Uma onda de água, lama e rochas desceu pelas montanhas do Himalaia nesta quarta-feira (26) e atingiu vilarejos, estradas e pontes na fronteira entre o Nepal e o Tibete. O desastre deixou pelo menos 157 mortos no Nepal, enquanto centenas de pessoas continuavam desaparecidas no fim do dia, entre moradores, trabalhadores e turistas estrangeiros. A força da corrente também atingiu o lado chinês da fronteira, onde as autoridades confirmaram ao menos três mortes e 265 desaparecidos. Equipes de emergência enfrentam estradas destruídas, interrupções nas comunicações e o risco de uma nova inundação. A dimensão completa da tragédia ainda não havia sido estabelecida.
A enchente atingiu principalmente o norte do Nepal e a região do rio Bhotekoshi, perto da fronteira com a China. Em poucos minutos, a água avançou pelos vales e seguiu para os rios Trishuli e Narayani. O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), com sede em Katmandu, informou que o nível do Trishuli chegou a subir cerca de nove metros em apenas meia hora.
Os primeiros relatos atribuíram o desastre a um terremoto de magnitude 4,4 seguido por uma avalanche. Essa hipótese, porém, foi revista ao longo do dia. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) informou que uma nova análise dos sinais sísmicos indicou que não houve terremoto antes da inundação. A energia inicialmente interpretada como um abalo sísmico teria sido produzida pelo próprio deslizamento.
Colapso de geleira é investigado
Especialistas trabalham agora com a hipótese de que uma massa de gelo e rochas tenha se desprendido de uma geleira e atingido o vale. Imagens de satélite analisadas por pesquisadores indicam que o colapso pode ter bloqueado temporariamente um curso d’água. O rompimento posterior dessa barreira natural teria liberado de forma abrupta um enorme volume de água, sedimentos e rochas. A causa exata do desprendimento da geleira ainda está sendo investigada.
Segundo o ICIMOD, o rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, concentrou a maior cheia. O mesmo curso d’água já havia registrado uma inundação severa no período de 14 meses. Em agosto do ano passado, o transbordamento de um lago glacial no Tibete matou nove pessoas e destruiu parte da infraestrutura que liga Nepal e China.
Além disso, pesquisadores alertaram que o perigo não terminou. Um bloqueio permanece rio acima, próximo à fronteira entre Nepal e China, e existe risco de uma segunda onda de inundação. Por isso, moradores das áreas próximas aos rios foram orientados a deixar as margens e buscar pontos mais altos.
Centenas de turistas estão desaparecidos
A tragédia ocorreu em uma região percorrida por turistas e peregrinos. O Conselho de Turismo do Nepal informou inicialmente que 384 viajantes estavam desaparecidos, dos quais 291 eram estrangeiros e 93 nepaleses. As autoridades ressaltaram, no entanto, que os números eram preliminares e dependiam da conferência das listas fornecidas por empresas de turismo.
Entre os estrangeiros sem contato estavam cidadãos da Índia, Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul, Portugal, Austrália e Países Baixos. Oito sul-coreanos que trabalhavam em um projeto hidrelétrico no distrito de Rasuwa também estavam desaparecidos. Dois italianos e seu guia ficaram isolados por um deslizamento, mas recebiam assistência.
Parte dos viajantes seguia para o Monte Kailash, no Tibete, local sagrado para diferentes religiões asiáticas e destino de peregrinação de milhares de pessoas. Muitos dos desaparecidos eram indianos. A região atingida também é uma importante passagem terrestre entre Nepal e China.
Vilarejos, pontes e usinas foram atingidos
As águas destruíram casas, veículos, pontes e trechos de rodovias. Projetos de geração de energia também sofreram danos. A Autoridade de Eletricidade do Nepal estimou que instalações responsáveis por cerca de 430 megawatts de capacidade de geração, incluindo hidrelétricas e unidades solares, foram afetadas, provocando interrupções no fornecimento de energia.
Rasuwa foi uma das áreas mais atingidas, mas os efeitos da enchente avançaram rio abaixo. A polícia nepalesa informou que corpos foram encontrados em vários distritos, entre eles Nuwakot, Dhading, Chitwan, Gorkha, Tanahun e Nawalparasi East. Até a atualização divulgada no início da noite pelo Guardian, 157 corpos haviam sido recuperados, 49 feridos estavam hospitalizados e mais de 3,3 mil policiais participavam da operação.
O trabalho das equipes de resgate é dificultado pelo relevo montanhoso e pela destruição das vias de acesso. Em alguns pontos, o nível da água impediu o pouso de helicópteros. O Exército do Nepal mobilizou aeronaves e equipes especializadas, enquanto as buscas devem continuar durante a noite.
Do lado chinês, o deslizamento atingiu o porto terrestre de Gyirong, no Tibete, interrompendo estradas, energia elétrica e comunicações. O governo chinês mobilizou pelo menos 574 integrantes das equipes de resgate e anunciou recursos e suprimentos para atender as áreas afetadas.
Nepal pede ajuda aos países vizinhos
O governo do Nepal pediu apoio à Índia e à China para as operações de busca. O primeiro-ministro Balendra Shah convocou uma reunião de emergência e afirmou que o governo assumiria a responsabilidade pelo resgate, tratamento médico, alimentação e abrigo das vítimas.
A Organização Mundial da Saúde também mobilizou medicamentos, tendas e outros suprimentos médicos de emergência e informou que trabalha com o Ministério da Saúde do Nepal para avaliar as necessidades mais urgentes.
A Índia iniciou medidas preventivas diante da possibilidade de a cheia avançar pelo sistema fluvial em direção ao seu território. O Bhotekoshi nasce no planalto tibetano, atravessa o Nepal e desemboca no Trishuli. Mais adiante, as águas seguem para a Índia pelo rio Gandak.
Himalaia enfrenta riscos crescentes
Inundações e deslizamentos são frequentes no Nepal durante o período das monções, entre junho e setembro. Entretanto, o episódio desta quarta-feira apresenta uma característica diferente: testemunhas relataram que a inundação ocorreu sem chuva intensa na área imediatamente atingida. Isso reforçou a investigação sobre o colapso de gelo e rocha em altitude como origem da onda que percorreu os vales.
O Himalaia é considerado especialmente vulnerável ao aquecimento global. O aumento das temperaturas favorece o recuo das geleiras e modifica a estabilidade de encostas e lagos glaciais. Isso não permite atribuir automaticamente um desastre específico à mudança climática, mas amplia os riscos estruturais enfrentados pelas comunidades montanhosas. No caso desta quarta-feira, pesquisadores ainda analisam o mecanismo exato que provocou o colapso.
Por enquanto, as autoridades concentram os esforços na busca pelos desaparecidos e na retirada de moradores das áreas de risco. Como os dados mudaram rapidamente durante o dia e várias regiões permanecem com acesso e comunicação precários, os números de mortos e desaparecidos ainda podem ser revistos.
