Carnaval, Lula e a grande imprensa: quando a Sapucaí traz à tona velhas contradições

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Na noite de 15 de fevereiro de 2026, a escola de samba Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles do Grupo Especial no Carnaval do Rio de Janeiro com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, homenagem explícita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda em exercício e pré-candidato à reeleição.

A narrativa do samba-enredo percorreu a trajetória pessoal e política de Lula — da infância pobre no Nordeste até o Palácio do Planalto — com alegorias, cenas históricas e até críticas veladas a adversários.

O evento, que mobilizou milhares de foliões e músicos por cerca de 80 minutos, transformou uma das maiores festas populares do mundo em palco de intensa disputa política: enquanto apoiadores celebram a força simbólica, opositores denunciam propaganda eleitoral antecipada em plena fase pré-campanha.

Repercussão política e debate jurídico: entre liberdade de expressão e leis eleitorais

A homenagem rapidamente se traduziu em confrontos nos tribunais e nas redes. Partidos de oposição moveram ações para impedir o desfile ou questionar o uso de símbolos e referências ao presidente em ano eleitoral — alegando que a exaltação pública de uma figura viva e ainda no cargo poderia configurar propaganda eleitoral antecipada.

Uma ação popular chegou à Justiça Federal, pedindo liminar para vedar qualquer uso de nome, imagem ou símbolo do presidente no samba-enredo, sob pena de multa de R$ 5 milhões. O pedido foi rejeitado pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), que entendeu que proibir o desfile antes de sua realização representaria censura prévia e violaria a liberdade de expressão cultural.

Especialistas eleitorais ouvidos por portais indicam que a decisão não significa que o desfile está automaticamente livre de questionamentos jurídicos. A Justiça Eleitoral deixou claro que poderá analisar atos concretos durante ou após a apresentação que violem a legislação eleitoral, incluindo uso de verbas públicas, propagação de mensagens de campanha e gestos simbólicos.

Nos dias que antecederam o desfile, o próprio Partido dos Trabalhadores (PT) orientou seus militantes a evitar manifestações eleitorais explícitas — como slogans, uso do número 13 ou gestos de campanha — justamente para não dar margem a acusações formais de abuso de poder político.

As redes sociais fervilharam: enquanto apoiadores elogiaram a homenagem como expressão cultural e resistência popular, críticos apontaram que o momento e o contexto eletivo tornam a homenagem problemático e até potencialmente ilícita, independentemente da história do personagem.

Reações da mídia e a ‘neutralidade’ da TV Globo

A transmissão da primeira escola de samba da noite pelos principais canais nacionais acabou entrando no centro da polêmica.

A TV Globo foi alvo de duras críticas nas redes por supostamente “esconder” o início do desfile no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, exibindo imagens tardias ou comentários em estúdio em vez de mostrar o começo da performance — exatamente quando os carros alegóricos e a comissão de frente se organizavam na avenida.

Internautas reclamaram que a emissora demorou a exibir a escola que homenageava Lula, cortou partes com críticas a Michel Temer e a Jair Bolsonaro, e até teria silenciado passagens essenciais da apresentação.

Reportagens especializadas revelaram que a Globo planejou uma diretriz interna de neutralidade editorial para a transmissão, evitando comentários empolgados ou análises políticas durante o desfile em que o enredo era político por natureza — algo que não foi exigido para outras escolas.

Esse tipo de protocolo — e a percepção de que a grande mídia estaria “controlando a narrativa” — reacende o debate público sobre parcialidade e selecionar o que é mostrado ao público, justamente num evento cultural que alcança milhões de lares no Brasil e no exterior.

Carnaval e política: uma tradição de discurso, sátira e crítica

O Carnaval carioca sempre foi um espaço de crítica social e política desde seus primórdios. Alegorias, letras de samba e carros críticos já satirizaram governos e personalidades diversas ao longo das décadas.

Exemplos históricos incluem representações caricatas de presidentes e figuras públicas — como a infância do uso de elementos políticos nos desfiles na década de 1990 e no início dos anos 2000 — que tornaram o Carnaval uma arena de expressão popular e contestação.

Por mais que a história de Lula seja um tema legítimo de memória e narrativas sociais, a escolha do enredo em ano eleitoral, com a presença do próprio homenageado na Sapucaí e com financiamento público indireto, colocou o Carnaval no epicentro de uma disputa que vai além das quatro linhas da avenida.

Mídia, poder e democracia: um espelho histórico

A crítica à cobertura da Globo e da grande imprensa em geral é marcada por uma longa memória da relação entre veículos de comunicação e o poder político no Brasil. Durante a ditadura militar (1964–1985), grandes jornais e redes televisivas muitas vezes suavizaram críticas ao regime, optando por uma cobertura que preservava seu acesso a fontes oficiais e sua posição dominante no mercado editorial — um tipo de “pacto tácito” com o poder que só foi incomodado de forma mais firme com a redemocratização. — contexto histórico da mídia no Brasil

Na democracia contemporânea, esse histórico reverbera nas críticas de que grupos de mídia, ao se apresentarem como guardiões da pluralidade, ainda adotam estratégias editoriais que moldam narrativas conforme interesses institucionais ou percepções de público e de mercado.

A polêmica sobre como mostrar ou omitir partes de um desfile, por mais festivo e cultural que seja, entra nessa lógica: qual é o papel da grande imprensa num país polarizado? Informar com pluralidade ou editorializar o espetáculo cultural para evitar riscos legais e políticos?

A sapucaí como termômetro do debate nacional

O desfile da Acadêmicos de Niterói deixou explícito um fato que poucos conseguem negar: o Carnaval continua sendo um espelho do Brasil — cultural, político e midiático.

A homenagem a Lula ampliou o debate sobre os limites entre cultura e propaganda eleitoral, incentivou confrontos legais e políticos, e marcou de forma clara como a grande mídia — especialmente a TV Globo — lida com narrativas que não apenas entretêm, mas que também questionam, dividem e mobilizam milhões de cidadãos.

No fim das contas, ao expor contradições entre tradição cultural e regras eleitorais, além de reacender debates sobre parcialidade e poder midiático, o desfile foi mais do que um espetáculo: foi um termômetro da saúde democrática e da confiança nas instituições de mediação de informação no Brasil.