas nem tanques diante do Congresso. Havia eleições municipais, tribunais e jornais. Tudo continuava existindo. Só funcionava um pouco menos.
Miriam começou a perceber isso numa entrevista com um professor aposentado de História. Conversaram durante quase duas horas. No final, quando o gravador já estava desligado, ele perguntou:
— Você sabe qual é o problema de descer uma escada no escuro?
Miriam esperou.
— Você não cai porque existe um degrau. Cai porque acredita que ainda existe.
Ela abriu o caderno novamente.
— Posso usar isso?
O professor deu de ombros.
— Se algum dia servir.
Miriam anotou: O degrau invisível.
VII. A eleição
Faltavam onze meses para a eleição regional quando surgiu a primeira notícia sobre uma possível ameaça à segurança nacional. O governo não explicou sua natureza. Haveria, segundo autoridades, risco de interferência estrangeira, ataques digitais, sabotagem, talvez terrorismo. Os termos mudavam conforme o porta-voz.
O Congresso convocou sessões extraordinárias. Durante três semanas, o país discutiu uma lei emergencial. A oposição denunciou a proposta. Juristas disseram que era inconstitucional. O governo respondeu que a Constituição não poderia impedir o presidente de proteger a nação.
A lei foi aprovada numa madrugada. A eleição seria adiada. Não cancelada. Adiada. A palavra apareceu em todas as manchetes.
Houve manifestações em dezenas de cidades. Multidões ocuparam avenidas. Ex-presidentes assinaram manifestos. Militares aposentados divulgaram cartas. Universidades suspenderam aulas. Durante alguns dias, pareceu que o país inteiro havia acordado.
Mas o governo controlava a comissão eleitoral. Parte dos tribunais estava paralisada. Órgãos de fiscalização haviam perdido dirigentes e técnicos. Investigações contra pessoas próximas ao presidente nunca saíram do papel.
O jornal de Miriam tinha menos da metade dos repórteres que possuía no dia da posse. Daniel não estava mais entre eles. Aceitara emprego numa empresa de comunicação. Tinha uma filha pequena. Miriam não o censurou.
VIII. O último texto
Na noite da sanção, o presidente falou à nação. Estava sentado atrás de uma mesa, com duas bandeiras às costas e a voz baixa. Disse que a medida era temporária, que era necessária e que protegeria a democracia.
Miriam assistiu ao pronunciamento da mesma redação onde, anos antes, acompanhara a vitória. Desta vez, quase todas as mesas estavam vazias. Abriu um documento novo.
Não escreveu sobre o discurso nem sobre a lei. Começou pela primeira acusação sem provas, aquela que todos haviam tratado como bravata. Depois veio o primeiro contrato, o primeiro fiscal substituído, a primeira decisão judicial ignorada, a primeira credencial cassada, a primeira manchete suavizada e a primeira investigação que não chegou ao fim.
Nenhum daqueles episódios, sozinho, parecia suficiente. Esse era o ponto.
Miriam abriu uma gaveta e encontrou o caderno. Folheou até a página da noite da eleição e encontrou Isso também vai passar. Algumas páginas depois estava a outra anotação: O degrau invisível.
Voltou ao computador e escreveu durante quase três horas. Quando terminou, releu o texto inteiro. Não havia adjetivos nem previsões. Não havia uma única frase dizendo que a democracia acabara. Havia datas, nomes, decisões, contratos, demissões, leis e uma sequência. Era suficiente.
Às duas e dezessete da manhã, apertou Enviar. O sistema demorou alguns segundos. Depois apareceu a mensagem: Matéria recebida. Aguardando aprovação editorial.
Miriam ficou olhando para a tela. Esperou cinco minutos, depois dez, depois vinte. Nada aconteceu. Fechou o computador, colocou o caderno na bolsa e atravessou a redação escura.
Antes de apagar a luz, olhou para as mesas vazias. Só então entendeu o que o professor quisera dizer. O último degrau não desaparece quando alguém o destrói. Desaparece quando você pisa onde sempre esteve e descobre que já não está mais lá.
O Degrau Invisível é uma obra de ficção especulativa. Personagens e acontecimentos pertencem ao universo ficcional do conto.
