Simulações nos EUA sobre riscos às eleições ampliam debate sobre segurança eleitoral no Brasil

Imagem: Chatgpt AI

Exercícios feitos por senadores democratas testam cenários com deepfakes, intimidação de eleitores e pressão federal; no Brasil, tensão com Washington e avanço da IA colocam integridade eleitoral no centro da campanha.

A pouco menos de três meses das eleições brasileiras, um exercício realizado nos Estados Unidos colocou em discussão os riscos de uma crise de confiança no processo eleitoral. Senadores democratas, especialistas em direito eleitoral e organizações de defesa da democracia participaram, em julho, de simulações destinadas a testar a capacidade de reação das instituições diante de tentativas de interferência nas eleições americanas. Entre os cenários estavam vídeos falsos produzidos por inteligência artificial, ameaças a funcionários eleitorais, presença de grupos armados perto de locais de votação e ações do governo federal contra estados responsáveis pela organização das eleições. A notícia foi divulgada pelo The Guardian esta semana.

O exercício não significa que esses fatos ocorrerão. Também não foi uma iniciativa institucional do Senado como um todo. Participaram senadores democratas como Chuck Schumer, Alex Padilla e Raphael Warnock, além de especialistas e representantes de organizações ligadas à proteção do processo democrático. A proposta foi trabalhar com situações extremas, identificar brechas legais e testar a capacidade de resposta das instituições.

A preocupação ganhou peso porque Donald Trump continua colocando em dúvida mecanismos eleitorais americanos e apoiando mudanças nas regras de votação. Nas simulações, os participantes trabalharam inclusive com hipóteses nas quais o governo federal tentaria pressionar estados por meio da retenção de recursos ou do envio de agentes federais para locais de votação. A situação tem características próprias nos Estados Unidos, onde a administração das eleições é descentralizada e depende, em grande parte, dos estados.

O episódio também interessa ao Brasil porque alguns dos métodos analisados nos Estados Unidos já fazem parte das preocupações das autoridades eleitorais brasileiras. Entre eles estão acusações contra o sistema de votação, circulação de conteúdos falsos e uso de imagens ou áudios manipulados para questionar a credibilidade do processo eleitoral. Os sistemas dos dois países, no entanto, são diferentes e os cenários simulados nos Estados Unidos não podem ser automaticamente transferidos para a realidade brasileira.

Relação com Washington entrou no debate eleitoral brasileiro

As relações entre Brasília e Washington atravessam uma fase de tensão quando o país se aproxima da eleição presidencial de outubro.

Em julho, o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam visitar o país. Autoridades brasileiras disseram à Reuters que interpretaram a viagem como uma possível tentativa de questionar a credibilidade do sistema eleitoral e influenciar o debate político. O Departamento de Estado rejeitou essa interpretação e afirmou que a visita teria como objetivo discutir democracia e direitos humanos.

A decisão levou a discussão sobre uma possível interferência externa para o campo diplomático. Até o momento, porém, não há comprovação pública de que a visita fizesse parte de uma operação do governo americano destinada a interferir na eleição brasileira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em junho, que Trump tem o direito de manifestar preferência política, mas não de interferir na eleição brasileira. A declaração ocorreu em meio à aproximação pública do presidente americano com o grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro e com o senador Flávio Bolsonaro, candidato ao Planalto em 2026.

A disputa se agravou com medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. Em julho, novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros entraram na campanha. Lula acusou integrantes da família Bolsonaro de terem trabalhado politicamente em favor das barreiras comerciais para atingir o governo brasileiro. Eles negaram a acusação. A Reuters registrou que a medida colocou a relação com Washington entre os temas da corrida presidencial brasileira.

No início de agosto, a crise avançou para o campo diplomático. Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após a negativa de vistos aos dois funcionários americanos e o impasse em torno da aprovação do nome indicado por Trump para comandar a embaixada dos Estados Unidos no Brasil. O governo brasileiro classificou a reação americana como politicamente motivada. Washington contestou essa versão.

Nenhum desses episódios, isoladamente, comprova uma operação organizada do governo americano para manipular a eleição brasileira. As decisões diplomáticas, comerciais e políticas tomadas em Washington, no entanto, passaram a fazer parte do debate da campanha presidencial no Brasil.

Inteligência artificial amplia os riscos

A inteligência artificial aparece entre as principais preocupações relacionadas à desinformação nas eleições dos dois países.

