Em um momento carregado de simbolismo — e também de tensão diplomática — a Organização das Nações Unidas (ONU) deu um passo histórico ao reconhecer oficialmente a escravidão de africanos, durante o tráfico transatlântico, como “o mais grave crime contra a humanidade”.
A decisão foi aprovada pela Assembleia Geral com ampla maioria: 123 votos favoráveis. Mas não houve consenso. Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra. Outros 52 países se abstiveram, entre eles o Reino Unido e membros da União Europeia.
A resolução não tem força legal. Ainda assim, carrega um peso político considerável. E, sobretudo, um peso moral difícil de ignorar.
O texto foi proposto por Gana, um dos países mais marcados pela história do tráfico de pessoas escravizadas. Antes da votação, o presidente John Mahama fez um discurso que ecoou no plenário.
Ele falou em memória. Em dignidade. E em responsabilidade histórica.
“Quando a história nos chamou, fizemos o que era certo”, disse.
A fala não veio por acaso. Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 12 a 15 milhões de africanos foram capturados e enviados à força para as Américas. Mais de dois milhões morreram no trajeto, em condições desumanas. Os números são conhecidos — mas continuam difíceis de dimensionar.
O que a resolução faz, na prática, é dar nome e peso a essa tragédia.
E abrir uma nova frente de debate.
O texto incentiva países a considerarem pedidos formais de desculpas e a contribuírem para fundos de reparação. Não há valores definidos. Nem mecanismos claros. Mas a sinalização é forte.
O ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, foi direto ao ponto. Segundo ele, não se trata de benefício pessoal ou político.
“Estamos falando de justiça. De educação. De reconstrução histórica”, afirmou.
A proposta ganhou respaldo de blocos importantes, como a União Africana e a Comunidade do Caribe (Caricom), que há anos defendem o conceito de “justiça reparatória”. Em 2025, inclusive, o tema foi adotado oficialmente pela União Africana.
Mas nem todos concordam com o caminho.
Representantes de países europeus e dos Estados Unidos levantaram questionamentos jurídicos. Argumentam que não existe base legal internacional para responsabilizar, hoje, instituições por práticas que, à época, não eram formalmente ilegais sob o direito vigente.
O embaixador americano na ONU, Dan Negrea, foi além. Disse que a proposta pode abrir precedentes perigosos e gerar disputas sobre quem teria direito a reparações.
Já o Reino Unido, que teve papel central no tráfico transatlântico, reconheceu o sofrimento causado — mas rejeitou a ideia de hierarquizar tragédias históricas.
Nos bastidores, a discussão é ainda mais complexa.
Quem pagaria? Quem receberia? Como calcular séculos de exploração, perda cultural e desigualdade estrutural?
Não há respostas simples.
Mas há sinais claros de que o tema deixou de ser marginal.
A resolução também toca em outro ponto sensível: a devolução de artefatos culturais retirados da África durante o período colonial. Peças que hoje estão em museus europeus e que, para muitos países africanos, representam mais do que objetos — são fragmentos de identidade.
Em Gana, esse passado ainda está de pé. Literalmente.
Fortes como o de Elmina, que serviram como entrepostos de escravizados, continuam às margens do Atlântico. São monumentos silenciosos de uma história que insiste em não passar.
E talvez seja esse o ponto central de tudo.
A resolução da ONU não muda o passado. Nem resolve, por si só, as desigualdades herdadas dele.
Mas impede o esquecimento.
E, em tempos de disputas sobre memória histórica — como as recentes controvérsias nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump — isso não é pouco.
O debate está lançado. E, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.
