Tudo começou com uma peça de Lego que custou oito dólares. Quem diria que aquele brinquedo comprado numa viagem à Legoland, nos Estados Unidos, se tornaria a base de um negócio que hoje processa milhões de quilos de plástico reciclado e constrói casas de verdade?
Bruno Abramo Frederico tinha um problema nas mãos. A metalúrgica do pai, onde trabalhava desde os 12 anos, enfrentava uma crise pesada. Era 2016, logo após a Copa do Mundo, e o mercado de construção civil havia despencado. Precisava de uma solução — e rápido.
Numa viagem com as filhas à Disney, ele entrou numa loja de brinquedos com um escalímetro no bolso. Pegou aquela peça de Lego, mediu, pensou. “Vou transformar esses oito dólares em milhões”, disse às meninas. Parecia loucura. Mas não era.
Voltou ao Brasil e criou o Fubox, um tijolo modular de plástico reciclado de 20 centímetros de comprimento por 10 de largura e 15 de altura. O molde era caro, precisava acertar de primeira. Acertou. A peça virou caixa de passagem para redes elétricas e de telefonia. Depois, lojas e quiosques para McDonald’s, Havaianas, Chilli Beans. Até que chegou às casas.
O plástico que vira teto
A Fuplastic, empresa que Bruno fundou em 2016, já reciclou mais de 6 milhões de quilos de plástico. O material vem de cooperativas de catadores, de sobras de cenografia da Globo, de baldes de açaí da Oakberry — 35 mil baldes viraram 10 mil blocos que construíram 10 lojas.
Cada bloco pesa 500 gramas. Cinco mil deles montam uma casa. Isso significa retirar 2,5 toneladas de resíduo plástico da natureza e transformar em moradia. O processo de montagem lembra mesmo um Lego gigante. As peças se encaixam. Não precisa cimento, água, argamassa. Uma família consegue ajudar na construção. As crianças participam. Bruno mora — ou morou — numa dessas casas para testar tudo. Resistência, ventilação, conforto térmico. Funcionou.
A parceria com a ONG TETO Brasil começou em 2024. Três casas foram entregues até agora na comunidade Porto de Areia, em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo. O financiamento veio do Fundo Comunitário do Airbnb. A meta é ambiciosa: mil moradias.
Thayse Maria e Arivancleide Santos de Oliveira foram as primeiras beneficiadas. Receberam as chaves de casas de 27 metros quadrados, com portas, janelas, estrutura completa. O modelo é chamado de Moradia Semente Ecossustentável. Montagem em 15 horas. Durabilidade de pelo menos 20 anos. Conforto térmico e acústico incluídos.
O que difere isso de uma gambiarra sustentável?
Bruno tem uma tatuagem no braço. É a peça de Lego que mudou tudo. Mas a Fuplastic não vende apenas história bonita. Vende produto certificado. Falcão Bauer, Polibalbino, Instituto Lab System atestam a qualidade. Os blocos são feitos de polipropileno reciclado, um plástico termoplástico encontrado em embalagens, cadeiras, peças automotivas.
O material aguenta umidade, não apodrece, não atrai insetos, resiste a impactos. Pode ser cortado, furado, parafusado. Aceita acabamentos como pintura e revestimento. A instalação é limpa — não gera entulho, usa pouca água. E a empresa já atua em 16 países.
Marcas como Claro, DHL, Enel, Localiza, Swift e Vivo compraram a ideia. Literalmente. Adotaram as estruturas modulares. A Chilli Beans levou um container de 15 metros quadrados para Berlim — 1.300 blocos, 700 quilos de resíduo reciclado. Está em negociação para levar o modelo para Portugal e Peru.
A Fuplastic fatura hoje o dobro da metalúrgica que deu origem ao negócio. Tem fábrica em Cotia, São Paulo, com 120 funcionários. Processou 4 milhões de quilos de plástico só em 2022. Projeta crescimento de 230% em 2024, segundo dados da própria empresa.
Mas resolve o problema da moradia?
Aqui o papo fica sério. O Brasil tem um déficit habitacional gigantesco. Milhões de famílias vivem em condições precárias. Barracos de madeirite, lona, chão de terra batida. As favelas são os lugares mais atingidos pela crise climática — inundações, deslizamentos, chuvas intensas.
O modelo da Fuplastic não resolve tudo. Mas oferece uma alternativa. Rápida, acessível, sustentável. A montagem modular permite adaptar o formato ao terreno. Pode ser em L, em quadrado, em vagão. Depende do espaço disponível. E como não precisa de mão de obra especializada, a própria família ajuda a construir. Isso cria um senso de pertencimento.
Ygor Santos Melo, gerente social da TETO Brasil, resume: causa impacto uma moradia com tecnologia avançada no meio de uma comunidade precária. O objetivo é mostrar que é possível transformar a realidade de muitas famílias quando há esforço conjunto.
A ONG planeja construir mais seis moradias em 2024. O projeto inclui tratamento de esgoto sustentável em parceria com a ONG Biosaneamento e a Amanco Wavin. Glaucia Faria, gerente de sustentabilidade da Amanco Wavin, fala em oferecer soluções eficientes para cidades mais resilientes ao clima.
E o plástico, afinal, é vilão ou herói?
Bruno tem uma resposta pronta: o plástico não é vilão, é imprescindível. O problema é o descarte. Quando entra no sistema de reciclagem e logística reversa, pode ser reaproveitado várias vezes. Minimiza o impacto ambiental.
Os números assustam. O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo. Fica atrás de Estados Unidos, China e Índia. Gera 11,3 milhões de toneladas anuais. Mas recicla apenas 1,3% desse total, segundo estudos recentes. É muito pouco.
A Fuplastic quer fazer a diferença nesse cenário. Além das casas, trabalha com tampinhas plásticas da ONG Tampinhas que Curam. Nos últimos cinco meses, recebeu 40 caminhões com 2,4 milhões de tampinhas — 60 toneladas. O dinheiro vai para tratamento de crianças com câncer. O material vira bloco de construção. Economia circular funcionando.
A empresa também desenvolveu casas de inversor para parques solares, barbearias modulares para microempreendedores, containers para eventos. Tudo feito com plástico reciclado. Tudo pensando em reduzir resíduo e oferecer alternativa ao mercado convencional.
O futuro passa por aqui?
Talvez. A construção civil responde por 40% da demanda global de energia, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. É um dos setores que mais impacta o planeta. Precisa mudar. Urgente.
Soluções como a da Fuplastic mostram que dá para construir de outro jeito. Mais rápido, mais limpo, mais sustentável. Mas ainda há desafios. Infraestrutura de reciclagem no Brasil é fraca. Educação ambiental, idem. Políticas públicas que incentivem economia circular são raras.
Bruno Frederico sabe disso. Diz que é preciso esforço coordenado entre empresas, governo e sociedade. Fortalecer a cadeia de reciclagem. Criar incentivos. Facilitar o acesso.
Enquanto isso, as casas de plástico reciclado vão sendo erguidas. Bloco por bloco. Família por família. A história que começou com oito dólares e uma peça de Lego continua sendo escrita. E parece que tem muito chão pela frente.
