Do interior do Espírito Santo ao mundo: o camarão-gigante de água doce vira símbolo de uma nova aquicultura sustentável

No Espírito Santo, viveiros silenciosos e cheios de vida começam a transformar a rotina de pequenos e médios produtores rurais. Longe do cheiro de mar, perto de campos e rios tranquilos, um gigante de água doce tem servido de ponte entre tradição e futuro no campo. Trata-se do Macrobrachium rosenbergii, conhecido como camarão-gigante da Malásia, espécie que ganha espaço na aquicultura capixaba como alternativa concreta de renda e diversificação econômica.

A produção estadual ainda é modesta, pouco mais de 11 toneladas anuais, mas o dado revela algo maior do que o número em si: um setor em formação, com crescimento constante e base espalhada pelo interior. Governador Lindenberg lidera essa movimentação, concentrando cerca de dois terços da produção, seguido por municípios como Ibiraçu, Alfredo Chaves e Marilândia. O mapa da atividade ainda está sendo desenhado, mas os sinais são claros.

Há um novo caminho se abrindo.

Um camarão fora do padrão

O que diferencia o camarão-gigante de água doce não é apenas o nome. Adultos podem ultrapassar os 30 centímetros de comprimento e apresentam rendimento de carne elevado, textura firme e sabor valorizado por restaurantes e consumidores que buscam produtos fora do circuito comum.

Outro ponto decisivo está na água. Ao contrário dos camarões marinhos, que dependem de ambientes salinos durante todo o ciclo produtivo, essa espécie realiza a engorda em água doce. Isso muda completamente o jogo para regiões interiores, onde há disponibilidade hídrica e clima favorável, mas nenhuma relação direta com o litoral.

Existe, claro, um detalhe técnico importante: a fase larval ainda exige água salobra. Isso significa que o cultivo bem-sucedido começa antes do viveiro, com planejamento, estrutura e controle rigoroso desde a reprodução até a fase final de engorda.

Uma oportunidade real para o produtor rural

Para muitos agricultores capixabas, o camarão de água doce surge como complemento — não substituição — das atividades tradicionais. Ele conversa bem com sistemas já existentes, como piscicultura, barragens rurais e tanques escavados, permitindo ampliar a renda sem reinventar completamente a propriedade.

Mas não há romantização possível. Produzir camarão exige manejo técnico, controle da qualidade da água, alimentação adequada e acompanhamento constante. Onde há orientação especializada, os resultados aparecem. Onde não há, os riscos aumentam. A diferença entre sucesso e frustração costuma estar justamente nesse ponto.

Uma atividade conectada ao mundo

O Espírito Santo não está sozinho nessa aposta. O cultivo do camarão-gigante de água doce é uma prática consolidada em vários países, especialmente na Ásia. Na China, Índia, Bangladesh, Tailândia e Vietnã, essa espécie faz parte de cadeias produtivas robustas, movimentando centenas de milhares de toneladas por ano e sustentando milhões de pequenos produtores.

Em escala global, a atividade é frequentemente associada a sistemas menos agressivos ao meio ambiente quando comparados à carcinicultura marinha intensiva. A criação em densidades mais baixas, o menor impacto sobre ecossistemas costeiros e a possibilidade de integração com outras culturas agrícolas colocam o camarão de água doce como alternativa estratégica em tempos de pressão ambiental crescente.

Ainda assim, os desafios são conhecidos em qualquer país: acesso a pós-larvas de qualidade, padronização de técnicas, capacitação dos produtores e estrutura logística para alcançar mercados mais exigentes. Nada disso é exclusivo do Brasil — e justamente por isso, as experiências internacionais ajudam a encurtar caminhos.

Inovação que cabe no interior

Em diferentes regiões do mundo, sistemas integrados vêm ganhando força. A policultura, por exemplo, permite criar camarões junto com peixes em um mesmo viveiro, otimizando espaço, reduzindo custos e aumentando a produtividade por hectare. Há também avanços em sistemas de recirculação de água, bioflocos e modelos híbridos que tornam a produção mais resiliente a variações climáticas.

Essas soluções mostram que a aquicultura moderna não depende apenas de escala, mas de inteligência produtiva.

Um futuro que começa em tanques simples

O cultivo do camarão-gigante de água doce não é promessa vazia nem solução mágica. É trabalho, técnica e paciência. Mas também é oportunidade. No Espírito Santo, ele representa uma chance concreta de fortalecer o interior, diversificar a produção rural e inserir o Estado em uma cadeia global que cresce com foco em sustentabilidade e valor agregado.

Quando um produtor olha para um viveiro e vê mais do que água parada — vê possibilidade —, ele não está apenas apostando em um novo cultivo. Está se conectando a uma tendência mundial que valoriza produção responsável, alimento de qualidade e desenvolvimento local.

E isso, no fim das contas, é o que sustenta qualquer boa história no campo.