Registros audiovisuais considerados entre os mais antigos da cultura popular do Espírito Santo voltarão a ser exibidos ao público no próximo dia 8 de julho, em uma sessão especial no Cine Metrópolis, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória. A programação reúne filmes produzidos entre as décadas de 1940 e 1970, restaurados e digitalizados pelo Projeto Acervo Capixaba, iniciativa que vem recuperando parte da memória audiovisual do Estado. Entre os destaques estão “Alardo e Ticumbi” (1950) e “Festa de São Benedito” (1949), obras que preservam algumas das primeiras imagens em movimento conhecidas das manifestações folclóricas capixabas.
Os dois documentários permaneceram mais de 25 anos sem exibição pública até serem localizados junto à família do pesquisador e folclorista Guilherme Santos Neves, responsável por um dos mais importantes levantamentos sobre a cultura popular do Espírito Santo no século XX. Restaurados por laboratórios especializados no Rio de Janeiro, os filmes registram tradições como o Alardo de São Sebastião, o Ticumbi de Conceição da Barra e a Festa de São Benedito, na Serra, manifestações reconhecidas como referências da identidade cultural capixaba. Especialistas em preservação audiovisual destacam que a digitalização de acervos desse período é essencial para evitar a perda definitiva de materiais gravados em película, processo que vem sendo adotado por cinematecas e instituições culturais em diversas regiões do país.
A sessão também marcará o relançamento de obras do cineasta Antonio Carlos Neves, considerado um dos pioneiros do cinema produzido no Espírito Santo. Entre elas está o curta-metragem “Veia Partida”, premiado pela fotografia no Festival JB-Mesbla de 1968, além de trechos recuperados de produções realizadas durante o período em que o diretor estudou cinema na antiga União Soviética. Parte desses filmes chegou aos dias atuais de forma incompleta, reflexo das dificuldades históricas de preservação enfrentadas pelo cinema brasileiro, sobretudo fora dos grandes centros de produção.
Criado em 2017, o Projeto Acervo Capixaba já restaurou 15 obras de cineastas e pesquisadores ligados à história audiovisual do Estado. Além da recuperação digital, parte do material voltou a ser preservada em película de 16 milímetros, técnica utilizada por arquivos especializados para ampliar a longevidade dos registros originais. A iniciativa acompanha uma tendência observada em instituições como a Cinemateca Brasileira e outros centros de preservação, que têm intensificado ações para recuperar acervos ameaçados pelo tempo, pela deterioração física e pela falta de armazenamento adequado.
A programação será gratuita e inclui, além das exibições, um debate com pesquisadores e integrantes da equipe responsável pelo trabalho de restauração. A expectativa é ampliar o acesso do público a obras pouco conhecidas, mas consideradas fundamentais para compreender a formação da cultura popular e da produção cinematográfica capixaba, preservando um patrimônio que, por décadas, permaneceu distante das telas e do conhecimento das novas gerações.
