Uma engrenagem de madeira e ferro fabricada em 1953, que por décadas limpou e separou grãos de café nas montanhas do Espírito Santo, agora ganha outro tipo de função no menor município capixaba. A peça é o coração da “Sala de Memórias – Máquina do Tempo”, espaço inaugurado nesta sexta-feira (7) pelo Armazém Multiverso no distrito de Patrimônio da Penha, em Divino de São Lourenço.
Conhecido carinhosamente na região como “Museu do Depois do Amanhã” — um contraste direto com o famoso Museu do Amanhã do Rio de Janeiro —, o local troca a alta tecnologia por saberes ancestrais, memórias da roça e vivências comunitárias. A proposta busca olhar para o futuro sem perder o vínculo com a tradição da Serra do Caparaó.
Do galpão abandonado ao acervo vivo
A trajetória do novo espaço começou bem antes da inauguração. Para erguer a sede própria do centro cultural, a equipe da Associação Permacultural Jacutinga do Caparaó, em conjunto com carpinteiros locais e moradores, resgatou e reconstruiu a estrutura de madeira de um antigo beneficiador de café que estava abandonado há mais de 40 anos na comunidade de Santa Marta.
Agora, restaurada e equipada com recursos audiovisuais e interativos, a máquina de 1953 serve de ponte para expor o acervo de mais de 50 idosos da região. São histórias gravadas, fotos antigos, documentos e objetos que contam como se vivia, colhia, celebrava e sobrevivia no interior capixaba ao longo das últimas décadas.
Programação movimenta festival no fim de semana
A inauguração da Sala de Memórias integra a programação do Festival de Inverno da vila, financiado pelo Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura) e pela Lei Aldir Blanc.
O evento começou ainda no fim de julho com uma residência artística que reuniu 14 criadores, entre artistas, pesquisadores e educadores de diversas linguagens. Os trabalhos produzidos nesse período ficam expostos durante todo o final de semana.
Neste sábado (8), o festival ocupa as ruas de Patrimônio da Penha a partir das 10h com um cortejo cultural até a praça principal. À tarde e à noite, o Armazém mantém portas abertas com feiras de artesanato, vivências culinárias tradicionais, visitas guiadas e apresentações musicais.
Referência cultural no interior
O Armazém Multiverso funciona desde 2018 e tem certificação oficial como Ponto de Cultura e Ponto de Memória. Localizado na rota da Estrada-Parque, o centro cultural abriga projetos contínuos de formação para jovens, sessões gratuitas de cinema, oficinas de arte e práticas de conservação ambiental.
Em uma região pressionada pelo turismo e pelas mudanças no campo, a nova atração busca garantir que o avanço do tempo não apague o conhecimento acumulado por quem construiu a história local.
