Especialistas em educação analisam como a tecnologia e as rotinas cada vez mais cheias têm transformado o desenvolvimento infantil.
São Paulo, 24 de agosto de 2026 — Quem viveu a infância até os anos 2000 guarda na memória tardes inteiras de brincadeira na rua, jogos inventados com os vizinhos e longos períodos longe de qualquer tela. Essa lembrança é o ponto de partida de uma pergunta recorrente: a infância de antigamente era mesmo melhor?
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Para quem estuda educação e desenvolvimento infantil, não existe uma resposta simples. Mais do que decidir qual geração teve a infância mais feliz, o essencial é assegurar que toda criança tenha equilíbrio entre brincar, aprender, conviver e se desenvolver.
As crianças de hoje enfrentam desafios que praticamente não existiam há algumas décadas — contato precoce com a tecnologia, agendas cheias de compromissos e forte exposição às redes sociais. Em contrapartida, têm à disposição mais informação, novas formas de aprender e conversas mais abertas sobre temas como saúde emocional e inclusão, assuntos que eram pouco discutidos no passado.
A infância mudou?
Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, em São Paulo (SP), lembra que é natural que os adultos idealizem a própria infância — afinal, cada geração tende a comparar o presente com as lembranças de quando era criança. É provável, segundo ela, que as crianças de hoje também sintam saudade desta fase quando forem adultas.
“É verdade que muitas crianças têm hoje menos oportunidades de brincar na rua, explorar espaços ao ar livre e conviver espontaneamente com outras crianças, experiências que são muito importantes para desenvolver criatividade, autonomia e aprender a lidar com desafios do dia a dia. Por outro lado, elas também crescem com mais acesso à informação, novas formas de aprender, tecnologias que podem enriquecer o ensino e maior contato com diferentes culturas e realidades”, afirma Renata.
Para a pedagoga, o mais produtivo não é decidir qual geração teve a infância superior. “Cada época traz oportunidades e desafios diferentes. O mais importante é garantir que as crianças tenham tempo para brincar, conviver, descobrir o mundo, criar vínculos e experimentar diferentes vivências.”
Rotinas mais cheias podem fazer bem?
Hoje é comum que crianças passem o dia inteiro na escola, somando ainda atividades de idiomas, esportes, música e cultura. Quando bem planejadas e adequadas à idade, essas vivências podem contribuir bastante para o desenvolvimento infantil.
Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS), pondera que o ponto central não é o tempo que a criança fica na escola nem a quantidade de atividades, e sim a qualidade do que é oferecido.
“Uma rotina ampliada pode ser muito positiva quando alterna momentos de aprendizagem, brincadeira livre, movimento, descanso, interação e escolhas. A criança precisa participar de experiências significativas, mas também precisa ter tempo para brincar, imaginar e construir suas próprias descobertas”, diz.
Não existe, segundo ela, uma fórmula de rotina que sirva para todas as crianças igualmente. “É importante observar como cada criança vivencia sua rotina, se demonstra interesse, bem-estar e disponibilidade para participar. Atividades extracurriculares enriquecem a formação quando respeitam o ritmo da infância e convivem de forma equilibrada com o brincar, o descanso e a convivência familiar.”
As telas no centro da discussão
Poucos assuntos geram tanto debate entre profissionais de educação, saúde e desenvolvimento infantil quanto o tempo de tela de crianças e adolescentes. Escolas, governos e famílias têm buscado formas de reduzir a exposição a celulares e outros dispositivos, na medida em que crescem os casos de ansiedade, dificuldade de concentração, problemas de sono e prejuízo às relações sociais entre os mais jovens.
Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental da Escola Internacional de Alphaville (EIA), em Barueri (SP), defende que a tecnologia é parte da vida contemporânea e traz oportunidades reais de aprendizagem — mas não pode tomar o lugar de experiências centrais da infância. Para ela, o desafio não é rejeitar as telas, e sim equilibrar seu uso.
“Celulares, tablets e computadores são ferramentas importantes e fazem parte da forma como as crianças aprendem e se comunicam. O problema surge quando o tempo de tela passa a substituir momentos essenciais para o desenvolvimento, como brincar livremente, praticar atividades físicas, conversar presencialmente, lidar com frustrações, explorar a criatividade e construir relações no mundo real.”
Carla explica que é justamente na convivência que as crianças desenvolvem suas habilidades socioemocionais. “Empatia, autocontrole, comunicação, capacidade de resolver conflitos e de enfrentar pequenas frustrações são competências que se desenvolvem principalmente nas interações presenciais. Quando boa parte do tempo livre acontece diante de uma tela, essas oportunidades podem se tornar mais escassas.”
A recomendação é organizar a rotina para que a tecnologia ocupe um espaço saudável. “Estabelecer horários para os dispositivos, evitar o uso durante refeições e antes de dormir, incentivar brincadeiras ao ar livre e garantir momentos de convivência em família são algumas das estratégias que ajudam a equilibrar o mundo digital e as experiências indispensáveis para uma infância saudável”, completa a educadora da EIA.
O que não pode faltar em uma infância saudável
Michele Diniz, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Progresso Bilíngue, em Vinhedo (SP), defende que a infância tem valor por si mesma, e não deve ser vista apenas como uma preparação para a vida adulta. Segundo ela, o que se vive nessa fase deixa marcas profundas na maneira como a pessoa vai se relacionar consigo, com os outros e com o mundo pelo resto da vida.
“As experiências vividas nos primeiros anos influenciam a maneira como lidamos com frustrações, construímos relacionamentos, enfrentamos desafios e cuidamos da nossa saúde emocional ao longo da vida. Por isso, mais do que formar adultos bem-sucedidos, precisamos garantir que as crianças tenham o direito de viver plenamente a infância, brincar, experimentar, errar, aprender e crescer em um ambiente onde se sintam amadas, seguras e livres para serem quem são.”
Michele lista alguns elementos que considera indispensáveis para o desenvolvimento saudável: brincar, criar vínculos afetivos, movimentar o corpo, explorar o mundo, ter relações de qualidade, sentir-se segura e saber que pode contar com adultos de confiança.
“Um dos maiores presentes que pais e educadores podem oferecer às crianças é a escuta genuína. Elas precisam sentir que são respeitadas, acolhidas e levadas a sério. Quando percebem que podem conversar sem medo de julgamentos, fazer perguntas, expressar emoções, admitir que erraram e pedir ajuda, desenvolvem confiança para enfrentar desafios e construir uma autoestima saudável. Essa segurança emocional nasce das relações que estabelecem com os adultos que fazem parte da sua vida”, finaliza.
