Órgãos de imprensa historicamente ligados ao campo conservador (direita e extrema direita) atua de forma orquestrada para viabilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ministros não são intocáveis, mas ataques à instituição STF e apelo a militares mostram que “lobos em pele de cordeiro” da imprensa atuam não em nome da democracia, mas de interesses corporativos.
Há algo que merece atenção no debate público brasileiro — e que ainda não foi dito com clareza suficiente.
Nos últimos meses, parte da grande imprensa passou por uma mudança de tom que não é casual. Veículos e comentaristas que, durante a crise de 2022 e 2023, se posicionaram como guardiões da democracia diante das ameaças do bolsonarismo passaram a dirigir críticas cada vez mais duras ao Supremo Tribunal Federal. A mesma instituição que, nos anos anteriores, havia funcionado como principal barreira jurídica e constitucional contra as tentativas de ruptura democrática.
Esse deslocamento narrativo não ocorre no vácuo. Ele coincide, ponto a ponto, com o início do ciclo eleitoral que vai desembocar nas eleições presidenciais de 2026 — e com a urgência, no campo conservador, de construir uma candidatura competitiva contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O Supremo como alvo
Para entender o fenômeno, é preciso lembrar o que o STF fez nos últimos anos.
Foi a Corte que enfrentou a escalada autoritária do governo Bolsonaro. Que abriu investigações sobre redes de desinformação e financiamento de atos antidemocráticos. Que julgou militares, políticos e articuladores envolvidos na tentativa de golpe que buscava impedir a posse de Lula — plano que, conforme indicaram as investigações da Polícia Federal, incluía até a morte do presidente eleito, do vice e a prisão de ministros do próprio tribunal. E que, no dia 8 de janeiro de 2023, depois que apoiadores do ex-presidente invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o próprio STF, tornou-se símbolo da resistência institucional.
Não surpreende, portanto, que o tribunal tenha se tornado alvo preferencial da extrema direita brasileira desde 2019. O que chama atenção agora é outro movimento: a amplificação desse discurso em setores tradicionais da mídia.
O que os editoriais dizem
Um exemplo emblemático vem do jornal O Estado de S. Paulo. Em diversos editoriais publicados a partir de 2025, o veículo passou a acusar o STF de ter se transformado em uma “arena política”, sugerindo que a Corte estaria extrapolando suas funções constitucionais. Em outro texto, decisões do ministro Alexandre de Moraes foram classificadas como “abusos intoleráveis” dentro do Estado de Direito — em referência a medidas adotadas nos processos contra Jair Bolsonaro. Um terceiro editorial afirmou que decisões do tribunal sobre regulação de plataformas digitais criariam “insegurança jurídica” e alterariam de forma indevida o Marco Civil da Internet. Em outro ainda, o jornal apontou uma suposta “queda de credibilidade” do Supremo diante da opinião pública.
Críticas a membros de cortes constitucionais são legítimas em qualquer democracia. Isso não está em disputa. O problema é quando essas críticas passam a produzir um efeito político específico: o enfraquecimento da legitimidade da principal instituição que funciona como freio constitucional contra aventuras autoritárias.
O que os colunistas dizem
A mudança de tom não aparece só em editoriais. Ela também ecoa nas análises de comentaristas influentes.
O jornalista Fernando Gabeira, veterano da política brasileira, chegou a afirmar em comentário televisivo que, diante das tensões envolvendo decisões do ministro Alexandre de Moraes, “talvez o Supremo devesse acabar”. A frase — mesmo que apresentada como provocação — reproduz quase literalmente palavras de ordem que manifestantes bolsonaristas repetem desde 2019.
Já Merval Pereira, comentarista do Grupo Globo e que já foi o chefão número um do jornalismo da empresa, tem reforçado sistematicamente a narrativa de que o STF exerce protagonismo político excessivo. Em análises recentes, afirmou que integrantes das Forças Armadas estariam pressionando o governo a explicar os rumos da Corte, demonstrando preocupação com seus julgamentos. Em outros momentos, questionou a postura pública de ministros, argumentando que deveriam preservar melhor a aparência institucional do tribunal.
Formalmente, são críticas institucionais. Na prática, elas alimentam uma narrativa que vai se tornando familiar — a mesma construída, peça por peça, pela direita radical ao longo de anos.
A construção de uma candidatura
Em paralelo ao cerco retórico ao STF, outra operação política tomou forma: a criação de uma candidatura viável no campo bolsonarista.
Com Jair Bolsonaro condenado por tentativa de golpe e inelegível até 2030, o nome escolhido para herdar esse capital político foi o do filho dele, o do senador Flávio Bolsonaro. A candidatura não surgiu de um processo político orgânico. Foi uma decisão direta do ex-presidente — uma candidatura de substituição dentro do mesmo movimento.
O crescimento do senador nas pesquisas foi abrupto. Em julho de 2025, ele aparecia com cerca de 37% em cenários de segundo turno, com Lula à frente com 51% contra 36% em dezembro do mesmo ano. Já este mês (março de 2026), um levantamento do Datafolha indicou Lula com 46% e Flávio com 43% — diferença dentro da margem de erro. Outros levantamentos mostram Lula liderando com 31,5% das intenções de voto contra 26,3% de Flávio em determinados cenários.
