Reportagem do The Guardian revela como cidades chinesas aprenderam a guardar cada gota — e por que o mundo observa em silêncio.
Você já reparou como a chuva, em boa parte das cidades, ainda é tratada como problema? Alaga ruas, transborda bueiros, some pelos ralos. Na China, esse raciocínio virou coisa do passado. E quem conta essa história, com detalhes e chão molhado, é uma reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada nesta semana e que joga luz sobre uma das maiores viradas silenciosas da gestão urbana no século 21.
A lógica chinesa é simples, quase desconcertante: se a água cai do céu, por que desperdiçar?
Segundo o The Guardian, a China vem investindo pesado em sistemas de captação e reutilização da água da chuva, integrados a prédios públicos, arenas esportivas, bairros inteiros e grandes centros empresariais. O objetivo não é apenas conter enchentes. É criar uma nova fonte de abastecimento em um país que convive, ao mesmo tempo, com secas severas e chuvas extremas.
O exemplo mais simbólico está em Pequim, no Estádio Nacional, o famoso Bird’s Nest, palco das Olimpíadas de 2008. Ali, a chuva não escorre sem rumo. Ela é captada por uma rede de tubos, armazenada em tanques subterrâneos, filtrada e reutilizada. Serve para limpar áreas internas, irrigar jardins e manter o complexo funcionando. Metade da água usada no estádio vem do céu. Literalmente.
O prédio vizinho, o Centro Nacional de Natação, segue a mesma lógica. Capta cerca de 10 mil toneladas de água da chuva por ano. Não é um gesto simbólico. É política pública em funcionamento.
O Guardian destaca que, somados, esses sistemas permitem que Pequim reaproveite cerca de 50 milhões de metros cúbicos de água da chuva por ano, o equivalente a mais de 30% da demanda urbana da capital chinesa. Um número que chama atenção até dos críticos mais céticos.
Mas a estratégia vai além de obras icônicas. Ela se espalha pelo conceito das chamadas “cidades-esponja”. A ideia é fazer o solo urbano voltar a cumprir sua função natural: absorver água. Para isso, entram em cena telhados verdes, parques alagáveis, calçadas permeáveis e reservatórios subterrâneos. Em vez de expulsar a chuva, a cidade aprende a guardá-la.
É quase uma inversão de mentalidade. E, segundo o The Guardian, não é novidade para os chineses. A reportagem lembra que a valorização da água está profundamente ligada à cultura tradicional do país. Em casas antigas, pátios internos e telhados já eram desenhados para captar chuva. Água acumulada era sinal de prosperidade.
Hoje, essa herança encontra tecnologia de ponta — e dinheiro. Muito dinheiro. O setor de captação e reutilização de água movimentou mais de 126 bilhões de yuans em 2023, de acordo com dados citados pelo jornal britânico. Empresas privadas entraram no jogo. A DJI, gigante dos drones, construiu sua nova sede em Shenzhen com jardins suspensos e sistemas próprios de reaproveitamento da chuva.
A meta do governo chinês, ainda segundo o The Guardian, é ambiciosa: reutilizar até 70% da água da chuva nas cidades-esponja até 2030. Essa água abastece descargas, limpeza urbana, irrigação e outros usos que não exigem água potável. É o que os técnicos chamam de “água cinza”. Nome pouco elegante. Função extremamente prática.
Claro, há desafios. Manutenção custa caro. Planejamento exige tempo. Nem todas as cidades avançam no mesmo ritmo. Mas os resultados já aparecem onde o modelo foi aplicado com seriedade: menos enchentes, mais segurança hídrica e cidades mais resilientes às mudanças climáticas.
No fundo, a reportagem do The Guardian revela algo que vai além da engenharia. Revela uma pergunta incômoda: por que tantas cidades ainda tratam a chuva como inimiga? Enquanto isso, a China faz dela reserva, estratégia e poder urbano.
Talvez a maior lição seja essa. Água não falta. Falta aprender a respeitá-la quando ela cai.
