Houve um tempo em que a rua falava. Falava alto. Falava por meio de um objeto pesado, pendurado na parede, que engolia fichas e devolvia notícias. O orelhão. Você já percebeu como ele sumiu sem fazer barulho? Pois agora é oficial: os telefones públicos têm data para desaparecer do mapa brasileiro. Até o fim de 2028, eles deixam de existir.
A decisão foi confirmada pela Agência Nacional de Telecomunicações e sacramenta um fim que já vinha acontecendo aos poucos, quase com vergonha. Primeiro pararam de funcionar. Depois viraram abrigo de aranha, depósito de panfleto, ponto de sombra improvisado. Agora, viram peça de museu urbano.
Os números ajudam a entender o porquê. O uso dos orelhões despencou com a popularização do celular, dos aplicativos de mensagem e dos planos pré-pagos. Hoje, quase ninguém para na calçada para discar um número de cabeça. Aliás, quase ninguém lembra número algum. O celular lembra por você. E cobra por isso, claro.
Manter essa rede espalhada pelo país custa caro. Limpeza, manutenção, reposição de peças, combate ao vandalismo. Tudo para um equipamento que, em muitos lugares, não recebe uma ligação sequer durante meses. A conta não fecha. E, quando a conta não fecha, o fim costuma ser rápido.
Mas é duro dizer: o orelhão não era só um telefone. Era um ponto de encontro involuntário. Um confessionário público. Um lugar onde se brigava, se pedia ajuda, se avisava do atraso, se terminava namoro. Tudo ali, à vista de quem passasse, com fila e impaciência incluídas.
Quem nunca ficou segurando a ficha com medo de cair antes da frase final? Quem nunca tapou o ouvido para tentar ouvir melhor? Quem nunca falou baixo achando que alguém escutava, mesmo com o barulho dos carros passando?
Nas grandes cidades, o desaparecimento passa quase despercebido. O sinal do celular cobre tudo, até o elevador. Mas em áreas rurais, estradas, vilas isoladas, o orelhão ainda cumpre papel prático. É por isso que a Anatel prevê exceções temporárias. Alguns aparelhos seguem ativos onde não há cobertura móvel adequada ou onde a acessibilidade exige alternativas. Mas o plano é claro: não ficarão para sempre.
Há também uma discussão menos visível. Telefones públicos sempre funcionaram como recurso de emergência. Para quem ficou sem bateria, sem crédito ou sem aparelho. Para pessoas em situação de rua. Para quem precisava ligar sem deixar rastro digital. Isso tudo vai embora junto com o casco de fibra pendurado nos postes.
O curioso é que o orelhão não morreu de uma vez. Ele foi sendo esquecido. Como um parente distante que ninguém liga mais, até que alguém avisa: acabou. O velório é rápido. Sem flores. Sem discurso.
Talvez, daqui a alguns anos, você passe por uma esquina e estranhe o vazio. A marca mais clara na parede. O parafuso sobrando. E pense, por um segundo: aqui já se falou muito. Aqui já se pediu socorro. Aqui alguém chorou escondido.
A cidade muda assim. Não avisa. Só segue em frente.
E o orelhão, que já foi símbolo de comunicação, vira símbolo de silêncio. Um silêncio tecnológico. Limpo. E definitivo.
