A cerca de 100 anos-luz da Terra, na constelação de Draco, o exoplaneta TOI-1452 b surge como um dos candidatos mais promissores à categoria de “mundo-oceano”. Detectado inicialmente pelo satélite TESS, da NASA, e detalhado por pesquisadores da Universidade de Montreal, o astro orbita uma estrela anã vermelha em um sistema binário. Embora seu “ano” dure apenas 11 dias terrestres, a temperatura da estrela é baixa o suficiente para manter o planeta em uma zona temperada, onde a água líquida poderia, teoricamente, persistir em sua superfície.
Com dimensões que desafiam a nossa compreensão sobre planetas rochosos, o TOI-1452 b possui cerca de 1,67 vezes o raio da Terra e quase cinco vezes a sua massa. O que realmente impressiona a comunidade científica, entretanto, é a sua densidade. Modelagens geofísicas sugerem que a água pode compor até 30% da massa total do planeta. Em perspectiva, a água na Terra representa menos de 1% de sua massa total, o que coloca este novo mundo em um patamar de abundância hídrica similar ao de luas geladas do nosso Sistema Solar, como Encélado ou Ganimedes.
Contudo, a cautela é a diretriz fundamental no rigor científico. Atualmente, o TOI-1452 b é classificado apenas como um “candidato” a mundo-oceano. Isso ocorre porque outras interpretações para sua densidade — como um grande núcleo rochoso envolto por uma atmosfera densa de hidrogênio e hélio — ainda não foram totalmente descartadas. Portanto, a confirmação definitiva depende de uma análise minuciosa da sua camada gasosa para identificar a presença de vapor d’água ou outros componentes voláteis.
Nesse cenário, o Telescópio Espacial James Webb (JWST) desempenha um papel decisivo. Localizado em uma região do céu que o Webb consegue observar quase ininterruptamente, o planeta está na lista prioritária de alvos para espectroscopia. Através dessa tecnologia, os cientistas poderão “ler” a assinatura química da luz que atravessa a atmosfera do planeta. Esse processo revelará se estamos, de fato, diante de um oceano global profundo ou de um tipo de mini-Netuno gasoso.
Caso a hipótese oceânica seja ratificada, o TOI-1452 b se tornará um laboratório natural sem precedentes para a astrobiologia. Ele ajudará a ciência a entender a formação de mundos onde a água não é apenas um detalhe na superfície, mas a própria essência da estrutura planetária. Além de expandir nosso conhecimento sobre a habitabilidade no cosmos, essa descoberta reforça a diversidade extraordinária de exoplanetas que povoam a Via Láctea, aguardando para serem compreendidos.
TRAPPIST-1
Enquanto o TOI-1452 b impressiona pela sua fração de massa hídrica, o sistema TRAPPIST-1 continua sendo o epicentro das atenções, embora com resultados recentes que exigem cautela. Dos sete planetas rochosos que orbitam essa anã vermelha, os mundos TRAPPIST-1e, f e g residem na zona habitável e foram, por anos, os favoritos para a presença de oceanos globais. No entanto, dados coletados pelo telescópio James Webb entre 2024 e 2025 revelaram que os planetas mais internos parecem desprovidos de atmosferas significativas, levantando dúvidas sobre a capacidade desses corpos de reter água sob a intensa atividade de sua estrela. Atualmente, o TRAPPIST-1e permanece como a maior esperança do sistema, com a ciência aguardando novas observações para confirmar se ele possui uma atmosfera secundária estável ou se é apenas uma rocha árida castigada por ventos estelares.
Por outro lado, o exoplaneta LHS 1140 b tem ganhado destaque como um candidato possivelmente mais robusto que seus “vizinhos” de TRAPPIST. Localizado em um sistema com uma estrela muito menos ativa, este mundo possui entre 10% e 20% de sua massa composta por água, o que poderia se traduzir em um vasto oceano líquido ou em uma superfície de gelo com um mar interior. A estabilidade de sua estrela hospedeira reduz drasticamente o bombardeio de radiação ultravioleta, aumentando as chances de o planeta ter preservado sua atmosfera e, consequentemente, seus reservatórios hídricos ao longo de bilhões de anos. Dessa forma, a busca por mundos aquáticos se divide agora entre a exuberância teórica do TOI-1452 b e a promissora estabilidade ambiental do LHS 1140 b, redefinindo os alvos prioritários na caça por habitabilidade fora do nosso Sistema Solar.
Este vídeo detalha as características geológicas e orbitais dos planetas do sistema TRAPPIST-1.