Essa dinâmica tem nome na ciência política: efeito de viabilidade. Quando pesquisas passam a apresentar determinado candidato como competitivo, parte do eleitorado disperso tende a migrar para ele — não necessariamente por convicção, mas porque passa a acreditar que ele tem chances reais de vencer.
O Brasil já viu esse mecanismo funcionar. Em 1989, Fernando Collor saltou de menos de 5% para a liderança da corrida presidencial após intensa exposição televisiva e a construção da narrativa do “caçador de marajás” em grande parte criada pela revista Veja e o grupo Globo. Em 2018, Jair Bolsonaro consolidou sua candidatura depois de meses de visibilidade permanente nas redes sociais e na cobertura política nacional. Nos dois casos, a candidatura se consolidou antes mesmo de a estrutura partidária estar formada — exatamente o que começa a acontecer agora com Flávio Bolsonaro.
Além da cobertura midiática, estudos acadêmicos sobre eleições brasileiras identificaram o uso massivo de redes automatizadas para amplificar mensagens políticas. Centenas de milhões de mensagens foram analisadas nas eleições de 2018, revelando o uso intensivo de bots para criar a impressão de consenso social e simular crescimento de apoio. Esses sistemas atuam como multiplicadores artificiais de popularidade.
O silêncio que também diz algo
Outro elemento revela muito sobre essa conjuntura: o que a grande imprensa não critica.
O chamado Centrão — bloco parlamentar que controla parcelas gigantescas do orçamento federal e condiciona a governabilidade de qualquer presidente — raramente recebe a mesma intensidade de ataques que o STF. O corporativismo do Legislativo, a lógica fisiológica que domina o Congresso, as emendas parlamentares bilionárias: temas que atravessam qualquer governo, de esquerda ou de direita, aparecem com frequência muito menor nos editoriais e análises que hoje miram o Supremo.
Veja o caso do banco Master. Para a grande imprensa não é mais um escândalo financeiro, mas uma crise do STF. Não importa que um preso, membro importante do esquema de espionagem do grupo Master, tenha morrido sob a custódia da Polícia Federal; que haja inúmeros políticos do Centrão em relacionamentos suspeitos com Daniel Vorcaro, inclusive com apresentações de projetos para beneficiar os esquemas espúrios de atuação do banco; que o ex-presidente do Banco Central e diretores da instituição não tenham investigado durante anos a atuação do Master, mas, ao contrário, atuado para facilitar os esquemas de corrupção. Tudo isso, agora é segundo plano: o que importa e emparedar o STF, através de questionamentos aos ministros Moraes e Tófoli. Não que eles não devam explicações, devem. Mas e os demais?
Esse calculado desvio de foco cria uma cortina de fumaça e esconde os reais interesses. E essa atuação da imprensa não é nova; tem história.
Um roteiro que o Brasil já conhece
Em 1964, importantes jornais brasileiros apoiaram a derrubada do presidente João Goulart — sob o argumento de defender a democracia. O resultado foi um golpe militar e uma ditadura que durou 21 anos. Décadas depois, alguns desses veículos reconheceriam o erro histórico.
Ninguém defende abertamente tanques nas ruas em 2026. São sutis. O método agora é outro, mais sofisticado: enfraquecer gradualmente a legitimidade das instituições que funcionam como barreiras ao autoritarismo. Golpes raramente começam com confrontos. Eles começam quando instituições passam a ser sistematicamente desacreditadas — quando a confiança pública nelas é corroída até o ponto em que sua proteção deixa de ser vista como necessária.
No Brasil contemporâneo, a instituição que mais incomoda projetos autoritários é o STF. E a pergunta que o momento exige é direta: quem ganha quando a legitimidade da última instância da Constituição começa a ser corroída?
A disputa que está por vir
A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral. Será também uma disputa institucional.
De um lado, o campo democrático que reemergiu após a derrota do bolsonarismo. Do outro, um movimento político que tenta reconstruir sua viabilidade enquanto busca enfraquecer as instituições que impediram sua permanência no poder.
O STF é a bola da vez, mas o objetivo é impedir a reeleição de Lula. Um líder de esquerda cercado pelo “escudo das américas“, de Trump e da extrema-direita mundial. Não à toa, Eduardo Bolsonaro (irmão de Flávio) e Paulo Figueiredo (neto do general Figueiredo, um dos “presidentes” da fase ditatorial recente), dois articuladores contra a soberania brasileira, que atuam nos Estados Unidos, voltaram a aparecer nesses primeiros dias de março.
Nesse cenário, o papel da imprensa se torna decisivo. Em democracias saudáveis, jornalismo fiscaliza o poder — todos os poderes. O problema surge quando parte da mídia passa a reproduzir narrativas que fragilizam instituições democráticas justamente no momento em que essas instituições são mais necessárias.
O verdadeiro teste para a democracia brasileira não será apenas nas urnas. Será na capacidade de imprensa, Congresso, Judiciário e sociedade civil de preservar os princípios constitucionais diante das pressões que inevitavelmente acompanharão a disputa pelo poder em 2026 e nos anos seguintes.
