Por favor! Me poupem! Não me digam mais nada sobre o Rei Laranja dos EUA. Sobrecarreguei!

Imagem: PicLumen AI

Tudo começou no dia 20 de janeiro de 2025. Semana que vem completa um ano. Mas, juro, parece uma eternidade.

Naquele dia, Trump voltou. E desde então ele não saiu mais. Não da Casa Branca — isso é detalhe cartográfico. Ele não saiu da minha cabeça, da minha rotina, da tela do celular que vibra como se anunciasse o fim do mundo a cada quinze minutos. Trump virou clima. Está sempre presente, mesmo quando a gente tenta mudar de assunto.

É Trump em cima de Trump. Uma avalanche diária. Quando não é a Venezuela, é o México. Quando não é o México, é a Groenlândia — porque, aparentemente, mapas também podem ser renegociados. Há sempre um país na mira, um líder estrangeiro sendo tratado como figurante de um programa de auditório, uma ameaça dita em tom de piada que ninguém sabe se é piada mesmo.

A política externa virou um jogo de empurra-empurra nervoso. O Irã reaparece como vilão recorrente, daqueles que nunca morrem no último episódio. Gaza surge entre uma fala e outra, reduzida a pano de fundo humanitário em discursos que falam muito de força e pouco de gente. Tudo é grave, tudo é urgente, tudo é dito como se fosse a manchete definitiva — até ser substituído por outra no dia seguinte.

Dentro de casa, o roteiro não é menos cansativo. Minneapolis volta ao noticiário como fantasma mal resolvido de um país que nunca decidiu o que fazer com seus próprios abismos raciais. A Suprema Corte americana, antes envolta naquele verniz solene, agora aparece como personagem político de primeira grandeza, disputada, pressionada, testada. O Judiciário vira alvo preferencial. Atacar juízes passa a ser quase um esporte retórico, como se freios institucionais fossem obstáculos pessoais.

Os adversários democratas, então, nem se fala. Não são opositores: são inimigos. Não erram: conspiram. Não discordam: sabotam. O discurso é sempre o mesmo, só muda o nome do vilão da semana. E, no meio disso, agentes do ICE circulam pelas cidades como símbolo máximo de um Estado que prefere assustar a explicar, mostrar força a construir consenso.

Vieram os perdões. Perdões que não pedem reconciliação, apenas reafirmam trincheiras. Narcoterroristas, atacantes do 6 de janeiro — tudo embrulhado num discurso de justiça seletiva, onde a lei é dura para uns e elástica para outros. Não é esquecimento; é recado. Um “eu cuido dos meus” que ecoa mais alto que qualquer apelo institucional.

E, como se não bastasse, o passado insiste em bater à porta. Epstein reaparece como sombra incômoda, dessas que não se dissipam com coletiva de imprensa. Um nome que carrega perguntas demais e respostas de menos, lembrando que certos silêncios falam mais do que discursos inflamados.

Eu sei, eu sei. Tudo isso importa. Tem consequências reais, humanas, globais. Afeta acordos, mercados, vidas, fronteiras. Mas o problema não é a relevância — é a overdose. É viver num estado permanente de alerta, como se o mundo estivesse sempre a um tweet de distância do colapso.

Sinto falta do silêncio entre as notícias. Do tempo de digestão. Da ideia antiquada de que fatos precisavam amadurecer antes de virar manchete. Com Trump, não há pausa. É uma sucessão de começos, sem meio nem fim, um eterno “agora vai” que nunca chega ao “foi”.

Então deixo aqui meu apelo, quase um pedido de socorro emocional: parem de me avisar sobre Trump. Desliguem os alertas. Segurem as manchetes. Me chamem só quando a Terceira Guerra Mundial começar. Aí eu acordo, prometo. Faço café forte. Leio tudo.

Até lá, me deixem fingir que o mundo também gira sem ele. Nem que seja só por algumas horas. Porque, se isso tudo ainda é apenas o primeiro ano… honestamente, não sei se o noticiário — ou eu — aguenta mais três.