Réveillon de Copacabana: o apagamento deliberado das raízes afro em nome do marketing eleitoral

A desonestidade e a falta de ética do prefeito Eduardo Paes que discrimina as religiões de matriz africana no reveillon em Copacabana.

O Réveillon de Copacabana, vendido globalmente como o ápice da celebração turística, comete anualmente um crime de apagamento histórico. Embora o “branco” da festa e o ato de entregar flores ao mar sejam hoje símbolos estéticos apropriados pelo mercado, sua essência reside na resistência e na espiritualidade das religiões de matriz africana. Em 2025, essa violência simbólica atingiu um novo patamar: sob a gestão de Eduardo Paes, a Prefeitura do Rio institucionalizou a exclusão ao erguer um palco gospel e um batistério em plena orla, ignorando as tradições que fundaram a mística do evento.

A origem sequestrada: do ritual à mercadoria

Muito antes dos patrocínios milionários e dos telões de LED, a virada do ano em Copacabana era território sagrado da Umbanda e do Candomblé. No início do século XX, quando essas práticas eram criminalizadas e perseguidas pela polícia, a praia era o refúgio onde se cultuava Iemanjá.

A “festa da virada” que o Rio exporta hoje é, na verdade, uma construção cultural negra. O que o poder público fez nas últimas décadas foi um sequestro: extraiu a estética afro-religiosa (o branco, as oferendas) para criar um produto turístico, enquanto empurra os seus detentores originais para as margens da legalidade urbana e da visibilidade oficial.

O palco gospel: um projeto de poder, não de fé

A instalação do “Palco Leme” e de uma estrutura de batismo cristão na areia não é um gesto de inclusão, mas uma afronta à laicidade do Estado e uma manobra política nítida. Ao privilegiar o segmento evangélico com estrutura oficial, som e segurança, a Prefeitura escancara uma assimetria institucional criminosa:

  • Para o Gospel: Palco, fomento público e chancela governamental.
  • Para o Axé: Silenciamento, restrições sob pretexto de “limpeza urbana” e ausência total de espaço para rituais na noite de 31 de dezembro.

Essa decisão não é aleatória. Com o olhar fixo nas eleições de 2026, o prefeito Eduardo Paes utiliza o espaço público e o orçamento do Réveillon como moeda de troca eleitoral. Ao tentar cooptar o eleitorado cristão conservador, o prefeito sacrifica a reparação histórica devida aos povos de terreiro. Suas declarações públicas, ao classificar as críticas de lideranças afro-religiosas como “preconceito” e referir-se a elas pejorativamente como “essa gente”, revelam o desdém de quem prioriza o cálculo de votos sobre o direito constitucional à liberdade de culto e à igualdade.

As celebrações religiosas originais, que incluíam oferendas a Iemanjá e danças, foram transferidas para o dia 29 de dezembro e para áreas como o Mercadão de Madureira, devido à expansão da festa com shows e fogos de artifício. Apesar disso, a tradição religiosa permanece como fundamento histórico do evento, com praticantes ainda se reunindo em locais específicos para seus rituais.

Racismo religioso e a Justiça provocada

O que ocorre em Copacabana é a expressão máxima do racismo religioso estrutural. Entidades como o Idafro e o CEAP denunciam que não há diálogo; há imposição. A prefeitura ignora pedidos de espaços específicos para ritos afro, enquanto transforma a praia em um templo evangélico a céu aberto.

A reação jurídica é o último recurso contra uma gestão que confunde o cargo público com um comitê de campanha. O inquérito aberto pelo Ministério Público Federal (MPF) é um reconhecimento de que a pluralidade em Copacabana é uma farsa se as matrizes que deram alma à festa forem tratadas como intrusas.

Uma festa manchada pela exclusão

Um Réveillon que celebra a diversidade em cartazes, mas expulsa os orixás da programação oficial, é uma festa desonesta. A tentativa de Eduardo Paes de transformar a orla em um curral eleitoral para 2026 fere o patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.

A luta das religiões de matriz africana não é contra a presença de outras fés, mas pela equidade. Copacabana só será de todos quando o Estado parar de se curvar a interesses eleitorais e devolver o protagonismo àqueles que, com suor e fé, transformaram a areia em solo sagrado muito antes do primeiro foguete subir ao céu.