Inverno vira arma de guerra: Ucrânia e Gaza enfrentam frio calculado como estratégia militar

Ataques a infraestrutura energética e bloqueio de ajuda humanitária transformam as baixas temperaturas em aliadas de conflitos que arrastam milhões ao sofrimento extremo.

O inverno de 2025-2026 expõe uma das facetas mais cruéis da guerra moderna: a transformação deliberada das baixas temperaturas em instrumento de morte. A menos de 4 mil quilômetros de distância, Ucrânia e Gaza vivem dramas humanitários distintos, mas compartilham uma realidade brutal — em ambos os conflitos, o frio deixou de ser apenas uma adversidade climática para se tornar parte da estratégia militar.

Enquanto a Rússia destrói sistematicamente a infraestrutura energética ucraniana para privar civis de calor e eletricidade, Israel mantém um bloqueio à entrada de ajuda humanitária em Gaza, impedindo que tendas, cobertores e suprimentos essenciais cheguem a uma população deslocada que enfrenta tempestades de inverno em abrigos improvisados.

Ucrânia: o “general Inverno” reaparece

Desde 26 de dezembro de 2025, uma nova onda de ataques russos em toda a Ucrânia matou civis, danificou infraestruturas críticas e interrompeu o fornecimento de aquecimento e energia para milhões de pessoas, segundo o Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA). Com as temperaturas despencando abaixo de zero, as consequências são devastadoras.

Kiev sofreu o impacto mais severo. Um ataque em grande escala no dia 27 de dezembro deixou mais de um milhão de residências sem energia na capital e arredores. O abastecimento de água foi interrompido e cerca de um terço da população ficou sem aquecimento no auge do inverno. Instalações de energia, prédios residenciais, uma escola infantil, um alojamento universitário e estabelecimentos civis foram danificados.

“A Rússia está tentando transformar o inverno numa arma, negando aos civis calor, luz e água corrente”, denunciou a primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko. “A Rússia está aterrorizando os civis e tentando perturbar a estação do aquecimento.”

Os ataques afetaram também as regiões de Chernihiv, Dnipro, Donetsk, Kharkiv, Kherson, Sumy e Odessa, causando mais vítimas e danificando casas, instalações educacionais e infraestrutura. Em todo o país, as autoridades relataram quase 100 vítimas civis durante esse período.

Embora a energia elétrica tenha sido restabelecida para quase 750 mil residências em Kiev e para quase 350 mil na região metropolitana, o fornecimento de aquecimento e eletricidade continua interrompido devido a cortes emergenciais e programados. Parceiros humanitários montaram tendas de aquecimento onde os moradores podem se abrigar, receber alimentos, carregar celulares e ter acesso a assistência básica.

Estratégia deliberada e recorrente

Esta não é a primeira vez que o inverno se torna parte da estratégia militar russa. Desde a invasão total em fevereiro de 2022, Moscou intensifica os bombardeamentos contra a rede elétrica ucraniana a cada aproximação dos meses mais frios. A tática visa minar a moral da população civil e forçar um colapso social que permita a vitória no campo de batalha.

“Para os russos, o inverno se tornou uma arma contra os ucranianos”, observou reportagem da CartaCapital em 2022, apontando para o padrão de ataques contra infraestruturas de aquecimento. “Quando temos temperaturas abaixo de zero e dezenas de milhões de pessoas sem abastecimento de energia, sem calefação, sem água, isto é um notório crime contra a humanidade”, denunciou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ao Conselho de Segurança da ONU.

A Foreign Affairs alertou que o inverno de 2025-2026 pode ser um ponto de virada no conflito. Especialistas estimam que, se a Rússia acelerar seu avanço enquanto a Ucrânia enfrenta um colapso energético, Kiev poderá ser forçada a capitular já em 2026.

Saúde sob ataque

Os ataques ocorrem em meio à pressão contínua sobre os serviços essenciais. A Ucrânia foi responsável por cerca de 42% de todos os ataques a serviços de saúde registrados globalmente em 2025, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dos mais de mil ataques a instalações de saúde ocorridos em todo o mundo este ano, 561 aconteceram na Ucrânia, resultando em 19 mortes e 201 feridos.