Nos Estados Unidos, os deepfakes estavam entre os riscos apresentados aos senadores durante as simulações. Um vídeo produzido artificialmente pode mostrar um candidato dizendo algo que nunca disse. Um áudio pode reproduzir a voz de uma autoridade eleitoral anunciando uma informação inexistente. Dependendo da velocidade de circulação, o conteúdo pode alcançar um grande número de pessoas antes de ser identificado como falso.

No Brasil, o uso desse tipo de tecnologia já chegou à campanha.

No fim de julho, um avatar produzido por inteligência artificial reproduziu a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro durante o lançamento da candidatura presidencial de seu filho, Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro está impedido de disputar a eleição, e o episódio abriu uma discussão sobre os limites do uso de imagens sintéticas de figuras políticas durante a campanha.

O Tribunal Superior Eleitoral mudou as regras para 2026 diante do avanço desse tipo de tecnologia.

A Resolução nº 23.755, aprovada em março, reforçou as normas sobre inteligência artificial na propaganda eleitoral. O TSE exige identificação de conteúdos produzidos ou modificados por IA e estabeleceu restrições para materiais capazes de criar fatos falsos ou descontextualizados com potencial de afetar a liberdade de escolha do eleitor ou a integridade da eleição.

O tribunal também adotou medidas específicas contra deepfakes. Em 6 de agosto, fechou um acordo de cooperação com a ElevenLabs, empresa especializada em inteligência artificial de voz, para tentar impedir a clonagem não autorizada das vozes de candidatos e autoridades eleitorais.

A velocidade de circulação desses conteúdos representa uma das dificuldades para a fiscalização. Uma falsificação pode ser distribuída por WhatsApp, Telegram, Instagram, TikTok, X e outras plataformas durante horas antes que sua origem seja verificada. Em períodos eleitorais, esse intervalo dificulta a resposta das autoridades e das próprias plataformas.

A preocupação brasileira não começou em 2026. Depois das eleições de 2022, o Carter Center registrou uma proliferação de redes sofisticadas de desinformação que atacavam candidatos e a credibilidade do sistema eleitoral. A contestação das urnas e da atuação da Justiça Eleitoral também fez parte dessa circulação de conteúdo.

Sistemas eleitorais são diferentes

Brasil e Estados Unidos adotam modelos diferentes de organização das eleições.

Nos Estados Unidos, a eleição é administrada por autoridades estaduais e locais. Por isso, conflitos entre a Casa Branca, governos estaduais, tribunais e funcionários eleitorais podem provocar impasses administrativos durante a votação e a apuração.

No Brasil, o processo é centralizado pela Justiça Eleitoral. O TSE estabelece regras nacionais, os Tribunais Regionais Eleitorais executam a eleição nos estados e o sistema eletrônico de votação segue procedimentos uniformes em todo o território nacional. O tribunal mantém ainda uma estrutura de auditoria, fiscalização e acompanhamento do processo.

Essa diferença altera os tipos de riscos institucionais enfrentados pelos dois países. Em ambos, porém, autoridades e organizações envolvidas com as eleições passaram a dedicar atenção à circulação de informações falsas destinadas a questionar a confiabilidade do processo eleitoral.

O Brasil enfrentou esse problema em 2022. Naquele ano, acusações sem provas contra as urnas eletrônicas e questionamentos sobre a atuação da Justiça Eleitoral circularam durante a campanha e depois do segundo turno.

A inteligência artificial acrescentou uma nova dimensão ao problema em 2026. Ferramentas disponíveis ao público permitem fabricar voz, imagem e movimento de pessoas reais com grau crescente de realismo. Isso ampliou a capacidade de produção de conteúdos falsos e tornou mais complexa sua identificação.

As simulações realizadas pelos senadores democratas americanos procuram antecipar situações desse tipo e avaliar a capacidade de resposta das instituições. No Brasil, o TSE adotou novas regras para inteligência artificial, ampliou as normas sobre deepfakes e estabeleceu mecanismos de cooperação com empresas de tecnologia.

Os exercícios realizados nos Estados Unidos não demonstram que haverá uma tentativa de interferência nas eleições americanas. Da mesma forma, as tensões entre Washington e Brasília não comprovam a existência de uma operação estrangeira destinada a interferir no resultado da eleição brasileira.

Os episódios registrados nos últimos meses mostram, porém, que política externa, inteligência artificial, desinformação e segurança do processo eleitoral passaram a ocupar simultaneamente o debate político nos dois países. No Brasil, esses temas chegam à campanha presidencial em um ambiente que ainda carrega os efeitos das contestações ao sistema eleitoral registradas em 2022.