Cerca de um em cada cinco brasileiros já experimentou drogas ilícitas ao menos uma vez na vida, segundo dados da terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O percentual, estimado em 18,7% da população, revela uma mudança significativa no perfil de consumo de substâncias ilegais no país e acende um alerta para a saúde pública.
O levantamento é considerado o mais abrangente do Brasil sobre o tema e entrevistou pessoas a partir dos 14 anos, em todas as regiões do país.
Crescimento expressivo ao longo da última década
Os dados mostram que o consumo de drogas ilícitas mais que dobrou entre adultos nos últimos anos. Em 2012, apenas 6,3% declaravam já ter usado alguma substância ilegal. Em 2023, esse número chegou a 15,8%.
Entre as mulheres, o avanço foi ainda mais acentuado: o índice saltou de 3% para 10,6% no mesmo período. Já entre os homens, a taxa atual é de 23,9%, contra 13,9% entre as mulheres.
Especialistas apontam que essa mudança reflete transformações sociais, culturais e comportamentais, além do maior acesso a determinadas substâncias, sobretudo em ambientes urbanos.
Alerta entre adolescentes e jovens
Um dos dados mais preocupantes do estudo é o aumento do consumo entre adolescentes, com destaque para meninas, que já apresentam índices superiores aos dos meninos em algumas faixas etárias. O fenômeno indica uma inversão histórica no padrão de uso e exige estratégias específicas de prevenção.
Entre jovens adultos de 18 a 34 anos, o consumo é mais frequente, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde os índices superam a média nacional.
Cannabis lidera consumo no país
A cannabis permanece como a droga ilícita mais consumida no Brasil. De acordo com o levantamento, cerca de 28 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já usaram maconha ao menos uma vez na vida — praticamente o dobro do registrado na pesquisa anterior.
O estudo também aponta que mais da metade dos usuários relatou uso diário por pelo menos duas semanas, e cerca de 2 milhões de pessoas se enquadram em critérios de dependência, segundo parâmetros clínicos.
Além da cannabis, cresce o uso de drogas sintéticas, como estimulantes e substâncias associadas a festas e ambientes recreativos, principalmente em grandes centros urbanos.
Impactos diretos na saúde pública
O avanço do consumo de drogas ilícitas pressiona diretamente a rede de atenção psicossocial, os serviços de urgência e emergência e as políticas públicas de saúde mental. Segundo os pesquisadores, o cenário atual exige uma resposta integrada do Estado, com foco em prevenção, acolhimento, tratamento e redução de danos.
A Unifesp destaca que ações isoladas são insuficientes diante de um fenômeno complexo, que envolve fatores sociais, econômicos e culturais.
Um retrato que exige ação
Os dados do Lenad III traçam um retrato claro: o consumo de drogas ilícitas no Brasil não é mais um fenômeno restrito a grupos específicos. Ele se espalha por faixas etárias, gêneros e regiões, exigindo políticas públicas baseadas em evidências científicas, educação preventiva e fortalecimento da rede de saúde.
Para os pesquisadores, compreender o novo perfil do usuário é o primeiro passo para enfrentar o problema de forma eficaz e humanizada.
Espírito Santo
No Espírito Santo, especialistas avaliam que os dados nacionais refletem uma realidade também observada no estado, especialmente entre jovens e adultos residentes na Região Metropolitana da Grande Vitória, onde há maior concentração urbana e circulação de substâncias ilícitas. Profissionais da área de saúde destacam que o crescimento do consumo tem impacto direto na rede de atenção psicossocial capixaba, pressionando os Caps, unidades básicas de saúde e serviços de urgência, sobretudo em demandas relacionadas à saúde mental, dependência química e comorbidades associadas.