Durante o último fim de semana de dezembro, mais uma unidade de saúde foi danificada em um ataque à cidade de Izmail, na região de Odessa, evidenciando os riscos contínuos para civis e serviços médicos à medida que as condições climáticas de inverno se intensificam.

Gaza: frio e fome combinados

A 3.500 quilômetros de distância, a população de Gaza enfrenta uma versão diferente, mas igualmente letal, do inverno como arma. Desde dezembro de 2025, tempestades de inverno castigam o território palestino, onde mais de 1,9 milhão de pessoas deslocadas vivem em abrigos improvisados, a maioria deles incapazes de suportar as intempéries.

Pelo menos três crianças morreram de hipotermia desde o início de dezembro, segundo dados do Ministério da Saúde palestino. A mais recente vítima foi Arkan Firas Musleh, um bebê de apenas dois meses. Outras 17 pessoas foram mortas pelo desabamento de prédios durante as tempestades.

Entre 10 e 17 de dezembro, cerca de 42 mil tendas e abrigos improvisados foram danificados pelas tempestades, afetando quase 250 mil pessoas. De acordo com o porta-voz da Defesa Civil de Gaza, Mahmoud Basal, mais de 90% das tendas foram arrancadas pelo vento ou inundadas pelas chuvas torrenciais.

“As necessidades continuam imensas, e o clima rigoroso só agrava o sofrimento das famílias que vivem em tendas ou em edifícios danificados pela guerra”, afirmou o Gabinete do Porta-Voz da ONU.

Bloqueio humanitário deliberado

O que torna a situação em Gaza particularmente cruel é que, diferentemente da Ucrânia — onde organizações humanitárias podem atuar com relativa liberdade —, Israel mantém um bloqueio sistemático à entrada de suprimentos essenciais justamente quando a população mais precisa deles.

Desde que o cessar-fogo entrou em vigor em outubro de 2025, as autoridades israelenses rejeitaram 23 pedidos de nove agências humanitárias para o envio de suprimentos urgentes, segundo o Conselho Norueguês para Refugiados (NRC). Entre os itens barrados estão tendas, kits de vedação, roupas de cama, utensílios de cozinha e cobertores — exatamente o que a população necessita para sobreviver ao inverno.

O chefe do gabinete de imprensa do governo de Gaza, Ismail Thawabta, revelou que Israel manteve as passagens fechadas durante 220 dias em 2025. Ao longo do ano, foram impedidos de entrar 132 mil caminhões com ajuda humanitária.

“A ajuda humanitária está sendo usada como arma de guerra”, declarou Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina). “Gaza se tornou uma terra de desespero.”

Novas restrições agravam a crise

Justamente no momento de maior necessidade, Israel anunciou medidas que podem inviabilizar as operações humanitárias em Gaza. O governo israelense ameaça revogar a licença de 37 organizações não governamentais internacionais, caso não forneçam informações detalhadas sobre seus funcionários.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou profunda preocupação. “A suspensão corre o risco de comprometer o frágil progresso alcançado durante o cessar-fogo”, afirmou em comunicado. “Este anúncio soma-se às restrições anteriores que já atrasaram a entrada de suprimentos essenciais de alimentos, medicamentos, higiene e abrigo em Gaza.”

Oito países — Paquistão, Egito, Indonésia, Jordânia, Catar, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — manifestaram profunda preocupação, alertando que os eventos climáticos extremos expuseram dramaticamente a fragilidade das condições de vida, especialmente para os deslocados que vivem em abrigos precários.

