O cenário da segurança pública no Brasil trouxe um contraste incômodo em 2025. Os dados da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o país conseguiu reduzir as mortes violentas intencionais ao menor patamar registrado desde 2012. Por outro lado, a violência que acontece dentro de casa seguiu o caminho oposto. Enquanto os homicídios gerais caíram 8,2%, os feminicídios voltaram a subir e bateram recorde histórico, com 1.571 mulheres assassinadas por razões de gênero.
No quadro geral, o país contabilizou 40.775 mortes violentas em 2025, contra 44.127 no ano anterior. Isso representa uma taxa de 19,1 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. A queda na violência urbana reflete, entre outros fatores, a trégua momentânea ou acomodação de conflitos entre facções criminosas em diversas regiões.
O problema é que esse recuo do crime organizado nas ruas não se traduziu em proteção para as mulheres no ambiente doméstico. O aumento de 4% nos feminicídios mostra que o Estado enfrenta séria dificuldade para conter agressões familiares e fazer valer as medidas protetivas expedidas pelo Judiciário. Na prática, mais de quatro mulheres morreram por dia no ano passado vítimas desse tipo de crime. Pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública destacam que, quando a poeira das disputas territoriais baixa, a violência silenciosa dentro das casas continua cobra preço alto.
O levantamento também joga luz sobre as disparidades regionais do país. O Nordeste concentra todas as dez cidades com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de homicídios. A lista é liderada por Maranguape, no Ceará, com uma taxa de 100,3 mortes por 100 mil moradores, seguida por Eunápolis e Maracanaú.
A Bahia sobressai no mapa com metade dos municípios do ranking violento, incluindo cidades como Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro. Segundo os analistas do estudo, a explicação para essa concentração passa por rotas logísticas estratégicas. Municípios cortados por grandes rodovias ou próximos a portos tornam-se alvos centrais de disputas entre facções de alcance nacional para o escoamento de drogas.
Embora os números gerais indiquem um avanço importante no controle da letalidade nas ruas, a persistência dos assassinatos de mulheres e a forte pressão do crime sobre o Nordeste deixam claro que o desafio da segurança no Brasil está longe de uma solução simples.
