Investigação revela que armas de alto calor deixaram quase 3 000 palestinos “evaporados” em Gaza; acusações, negações e chamado à justiça internacional.
Uma apuração internacional aponta o uso de munições térmicas e termobáricas em bombardeios no território palestino — dezenas de famílias não encontraram restos mortais de entes queridos. Organismos humanitários e especialistas denunciam possível crime de guerra.
No coração de Gaza, entre escombros e silêncio, milhares carregam uma dor que desafia explicação. Famílias buscam restos que não existem. Pessoas simplesmente desapareceram. Segundo uma investigação jornalística da rede Al Jazeera Arabic, apoiada por equipes da Defesa Civil de Gaza, cerca de 2 842 palestinos foram classificados como “evaporados” desde o início da guerra entre Israel e Hamas, em outubro de 2023 — sem deixar vestígios além de respingos de sangue ou fragmentos biológicos.
A denúncia, publicada em fevereiro de 2026, atribui esses desaparecimentos ao uso de armas térmicas e termobáricas de fabricação estadunidense, capazes de gerar temperaturas acima de 3 500 °C. Essas munições podem incinerar corpos de maneira tão intensa que não resta praticamente nada para sepultamento ou identificação tradicional.
O que diz a investigação
De acordo com a apuração, equipes forenses palestinas confrontaram o número de moradores conhecidos em uma casa antes de um ataque com o número de cadáveres recuperados depois. Onde faltar um corpo inteiro, restaram apenas manchas de sangue ou pequenos fragmentos de tecido.
Especialistas consultados na investigação explicam que armas termobáricas, às vezes chamadas de “bombas de vácuo” ou “aerossol”, dispersam uma nuvem de combustível que se inflama, criando uma enorme bola de fogo e um vácuo posterior. A pressão extrema e o calor quase instantâneo podem transformar tecidos humanos em cinzas.
Entre os armamentos mencionados estão:
- MK-84 “Hammer”, uma bomba de 900 kg com alto poder explosivo;
- BLU-109, projetada para penetrar estruturas antes de detonar;
- GBU-39, uma bomba guiada que destrói alvos internos com grande precisão.
Essas munições, fabricadas ou com componentes fornecidos pelos Estados Unidos, são parte do arsenal consistente utilizado pelas forças israelenses na campanha militar em Gaza.
Acusações de crimes de guerra e impasse internacional
Organizações de direitos humanos e juristas especializados em direito internacional classificam o possível uso desses armamentos contra civis como violação do direito humanitário e potencial crime de guerra. Para o professor de Direito Internacional da USP, Paulo Borba Casella, a alegação é grave, mas enfrenta obstáculos por conta da falta de transparência e controle sobre as operações militares e da dificuldade de acesso de equipes independentes aos locais dos ataques.
Críticos internacionais também apontam a responsabilidade de Estados fornecedores de armamentos que podem não distinguir combatentes de civis — um princípio básico do direito humanitário. A especialista Diana Buttu, da Universidade de Georgetown, afirmou que a cadeia de suprimentos dessas munições implica seus fornecedores em quaisquer possíveis crimes decorrentes de seu uso.
A denúncia acontece em um contexto de escalada de mortes em Gaza, onde, mesmo após tentativas de cessar-fogo, confrontos e bloqueios continuam a causar sofrimento à população civil, incluindo riscos elevados de fome e falta de assistência humanitária.
Israel nega e acusações se espalham
Representantes do governo israelense, segundo reportagens internacionais, negam o uso dessas armas ou classificam as alegações como desinformação propagada por grupos hostis. Até o momento, não há comunicação oficial detalhada das Forças de Defesa de Israel sobre os resultados ou conclusões da investigação publicada pela Al Jazeera.
No entanto, as próprias evidências forenses coletadas por equipes locais e o testemunho de famílias tornam o caso um dos episódios mais perturbadores da guerra em Gaza, intensificando o debate sobre responsabilização internacional e acesso irrestrito de organizações humanitárias em zonas de conflito.
