Sanções, bloqueios e o limite moral da política: quando a pressão econômica se torna punição coletiva.
A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, anunciou que seu governo continuará enviando ajuda humanitária, incluindo alimentos e itens básicos, à Cuba, em meio à grave escassez de petróleo e de energia que afeta serviços e atividades essenciais na ilha caribenha. Sheinbaum classificou como “muito injustas” as sanções e ameaças de tarifas dos Estados Unidos contra países que vendem petróleo a Cuba e afirmou que divergências políticas não podem justificar o sofrimento imposto à população cubana, reforçando o compromisso mexicano com apoio direto à população enquanto negocia alternativas diplomáticas para retomar o fornecimento de combustível sem represálias.
Humano x Humanidade
Existe uma diferença entre estratégia política e responsabilidade humana. Estados operam segundo interesses, correlações de força e cálculos geopolíticos. Mas existe um limite ético que antecede qualquer ideologia: ser humano significa não adotar medidas que corroam as condições mínimas da própria humanidade. Quando uma política externa produz, de forma previsível e prolongada, sofrimento coletivo, ela ultrapassa o campo técnico e entra no campo moral.
A crise energética vivida por Cuba hoje não é abstrata. É concreta, mensurável e cotidiana.
Cuba: dados de uma crise energética estrutural
Cuba depende historicamente de importações para suprir sua demanda energética. O país consome cerca de 100 a 110 mil barris de petróleo por dia, enquanto sua produção interna cobre menos da metade disso. Nos últimos anos, especialmente após o endurecimento das sanções norte-americanas e a redução do envio de petróleo venezuelano, as importações despencaram.
Relatórios recentes indicam queda superior a 30% no volume de petróleo importado em comparação com anos anteriores. O resultado direto:
- Apagões prolongados em diversas províncias;
- Paralisação parcial da indústria;
- Racionamento de transporte público;
- Impacto em hospitais e serviços essenciais;
- Agravamento da crise alimentar, já pressionada por inflação e escassez de insumos.
A ONU vem alertando para o risco de agravamento humanitário caso o fornecimento energético não seja estabilizado. O embargo norte-americano, vigente há mais de seis décadas e reforçado por sanções secundárias — que penalizam empresas e países que comercializam com Cuba — restringe significativamente o acesso da ilha a combustíveis e ao sistema financeiro internacional.
Washington sustenta que as sanções miram o governo cubano e incluem exceções humanitárias. No entanto, na prática, bancos, seguradoras e fornecedores evitam transações por medo de punições, criando um efeito de bloqueio indireto que atinge toda a economia.
O efeito não é teórico. Ele se traduz em menos luz, menos transporte, menos alimentos.
Gaza e Cisjordânia: restrição de bens como instrumento político
Em paralelo, organizações internacionais documentam há anos que restrições impostas por Israel à circulação de bens, energia e pessoas na Faixa de Gaza impactam diretamente a população civil. Após os ataques de 7 de outubro de 2023, o bloqueio foi intensificado, incluindo cortes de eletricidade e restrições severas a combustível e ajuda humanitária.
Segundo dados das Nações Unidas:
- Sistemas de abastecimento de água e esgoto colapsaram parcialmente por falta de energia;
- Hospitais operaram com geradores limitados;
- A insegurança alimentar atingiu níveis críticos;
- Milhões de civis passaram a depender exclusivamente de ajuda humanitária.
Israel argumenta que as medidas são necessárias por razões de segurança e para enfraquecer o Hamas. No entanto, relatórios de agências humanitárias classificam o impacto sobre civis como devastador e desproporcional.
A lógica da punição coletiva
Em ambos os casos — Cuba e territórios palestinos — o argumento oficial é semelhante: pressionar governos ou grupos considerados hostis para provocar mudança política ou garantir segurança.
O problema ético emerge quando a consequência previsível dessa estratégia é o sofrimento generalizado de civis que não têm controle sobre decisões estatais.
O direito internacional humanitário proíbe punição coletiva. Sanções econômicas amplas não são automaticamente ilegais, mas quando produzem:
- Falta de energia para hospitais,
- Deterioração alimentar,
- Colapso de infraestrutura básica,
- Êxodo migratório forçado,
elas deixam de ser apenas ferramenta diplomática e passam a ter características de coerção estrutural sobre populações inteiras.
A contradição fundamental
Se aceitarmos que “ser humano” implica preservar as condições mínimas da vida coletiva — acesso à água, energia, alimento, saúde — então políticas que corroem sistematicamente essas bases entram em contradição com esse princípio.
Não se trata de defender governos específicos. O governo cubano enfrenta críticas legítimas por sua gestão econômica e restrições políticas. O Hamas é amplamente classificado como organização terrorista por vários países. Esses debates são reais.
Mas uma questão permanece:
É legítimo utilizar o sofrimento difuso de milhões como instrumento de pressão política?
Se a resposta for afirmativa, então estamos aceitando que civis podem ser convertidos em variável estratégica.
Se a resposta for negativa, então precisamos reconhecer que certas formas de sanção e bloqueio, ainda que justificadas como defesa ou diplomacia, produzem efeitos que desafiam os próprios fundamentos da convivência humana.
Geopolítica versus humanidade
Sanções econômicas são hoje uma das principais armas da política internacional. São preferidas à guerra aberta. Mas isso não significa que sejam neutras ou moralmente inofensivas.
A história mostra que bloqueios prolongados raramente provocam mudanças rápidas de regime. Com frequência, fortalecem elites políticas internas, ampliam mercados paralelos e transferem o peso do impacto para os mais vulneráveis.
A pergunta central não é ideológica. Não é “direita” ou “esquerda”. É estrutural:
Quando o método escolhido para alcançar um objetivo político corrói as bases da vida civil, ele continua sendo um instrumento legítimo — ou passa a ser uma forma sofisticada de punição coletiva?
Se humanidade significa preservar as condições de existência humana, então políticas que produzem escassez estrutural, fome energética e colapso social precisam ser avaliadas não apenas sob o prisma estratégico, mas sob o prisma ético.
Porque uma política que enfraquece a própria humanidade que diz defender termina por negar o seu fundamento.