Infraestrutura destruída, população vulnerável

Em ambos os cenários, a destruição prévia da infraestrutura torna a população ainda mais vulnerável ao inverno. Na Ucrânia, anos de bombardeios deixaram a rede elétrica fragilizada, incapaz de se recuperar completamente entre os ataques. Em Gaza, a destruição provocada pelo conflito gerou mais de 61 milhões de toneladas de escombros, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O sistema de água e saneamento em Gaza está praticamente colapsado. Mais de 85% das infraestruturas hídricas foram danificadas desde outubro de 2023, e a produção de água opera a apenas um quarto da capacidade anterior. A escassez de combustível e o acesso limitado a aterros sanitários fizeram com que o lixo se acumulasse pelas ruas, aumentando os riscos de doenças.

As equipes apoiadas pelo UNICEF trabalham para remover cerca de mil toneladas de resíduos sólidos por mês, tentando proteger crianças e famílias de surtos de doenças infecciosas — uma tarefa quase impossível quando as tempestades de inverno inundam ruas e abrigos.

Direito internacional humanitário violado

Especialistas em direito internacional são categóricos: o uso deliberado do inverno como arma de guerra viola princípios fundamentais do direito humanitário. Atacar infraestrutura civil essencial à sobrevivência da população ou bloquear deliberadamente ajuda humanitária em condições climáticas extremas constitui crime de guerra.

“Quando alguém priva deliberadamente civis de aquecimento, água e eletricidade durante o inverno, isso vai além da estratégia militar — é uma tentativa de tornar a vida impossível”, explicou um especialista em direito internacional humanitário ouvido pela ONU.

O representante do Estado da Palestina no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), em Haia, foi direto: “A fome está aqui. A ajuda humanitária está sendo utilizada como arma de guerra. Todas as padarias apoiadas pela ONU em Gaza foram forçadas a encerrar. Nove em cada dez palestinianos não têm acesso a água potável.”

Crianças: as maiores vítimas

Tanto na Ucrânia quanto em Gaza, as crianças estão entre as maiores vítimas dessa estratégia cruel. Na Ucrânia, escolas e alojamentos universitários foram danificados pelos bombardeios. Crianças vivem sob o medo constante de novos ataques e passam noites de frio extremo em abrigos improvisados.

Em Gaza, a situação é ainda mais desesperadora. Segundo dados da Iniciativa IPC Global, 98% das áreas agrícolas estão destruídas ou inacessíveis. Como resultado, o preço da farinha aumentou mais de 3.400% desde fevereiro de 2025. Organizações estimam que até o final do ano, 50 mil crianças entre 6 e 59 meses precisarão urgentemente de tratamento para desnutrição.

A Organização Mundial da Saúde alertou para os “níveis alarmantes” de subnutrição na Faixa de Gaza. Das 74 mortes relacionadas à desnutrição registradas desde o início do ano, 63 ocorreram em dezembro e janeiro, incluindo 24 crianças com menos de cinco anos.

Resposta internacional insuficiente

Apesar das denúncias e dos alertas de organizações humanitárias, a resposta internacional tem sido insuficiente para proteger as populações civis. Na Ucrânia, embora haja condenações aos ataques russos, a ajuda humanitária enfrenta dificuldades logísticas e de financiamento. A possível redução ou suspensão da ajuda americana, com a mudança de governo nos Estados Unidos, preocupa ainda mais.

Em Gaza, a situação é agravada pela fragmentação da comunidade internacional. Enquanto alguns países pressionam Israel a remover as restrições humanitárias, outros mantêm apoio incondicional ao governo israelense, enfraquecendo os esforços para garantir acesso humanitário irrestrito.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, definiu como “escandalosa” a medida israelense de restringir as operações de ONGs, alertando que suspensões arbitrárias desse tipo agravam ainda mais uma situação já intolerável.

Cisjordânia: outro front de sofrimento

A crise não se limita a Gaza. Na Cisjordânia, a demolição de 25 edifícios no campo de refugiados de Nur Shams desalojou cerca de 70 famílias em pleno inverno. A UNRWA continua apoiando aqueles que tiveram de fugir de Jenin, Tulkarm e Nur Shams, cobrindo os custos de aluguel por três meses durante o rigoroso inverno.

As agências humanitárias alertam que as restrições planejadas também prejudicariam os esforços para auxiliar as comunidades afetadas pela escalada da violência na Cisjordânia, onde as necessidades humanitárias aumentaram juntamente com o deslocamento.

