A aposta arriscada de Zelensky ao oferecer apoio aos EUA no confronto com o Irã

Imagem: Gemini AI

A guerra iniciada pela invasão da Rússia à Ucrânia em 2022 transformou o país em um dos principais laboratórios de guerra moderna do mundo. Agora, mais de quatro anos depois do início do conflito, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy faz uma nova aposta estratégica que pode ampliar o papel internacional de Kiev — e também gerar controvérsias.

Em meio à escalada militar no Oriente Médio, Zelensky afirmou que os Estados Unidos solicitaram ajuda da Ucrânia para enfrentar ataques de drones ligados ao Irã. Segundo o presidente, Kiev estaria disposta a compartilhar tecnologia, especialistas militares e experiência adquirida ao longo da guerra contra Moscou.

A declaração revela uma inversão simbólica no conflito global. Durante anos, a Ucrânia pediu armas e assistência militar ao Ocidente para resistir à ofensiva russa. Agora, diante da experiência acumulada no combate a drones de origem iraniana utilizados pela Rússia, é Washington quem busca apoio técnico de Kiev.

O presidente americano Donald Trump afirmou que aceitaria ajuda de qualquer país no esforço para conter ataques de drones na região. A Ucrânia, segundo analistas militares, tornou-se uma das forças mais experientes do mundo nesse tipo de combate.

Desde o início da guerra, cidades ucranianas têm sido alvo de milhares de drones kamikaze do modelo Shahed, fabricados originalmente no Irã e adaptados pela indústria militar russa. Essas aeronaves não tripuladas, relativamente baratas, são utilizadas para atacar infraestrutura energética, instalações militares e áreas urbanas.

Diante dessa ameaça constante, o exército ucraniano desenvolveu uma série de soluções de baixo custo para interceptar drones inimigos.

Entre os equipamentos que podem ser enviados ao Oriente Médio estão drones interceptores desenvolvidos para destruir ou desviar drones inimigos durante o voo. Diferentemente dos sistemas tradicionais de defesa aérea, esses equipamentos têm custo muito menor e podem ser utilizados em grande escala.

Além disso, Kiev pode fornecer sistemas de guerra eletrônica capazes de interferir nos sinais de navegação dos drones, fazendo com que percam o controle ou caiam antes de atingir o alvo.

Outro ponto importante da cooperação seria o envio de especialistas militares e instrutores. Segundo o governo ucraniano, equipes de técnicos e operadores poderiam ajudar forças americanas e aliados no Golfo a desenvolver táticas de defesa contra ataques em massa de drones.

Essa transferência de conhecimento inclui métodos de detecção de enxames de drones, uso de drones FPV interceptores e integração de radares improvisados com sistemas de defesa aérea.

Para o governo ucraniano, no entanto, a ajuda não seria gratuita. Zelensky deixou claro que qualquer cooperação deve resultar em ganhos concretos para a Ucrânia.

O principal objetivo de Kiev é garantir mais interceptores para o sistema de defesa aérea MIM‑104 Patriot, considerado essencial para proteger cidades ucranianas contra mísseis balísticos russos.

Segundo o presidente ucraniano, centenas desses mísseis já foram utilizados recentemente no Oriente Médio, número superior ao que a Ucrânia recebeu em vários momentos da guerra.

Risco de perda de apoio

A proposta, portanto, é transformar a experiência militar acumulada no conflito contra a Rússia em uma moeda diplomática: drones interceptores e conhecimento técnico em troca de mais mísseis Patriot.

Apesar do cálculo estratégico, a iniciativa envolve riscos políticos. Desde o início da guerra, a Ucrânia conquistou forte apoio internacional com a narrativa de um país menor lutando contra a invasão de uma potência militar muito maior.

Um envolvimento mais direto em uma nova crise internacional pode tornar essa narrativa mais complexa, especialmente entre países do chamado Sul Global, que já mantêm uma postura mais cautelosa em relação ao conflito europeu.

Analistas também apontam que a Rússia pode explorar politicamente a decisão, reforçando a narrativa de que Kiev atua como aliado militar direto do Ocidente em disputas globais.

Ao mesmo tempo, a escalada no Oriente Médio também gera preocupação em Kiev por outro motivo: o risco de que a atenção e os recursos militares do Ocidente sejam desviados da guerra na Ucrânia.

O novo conflito começou no fim de fevereiro de 2026, quando forças dos Estados Unidos e de Israel lançaram uma série de ataques contra instalações militares e estratégicas no Irã.

A ofensiva desencadeou uma rápida escalada militar. Em resposta, o Irã lançou mísseis e drones contra bases militares americanas e contra alvos de aliados dos Estados Unidos no Golfo.

Os primeiros dias do conflito foram marcados por ataques intensos. Autoridades americanas afirmaram que milhares de alvos militares iranianos foram atingidos durante a primeira semana de operações, incluindo instalações ligadas ao programa nuclear do país.

A escalada também provocou tensão no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do planeta, responsável por cerca de um quinto do petróleo comercializado por via marítima no mundo. O preço do petróleo disparou e já passa dos US$ 100.

O aumento da instabilidade na região já afeta os mercados internacionais de energia e eleva os temores de uma crise global mais ampla.

A guerra da Ucrânia continua

Enquanto isso, a guerra entre Ucrânia e Rússia continua sem solução próxima.

Após mais de quatro anos de conflito, grande parte da linha de frente permanece concentrada no leste e no sul da Ucrânia, com avanços territoriais limitados de ambos os lados.

O conflito entrou em uma fase de desgaste prolongado, marcada por ataques constantes de artilharia, mísseis e drones.

Ao mesmo tempo, a guerra acelerou uma transformação na forma de combater. O uso massivo de drones, sistemas de guerra eletrônica e armas de precisão tornou o conflito um dos principais exemplos de guerra tecnológica do século XXI.

Nesse cenário, Zelensky parece apostar que a experiência adquirida pelo país pode fortalecer o peso estratégico da Ucrânia no cenário internacional.

A oferta de ajuda aos Estados Unidos no confronto com o Irã sinaliza que Kiev busca deixar de ser apenas um país dependente de apoio militar externo e passar a atuar também como fornecedor de conhecimento e tecnologia militar.

A estratégia, porém, envolve riscos diplomáticos e políticos significativos.

Em tempos de guerra prolongada, decisões como essa podem redefinir alianças, influenciar a percepção internacional do conflito e, em alguns casos, alterar o próprio rumo da guerra.