Choque em Buenos Aires: protestos contra reforma trabalhista descambam em violência com coquetéis molotov e confrontos com a polícia

O coração político da Argentina voltou a ser palco de confrontos intensos e cenas de grande tensão social. Na tarde desta quarta-feira (11), milhares de trabalhadores, sindicalistas e manifestantes se reuniram em frente ao Congresso Nacional em Buenos Aires para protestar contra uma proposta de reforma trabalhista impulsionada pelo presidente Javier Milei. O que começou como uma mobilização contrária às mudanças nas leis de trabalho terminou em choques violentos com forças de segurança, coquetéis molotov sendo preparados e arremessados, e um cenário que lembra dias de grande agitação nas ruas da capital argentina.

O protesto foi convocado principalmente pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e outras organizações sindicais que consideram a reforma uma ameaça direta aos direitos básicos dos trabalhadores. Enquanto o Senado debatia o projeto, que busca flexibilizar regras trabalhistas rígidas e facilitar contratações e demissões, a praça diante do Congresso se transformou em um palco de confrontos.

Dia de tensão: de marcha pacífica a confronto aberto

Desde o início da tarde, o fluxo de manifestantes bloqueou vias importantes ao redor da Plaza del Congreso e da avenida Rivadavia. Em certo momento, o tom da mobilização passou de pacífico para hostil, com grupos mais radicais erguendo barricadas e preparando coquetéis molotov no meio da rua. Em seguida, esses artefatos e pedras foram lançados contra as forças policiais, em uma clara escalada do confronto.

Do outro lado, as forças de segurança responderam com canhões de água, tiros de balas de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta, numa tentativa de dispersar a multidão e isolar os grupos que promoviam atos mais violentos. Vídeos e fotos publicadas por agências internacionais mostram cenas dramáticas de manifestantes correndo sob nuvens de gás, jatos d’água varrendo as ruas e policiais avançando com escudos erguidos em linha de contenção.

Feridos, detidos e ambiente de crise

Fontes oficiais e veículos de imprensa relatam que pelo menos dois manifestantes foram detidos durante os confrontos e vários agentes da segurança ficaram feridos — entre eles integrantes da Gendarmeria e da Polícia Federal — em meio à confusão. Além disso, houve registros de danos ao patrimônio público e tumultos que se estenderam por horas no centro de Buenos Aires.

A ministra da Segurança Argentina, Alejandra Monteoliva, condenou os atos violentos e afirmou que “os responsáveis serão identificados e responderão judicialmente”, ao mesmo tempo em que reforçou a necessidade de uma manifestação pacífica.

O que está em jogo na reforma trabalhista

A reforma em debate no Congresso é parte da ampla agenda econômica do presidente Javier Milei, um líder libertário cuja gestão tem sido marcada por medidas de choque voltadas para a redução de regulação estatal e dinamização do mercado. O projeto busca facilitar contratos e demissões, reduzir a litigiosidade trabalhista e decentralizar negociações coletivas, posições defendidas pelo governo como essenciais para atrair investimentos e reduzir a alta informalidade do emprego no país.

Do lado contrário, sindicatos e opositores veem a proposta como um ataque frontal aos direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores argentinos. Entre as críticas principais estão a eliminação de indenizações rígidas por demissão, a extensão de jornadas de trabalho, a restrição do direito de greve em setores considerados essenciais e a diminuição do peso dos acordos coletivos.

Uma sociedade em conflito profundo

O episódio desta semana não é um caso isolado de agitação social na Argentina. Tensionamentos semelhantes ocorreram em 2024 e 2025, quando protestos contra reformas econômicas e sociais geraram confrontos generalizados com a polícia, evidenciando um país dividido entre políticas de austeridade e defesa dos direitos sociais.

Para analistas políticos, as cenas em frente ao Congresso argentino são um reflexo de um país que vive um momento de profunda polarização. Enquanto o governo tenta empurrar reformas consideradas essenciais para o ajuste econômico, a oposição e a sociedade civil respondem com mobilizações cada vez mais contundentes.