Precedente perigoso

Philippe Lazzarini, da UNRWA, alertou que as medidas israelenses mais recentes, combinadas com a legislação direcionada à agência, formam “um padrão preocupante” que corre o risco de criar um precedente global perigoso.

“A falta de resistência às tentativas de controlar o trabalho das organizações de ajuda humanitária irá minar ainda mais os princípios humanitários básicos de neutralidade, independência, imparcialidade e humanidade”, afirmou.

Da mesma forma, os ataques sistemáticos da Rússia à infraestrutura civil ucraniana, se não forem adequadamente condenados e punidos, podem encorajar outros atores a usar táticas similares em conflitos futuros.

O que dizem os especialistas

Analistas militares e humanitários concordam que o uso do inverno como arma representa uma evolução preocupante dos conflitos modernos. “Historicamente, o inverno sempre foi um desafio adicional para exércitos e populações em guerra. Mas estamos vendo agora uma instrumentalização deliberada das condições climáticas como método de combate”, explicou um especialista em conflitos armados.

A Foreign Affairs publicou análise afirmando que “a Rússia está produzindo mais munições do que nunca, enquanto a rede de energia danificada da Ucrânia já não fornece eletricidade. Kiev está se preparando para grandes falhas no sistema de serviços públicos durante os meses frios.”

Quanto a Gaza, o Comitê de Revisão da Fome (FRC) classificou o cenário como uma “catástrofe inteiramente causada pelo homem”, destacando que a fome pode ser interrompida mediante cessar-fogo imediato, restauração dos fluxos comerciais e acesso humanitário irrestrito.

Necessidades urgentes

Apesar de milhares de tendas e centenas de milhares de lonas terem sido distribuídas desde o cessar-fogo de outubro em Gaza, os parceiros humanitários estimam que mais de um milhão de pessoas — cerca de metade da população — ainda precisam urgentemente de apoio para abrigo.

Na Ucrânia, a situação energética permanece crítica. Especialistas alertam que o inverno de 2025-2026 pode ser o mais rigoroso desde o início do conflito, com temperaturas potencialmente mais baixas e uma infraestrutura ainda mais debilitada do que nos anos anteriores.

Apelo por ação

A União Europeia, por meio da comissária Hadja Lahbib, advertiu: “Os planos para bloquear as ONGs internacionais em Gaza significam bloquear a ajuda que salva vidas. Todas as barreiras ao acesso humanitário devem ser removidas.”

O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi enfático em conferência na Etiópia: “A fome nunca deve ser usada como arma de guerra. Os conflitos continuam propagando a fome em Gaza, no Sudão e em outros lugares. A fome alimenta a instabilidade e compromete a paz.”

As autoridades da ONU e líderes de organizações humanitárias continuam exigindo acesso irrestrito, respeito ao direito internacional e proteção do pessoal e das operações humanitárias. Contudo, alertam que quaisquer restrições adicionais podem ter consequências imediatas e potencialmente fatais para os civis que dependem de assistência.

Inverno como arma, humanidade sob teste

O inverno de 2025-2026 expõe não apenas a vulnerabilidade das populações civis em zonas de conflito, mas também os limites da arquitetura internacional de proteção humanitária. Quando as baixas temperaturas deixam de ser apenas um desafio natural para se tornar uma arma deliberadamente empunhada, toda a humanidade é colocada à prova.

Em Kiev e em Gaza, mães tentam proteger seus filhos do frio com recursos cada vez mais escassos. Idosos enfrentam doenças respiratórias agravadas pela falta de aquecimento adequado. Crianças morrem — algumas sob bombardeios, outras de hipotermia, outras de fome causada pelo bloqueio de ajuda.

Com a janela de oportunidade para ampliar a assistência de inverno se fechando rapidamente, milhões de pessoas enfrentam a perspectiva de mais sofrimento nos próximos meses. A questão que fica é: até quando a comunidade internacional assistirá passivamente enquanto o inverno é transformado em arma de extermínio em massa?