Sudão, a verdadeira terra das pirâmides: um império milenar que supera o Egito em número e história

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No imaginário de milhões de pessoas, pirâmides são sinônimo de Egito. Gizé, Quéops, Quéfren e Miquerinos dominam capas de livros e postais. Mas há outro reino — menos conhecido — onde as pirâmides são a verdadeira marca de identidade de uma civilização poderosa e fascinante: o Sudão. E a surpresa é maior ainda quando olhamos os números.

O Sudão é o país com maior número de pirâmides do mundo.

São mais de 200 estruturas identificadas, contra cerca de 138 no Egito, segundo levantamentos arqueológicos aceitos por instituições internacionais. A maior concentração está na antiga Núbia, berço do poderoso Reino de Kush, que dominou o Vale do Nilo por mais de mil anos.

É uma história grandiosa. E, ao mesmo tempo, pouco contada.

O que dizem os dados arqueológicos

A informação não é nova, nem controversa no meio científico. Ela aparece em estudos, relatórios e acervos de peso.

A UNESCO reconhece desde 2011 os sítios arqueológicos de Meroé como Patrimônio Mundial e descreve a região como a área com maior densidade de pirâmides reais do planeta.

Museus como o British Museum e o Museu de Belas Artes de Boston documentam há décadas centenas dessas estruturas, resultado de expedições arqueológicas sistemáticas.

O arqueólogo alemão Friedrich Hinkel catalogou mais de 200 pirâmides apenas nas necrópoles de Meroé. E projetos mais recentes, como o Qatar-Sudan Archaeological Project, confirmam os números com uso de drones, scanners e mapeamento digital.

O consenso é claro: o Sudão tem mais pirâmides do que o Egito.

Quem construiu essas pirâmides

As pirâmides sudanesas não são cópias tardias do Egito. Elas pertencem a uma civilização própria, africana, sofisticada e poderosa.

O Reino de Kush teve dois grandes períodos.

No primeiro, com capital em Napata, os reis kushitas chegaram a conquistar o Egito e governá-lo como a 25ª Dinastia, os chamados “faraós negros”. Nomes como Taharqa aparecem em registros egípcios e núbios.

Depois, a capital foi transferida para Meroé, onde o império desenvolveu escrita própria, deuses próprios e um estilo arquitetônico inconfundível. Foi nesse período que a construção de pirâmides atingiu seu auge.

Durante séculos, reis, rainhas e nobres foram sepultados sob essas estruturas, espalhadas por Meroé, Nuri, El-Kurru e Gebel Barkal.

Pirâmides diferentes, identidade própria

Quem espera algo idêntico às pirâmides de Gizé pode se surpreender.

As pirâmides do Sudão são mais estreitas e mais íngremes, com inclinação acentuada. Em geral, são menores — entre 6 e 30 metros de altura — mas muito mais numerosas.

Quase todas possuem um templo de oferendas na face leste, decorado com relevos que mostram rituais religiosos, cenas de poder e sucessão real.

É outra estética. Outra lógica. Outro mundo.

Por que muitas estão danificadas

Grande parte dessas pirâmides perdeu o topo ao longo dos séculos. A explicação envolve vários fatores.

Houve saques antigos, erosão natural e, no século XIX, a ação destrutiva do explorador italiano Giuseppe Ferlini, que chegou a dinamitar pirâmides em busca de ouro.

Mais recentemente, a instabilidade política e os conflitos armados no Sudão agravaram o risco. Museus foram saqueados. Sítios arqueológicos ficaram sem proteção.

Especialistas alertam: trata-se de uma das maiores ameaças ao patrimônio histórico da África hoje.

Um legado que pede reconhecimento

Apesar das dificuldades, o trabalho de preservação continua. Arqueólogos internacionais seguem documentando e restaurando estruturas, como a pirâmide N.19, em Meroé, reconstruída com apoio do Qatar.

As pirâmides da Núbia são mais do que uma curiosidade estatística. Elas contam a história de um império africano que controlou rotas comerciais, desafiou o Egito e deixou marcas profundas na civilização do Nilo.

É duro dizer, mas durante muito tempo essa história ficou à margem. Agora, começa a ganhar o espaço que merece.