Um alerta sobre a vida

Foto de Donald Tong: https://www.pexels.com

Se eu soubesse que morreria amanhã, o que faria nesse meu último dia sobre a Terra? Esse pensamento me atravessou como um raio em céu limpo. Não houve aviso, nem trilha sonora dramática. Apenas a pergunta, seca e absoluta. E o que mais me espantou não foi a morte em si — foi o vazio da minha lista.

Pensei no que qualquer pessoa pensaria: visitar meu pai, falar com meus irmãos, conversar com meus filhos, ver meus netos, fazer amor com minha esposa; reencontrar velhos amigos, talvez telefonar para antigos amores e rir de um passado que já não dói. Tudo isso me pareceu bonito, necessário, humano. Mas percebi, com um desconforto difícil de explicar, que eram gestos voltados aos outros. Eram despedidas. E despedidas são atos de amor — mas também são atos sociais. São pontes que construímos para não partir em silêncio.

E eu? Onde estava o gesto exclusivamente meu? O desejo secreto, o ato inadiável, a pequena ousadia guardada na gaveta da alma?

Procurei com esforço. Revirei memórias como quem busca um documento perdido. Havia sonhos antigos: viajar sem roteiro, acordar numa cidade desconhecida e simplesmente caminhar. Havia também vontades menos nobres, mas igualmente sinceras: pedir desculpas a mim mesmo, abandonar certas máscaras, parar de fingir que não me importo. Mas nenhuma dessas coisas surgiu com a urgência de quem grita: “é agora ou nunca”.

Talvez isso revele algo desconcertante. Talvez eu tenha vivido mais para corresponder do que para existir. Fui filho, irmão, marido, pai, profissional. Cumpri papéis com alguma dignidade. Mas quando a pergunta foi dirigida ao “eu” nu, sem títulos e relações, houve silêncio.

Será que não tenho um grande desejo porque já me acomodei? Ou será que meu grande sonho já tenha se realizado? Quis ter uma emissora de TV só minha e tive. Mas ele não durou. Será que a dor de realizar um sonho e perdê-lo me castrou e eu decidi não sonhar mais?

Ou será o contrário: ter tantos desejos não realizados que meu coração desistiu de escolher apenas um? Sonhos que esvoaçaram na inação, como papéis soltos numa ventania que nunca se transformou em vôo. Idéias que anotei em guardanapos, projetos que começaram na empolgação de uma segunda-feira e morreram na quinta. Pequenas covardias diárias, travestidas de prudência.

Há um tipo de morte que acontece antes da morte. Ela é discreta, educada. Não fecha portas com estrondo. Apenas adia. “Depois eu faço.” “Quando tiver tempo.” “Quando as coisas melhorarem.” E assim vamos acumulando versões de nós mesmos que nunca chegam a existir. Vamos vivendo como quem ensaia permanentemente para uma estréia que não tem data.

Houve um momento específico em que decidi — ou foi decidido por mim — que ser essencial para os outros bastaria para me sentir essencial?

Não estou reclamando. Os afetos são reais, profundos, urgentes. Meu pai, que agora anda mais devagar, merece essa visita, assim como meus irmãos. Minha esposa, que conhece minhas manias e ainda assim dorme ao meu lado, merece esse último abraço. Meus filhos, que carregam pedaços de mim mesmo sem saber, merecem ouvir o que nunca disse com clareza. Os amigos que cultivei com carinho; os amores que eu vivi; todos merecem o meu último olhar. Isso é cristalino.

Mas, viver sem viver é uma arte sutil e perigosa. A gente se torna um excelente coadjuvante na vida dos outros — um bom pai, um avô carinhoso, um marido presente — enquanto o protagonista da própria história definha nos bastidores, sem roteiro e sem falas. A falta de um desejo urgente para o dia final denuncia que eu não me conheço; eu apenas me ocupo.

Talvez o mais perturbador não seja não ter algo essencial para fazer no último dia. Talvez seja perceber que eu deveria estar fazendo algo essencial hoje — não porque vou morrer amanhã, mas porque estou vivo agora.

E se a pergunta estiver errada? Em vez de “o que eu faria se morresse amanhã?”, talvez a pergunta seja: “por que não estou fazendo agora aquilo que me faria sentir inteiro?”

Talvez o problema não seja a ausência de um grande gesto final. Talvez a vida não peça fogos de artifício na despedida. Talvez peça apenas presença. Atenção. Coragem pequena e diária.

Se eu morresse amanhã, eu iria abraçar os meus. Sim. Iria dizer o que ficou por dizer. Mas hoje, que ainda não sei o dia da minha partida, talvez eu devesse começar algo só meu. Não para deixar legado, não para impressionar ninguém — mas para me reconhecer.

Porque o mais assustador não é a morte. É passar pela vida como visitante de si mesmo. E talvez ainda haja tempo de voltar para casa.