Lixo vira arte: projeto em Vitória une educação ambiental e protagonismo juvenil

Fotos: divulgação

250 crianças e adolescentes de Maria Ortiz aprendem educação ambiental através de oficinas criativas que transformam lixo em arte.

Latas de tinta vazias ganham vida nova nas mãos de crianças e adolescentes do bairro Maria Ortiz, em Vitória. Desde agosto de 2025, cerca de 250 jovens participam de uma iniciativa que une arte, educação ambiental e transformação social, aprendendo que materiais descartados podem se tornar obras de arte.

O projeto “ECOARTEIROS – Educação, Arte + Ecologia em Ações Criativas” é desenvolvido pelo Instituto de Cultura e Responsabilidade Social (ICORES) em parceria com a Casa de Atendimento a Crianças e Adolescentes (Caoca). A iniciativa foi viabilizada pelo Edital Transformar 2025, do Instituto Unimed Vitória, em parceria com a Comprocard.

Da vulnerabilidade ao protagonismo

O bairro Maria Ortiz enfrenta desafios estruturais típicos de áreas marcadas por vulnerabilidade social. É nesse contexto que o projeto busca criar pontes por meio da educação ambiental, arte e cultura. “Nosso território convive com problemas ambientais significativos e desafios que afetam o desenvolvimento integral das nossas crianças”, explica Miroslavia Façanha de Souza, conhecida como Mira, presidente da Caoca.

Durante quatro meses, cerca de 50 crianças e adolescentes participaram diretamente das oficinas, realizadas uma vez por semana nos turnos matutino e vespertino, com duração de 1h30 cada. As atividades aconteceram na sede da Caoca, na Rua Prof. Mario Bodart.

Aprendendo a criar e conscientizar

O projeto começou com rodas de conversa divertidas, onde os participantes discutiram temas como “O que é o meio ambiente?”, “Poluição e reciclagem” e o papel de cada um na preservação ambiental. A abordagem lúdica facilitou a compreensão dos conceitos de reduzir, reutilizar e reciclar.

Nas oficinas de pintura e reciclagem criativa, as crianças tiveram suas primeiras noções de artes visuais e técnicas básicas de pintura. “Elas aprenderam a criar um projeto de arte, partindo desde a poética da criação, a escolha da paleta de cores e os croquis, até a apresentação da obra, transformando-se em verdadeiros artistas mirins”, descreve Zuleica Faria, presidente do ICORES.

Durante o processo, as crianças pintaram latas de tinta vazias do Instituto ICORES com temas livres. O projeto culminou com a criação de um pequeno mural na Caoca sobre o meio ambiente, revitalizando o espaço utilizado pelos jovens.

Obras que geram renda

As latas pintadas foram transformadas em obras de arte para exposição e venda, com a renda revertida para a própria comunidade. Esta estratégia promove não apenas a consciência ambiental, mas também o empreendedorismo social e o senso de pertencimento dos participantes.

“Com a implementação do projeto, esperamos despertar a conscientização ambiental ampliada entre os jovens, o desenvolvimento de habilidades artísticas e o senso de pertencimento, a redução do descarte incorreto de materiais, o protagonismo juvenil em ações sociais sustentáveis, o fortalecimento da rede comunitária e a valorização cultural local”, afirma Zuleica Faria.

Um instituto com história de transformação

O Instituto ICORES tem origem no Instituto “TamoJunto”, criado em agosto de 2009, com o objetivo de utilizar arte, cultura, educação ambiental, esporte e lazer como ferramentas de transformação social. Em dezembro de 2020, ampliou seus objetivos e passou a se chamar ICORES.

A entidade desenvolveu diversos projetos emblemáticos em Vitória, incluindo o “Colorindo o Centro” (2021-2022), que pintou um corredor cultural de mais de 2,7 km contando a história do Centro de Vitória, e o mural “Amor de 4 Patas” (2024), com cerca de 250 m², voltado à causa animal.

Em parceria com a EMEF Álvaro de Castro Mattos, o ICORES também desenvolveu o projeto “Porão em Cores”, que retrata o cotidiano de estudantes com altas habilidades e superdotação. Mais recentemente, o instituto lançou o projeto “Arte Legal: Colorindo Direitos, Construindo Futuro”, aprovado pelo Fundo da Infância e Adolescência de Vitória, que promove os direitos da criança através da arte.

Educação ambiental na prática

A metodologia do ECOARTEIROS alinha-se às tendências contemporâneas de educação ambiental, que defendem a importância de ensinar reciclagem desde a primeira infância. Especialistas apontam que trabalhos com reciclagem oportunizam às crianças momentos de criatividade, o desenvolvimento de habilidades artísticas e a compreensão da importância da preservação ambiental.

A confecção de arte com materiais recicláveis é uma forma simples e efetiva de mostrar aos jovens que materiais descartados podem se tornar objetos úteis e interessantes, promovendo a reflexão sobre questões socioambientais.

Para Mira, o projeto proporciona múltiplos benefícios: “Une educação ambiental, formação cidadã, expressão artística, consciência ecológica e responsabilidade social, estabelecendo pontes e criando vínculos que promovem transformações sociais na comunidade”.

O sucesso do ECOARTEIROS demonstra que a união entre arte e sustentabilidade pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social, especialmente em comunidades que enfrentam vulnerabilidades. O projeto não apenas ensina técnicas artísticas e consciência ambiental, mas também fortalece a autoestima e o protagonismo de crianças e adolescentes, preparando-os para serem agentes de mudança em suas comunidades.