Cinco anos depois da lama, a floresta começa a responder no Rio Doce

Por muito tempo, a pergunta ecoou entre pesquisadores, moradores e gestores ambientais: como fazer a vida voltar a um solo coberto por rejeito de minério? Cinco anos de trabalho de campo ajudam agora a dar uma resposta concreta — e baseada em dados.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais identificou 363 espécies nativas capazes de sobreviver e se desenvolver nas áreas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. O levantamento percorreu cerca de 30 pontos ao longo da bacia do Rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, exatamente onde a lama deixou marcas profundas no solo e na paisagem.

Não é pouca coisa. Estamos falando de uma das maiores tragédias ambientais do país, com milhões de metros cúbicos de rejeito espalhados por margens de rios, áreas agrícolas e fragmentos da Mata Atlântica.

E aí vem o primeiro choque de realidade. O solo que ficou para trás não se comporta como solo. Ele é compacto, pobre em matéria orgânica e carregado de ferro e manganês. Para a maioria das plantas, é um ambiente hostil, quase inabitável. Ainda assim, algumas espécies insistem. Crescem onde não deveriam crescer. E, ao fazer isso, abrem caminho para as outras.

É aqui que entra a ciência.

Os pesquisadores da UFMG cruzaram dados de campo, análises químicas do solo e observações ecológicas para entender quais plantas não apenas sobrevivem, mas ajudam o ecossistema a se reorganizar. Entre elas, algumas se destacam pelo papel que desempenham logo no início da recuperação.

Um exemplo claro é a embaúba, do gênero Cecropia. Você já deve ter visto uma, mesmo sem saber o nome. Tronco claro, folhas grandes, crescimento rápido. Ela costuma ser uma das primeiras a aparecer em áreas degradadas. Não por acaso.

Na prática, a embaúba funciona como um canteiro de obras da floresta. Seus frutos atraem aves e morcegos, que trazem sementes de outras regiões. Sua copa cria sombra, reduz a temperatura do solo e protege mudas mais sensíveis do sol direto. E suas folhas, ao cair, começam a formar a tão necessária matéria orgânica que esse rejeito simplesmente não tem.

“São essas espécies que permitem que a biodiversidade volte a aparecer em um rio de enorme importância para o país”, resume o professor Geraldo Fernandes, da UFMG, em declarações já publicadas pelo G1 e pelo Jornal Nacional.

Mas o estudo vai além de destacar uma ou outra planta resistente. O banco de dados criado pelos pesquisadores funciona como um guia técnico para a restauração ecológica da bacia do Rio Doce. Em vez de tentativas genéricas de reflorestamento, agora há informação suficiente para escolhas mais certeiras, adaptadas às condições reais do solo contaminado.

Isso muda o jogo. Projetos de recuperação ambiental deixam de apostar no improviso e passam a trabalhar com espécies que já provaram, na prática, que conseguem se estabelecer ali. Não é romantização da natureza. É método.

Outro ponto importante: a pesquisa reforça que a regeneração não acontece de uma vez. Ela vem em camadas. Primeiro as espécies pioneiras, depois as intermediárias, e só então aquelas típicas de uma floresta mais madura. Como num dominó ecológico, uma etapa depende da outra.

Enquanto isso, nas comunidades ao longo do rio, a expectativa continua misturada com desconfiança. Afinal, a recuperação ambiental caminha mais devagar do que a dor causada pelo desastre. Mas os dados ajudam a tirar o debate do campo da promessa vaga e colocam os pés no chão.

Não se trata de dizer que o Rio Doce está recuperado. Está longe disso. Mas a ciência mostra que há caminhos viáveis para reconstruir o que foi destruído. E que a floresta, quando encontra as condições mínimas, responde.

Às vezes, responde com silêncio. Outras vezes, com folhas largas surgindo onde só havia lama.

E você percebe: a restauração não começa com árvores gigantes. Começa com plantas que ninguém costuma aplaudir, mas que fazem o trabalho pesado. Como verdadeiras operárias do verde.